quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Site oficial


 Neste site,  um pouco da carreira literária de Múcio Ataide, seguindo o caminho das letras para  brindar a vida e descobrir seus encantos e seus mistérios, retratando em verso e prosa todo o existir.

            Atraves das páginas, fotos e dados de contato,  conheça um pouco do autor.

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TEXTOS EM RECANTO DAS LETRAS 



sexta-feira, 23 de agosto de 2024

ÉPOCAS

 Toda época vivida

Tem seus amores e suas dores

Seus encantos e seus prantos

Seus porquês e para quês

A vida não acabou

Seu tempo é agora

A roda girou e gira

As engrenagens funcionaram

Amores vieram, sonhos brotarem

Perdas e pedras no caminho ficaram

Tanta coisa veio e se foi

Tanto de tanto aconteceu

E a estrada segue

O hoje é o mesmo ontem,

Apenas mais lapidado,

Brilhante diamante

Pelo fogo moldado

O sol ainda brilha

Chuva ainda cai

O verde ainda se perde nas montanhas

Não acabou

A estrada segue...

Enquanto houver vida...

sábado, 17 de agosto de 2024

A VOZ

 O impacto da partida

A voz que fica na lembrança

A voz que marcou

Que navegou pelas ondas

Que inundou lares

Que sempre será lembrada

Uma era

Um antes um depois

Pessoas especiais se vão

E ao mesmo tempo ficam.

sábado, 15 de junho de 2024

MISTÉRIOS MORADORES E ARMADILHAS DA MINHA CASA

 

Desde 2012 com a morte dos meus pais fui obrigado a aprender a cuidar da vida por mim mesmo e depois descobri as dificuldades do viver SÓ e a tentar também desvendar os mistérios desta casa onde moro desde 1976. Alguns deles prefiro não mencionar aqui para não assustar o leitor, nem impedir seu sono. Saiam fantasmas da madrugada, agora é dia, escondam-se. Abstenho-me. Melhor evitar certas coisas, nem mexer com certas coisas. Mas se eu contar...

Revelarei aqui apenas algumas coisas que me encucam nessa casa que parece ter vida.

Será que em sua casa caro leitor, acontecem também estes fenômenos?

Descobri tudo isso depois que passei a ser dono de casa. Quem é dono ou dona de casa sabe que:

O isqueiro é um sacana que apronta mil estripulias. O isqueiro sempre se esconde da gente. Já reparou isso leitor amigo? O danadinho sempre se esconde. Vou preparar alguma coisa, pego o dito cujo que fica em cima da minha bancada da cozinha, acendo o fogo, vou pegar a panela ou alguma coisa e quando volto, zás, ele sumiu. Então procuro daqui e dali. Depois descubro que o safadinho se escondeu debaixo de alguma tampa de panela sobre a bancada. Bastou eu me afastar para ele rapidamente pular para debaixo da tampa e ficar lá olhando o bobão procurando. Quando o encontro tenho até a impressão que da uma gargalhada sarcástica diante da peça que me pregou. Outro descuido e ele some de novo. Acho que zanza para lá e para cá na cozinha. Até imagino duas perninhas na parte de baixo correndo por cima do fogão da bancada para se esconder. Deve soltar uma risadinha fininha e maldosa. Apesar da cabeça quente, e no momento da refeição sua cabeça sempre está muito quente, ele consegue pensar em mil formas de trolagem. Tem momentos em que não quer acender, quando se molha solta apenas faísca o que me provoca raiva, esquenta aquela rodinha na parte de cima e queima meu dedo. Também queima quando inclina a chama para um lado e depois põe a culpa no vento, quando está engordurado desliza pela mão e cai ao chão. Faz-me pensar que foi deslize, mas na verdade saltou. Tem horas que escapa da mão, escapa nada, pula e vai para trás do fogão num lugar de difícil acesso, então tenho que arrastar o móvel para pegá-lo. Recusa-se a acender o forno, diz não caber lá dentro e tem medo de cair de vez e queimar naquele inferno. Já ajudou e cobriu a vida da sua amiga vela, de luz. Tem o costume de destruir as coisas por onde passa, é inimigo numero um dos papéis. Vai aprontando daqui e dali para ver a minha reação e soltar risadas quentes. Talvez ele seja um menino arteiro cheio de fogo e lenha para queimar, talvez seja a chama ardente da paixão por mim que o corrói por dentro. E queira me chamar a atenção, para sentir minha mão carinhosa passando sobre seus cabelos duros em movimentos rápidos. Filhinho papai tá aqui. Carente demais esse rapaz. Ou quem sabe queira iluminar minha vida com o seu luzir azulado, me fazendo ver que é importante ter o que cozinhar e poder preparar meu próprio alimento. Talvez se esforce para eu ver a luz do ato de valorizar as coisas que tenho e que posso fazer. E só vai sossegar de vez quando lhe faltar energia, ou seja, quando ele ficar sem gás. Então vai vir o colega dele já instruído de fábrica para fazer hora comigo de novo. Posso comprar mil isqueiros sempre vão acontecer essas coisas. Descuidou ele escapou, se safou, se escondeu. E mil coisas vai aprontar. E depois ri do meu modo atrapalhado procurando e xingando. É verdade ou não é? Terminada a feitura da refeição ele volta para a sua bancada e lá permanece quietinho até o momento de brincar de novo.

Já repararam com as roupas se multiplicam? Vejam bem. Você coloca uma determinada quantidade de roupa na máquina depois quando vai pendurar no varal está o dobro da quantidade. Tenho a impressão de que elas se multiplicam dentro da lavadora. Será o milagre da multiplicação? Eu sei essa com pães e peixes. E eu achando que aquele vai e vem era só roupa sendo lavada. Não, aquilo é orgia pura, safadeza, um esfrega esfrega só, e quando termina a população aumentou. Deve ser o perfume do amaciante que funciona como afrodisíaco, ou o pó do sabão em pó que tem o efeito daquele outro pó, quem sabe se não é a kiboa que provoca o êxtase e que faz tudo ficar numa boa. Uma calça e uma blusa geram uma nova meinha. Um paletó e uma camisa produzem uma cuequinha. Toalha de banho é mãe da toalha de mesa. A relação homo afetiva entre o casaco e o blazer não pode gerar filhos, mas eles pretendem adotar um biquíni. O abraço quente do moletom seduz a camiseta, que fica toda regatera. Uma calça perdeu o botão na brincadeira. O calção é um solteirão não se envolve com ninguém. É sistemático, solitário e não gosta de multidão e queria se livrar de algumas peças para o ambiente ficar mais tranquilo. Ele deseja tirar as roupas de baixo. O paletó morde a fronha. E ninguém imagina o que acontece entre os lençóis. E por aí vai. Você pendura, pendura e nunca que acaba de pendurar. E às vezes o sexo é tão selvagem que além de molhadinhos alguns participantes até ficam esfolados, rasgados, desfiados, desbotados, um caco só. Nem aquela camisa velha que era tão conservadora continua enxuta. E apesar de tudo a lavagem nem fica tão boa, as roupas quando saem do motel Suggar, não estão lá essa Brastemp de tão limpas. É por que falta amor e profundidade nos relacionamentos, a vida não é só o esfrega esfrega. Alguém precisa falar mais sério e passar um sabão nessas roupas depravadas. Para onde vai esse mundo? Uma roupa tem que ter linha. Não pode se deixar dobrar facilmente. Deve Honrar o guarda-roupa que as acolheu. Ser mais agradecidas ao ferro elétrico que nelas faz tanto carinho. Algumas dão pano pra manga e retalho pra capanga. Até as roupas desbandeiraram, se perderam na indecência e na imoralidade. É preciso lavar a honra dessas peças do vestuário, alvejar suas almas para limpá-las de todas as manchas. Depois da honra rasgada, não adianta remendar. Rasguei o pano do verbo agora. E por causa de toda indecência temos mais trabalho para pendurar, dobrar e guardar. Depois sujar, e depois novamente a luta com o aumento população que causa de tantos males. Roupinhas, juízo meninas.

Acho que vou abriu uma boutique.

Lava, seca, guarda, usa suja, lava...

Panelas e cozimentos outra luta ferrenha. A gente nunca sabe a quantidade de água deve colocar para o ponto certo do cozimento. Ora cozinha demais, ora fica mal cozido. E tem também o problema da doença da LER, LER... DEZA para vigiar as panelas e não deixar queimar. Nesse assunto temos um inimigo crucial o tal do celular. Ah é fatal, distraiu-se um pouco vem aquele chiado e aquele cheiro característico. A aquela panelinha ficou tão preta que nunca consegui fazer com que voltasse ao normal. Na hora de lavar é um martírio também. Você lava e acha que está livre, e pode descansar, mas as panelas e pratos surgem do nada. Acabou de lavar já tem alguns sobre a pia. Tenho a impressão de que se abre um buraco na pia e elas brotam lá de dentro, feito xuxu no muro. É mais uma coisa que se multiplica do nada.

E por falar em panela, A panela de pressão é uma senhora misteriosa. Parece uma madame gorda, emproada, arrogante, cheia de caprichos. Sempre traz uma surpresa quando abrimos e faz as coisas às escondidas. Ela chia e parece xingar a gente, fazendo aquele barulho irritante, mas temos que entender suas manhas e não cobrar muito dela pois afinal ela trabalha sempre sob pressão. Não sei bem como lidar com ela. Coloca-se o feijão de molho, seguindo as dicas de algum youtuber amigo para eliminar substancias ruins do feijão, ela derrama na hora que é pressionada. Se não deixo de molho, gasta tempo demais para cozinhar e muito gás. Ah o tempo, esse é o problema, não sabemos o que acontece lá dentro e nunca podemos calcular o tempo certo. Para saber se o alimento está cozido, temos que desligar tirar a pressão testar depois dependendo voltar de novo ao fogo. É muito complicado. Ela fica tão brava as vezes que tenho a impressão que vai explodir de raiva. Tenho medo da explosão. E quando começa a jogar agua para fora sujando todo o fogão torra a paciência da gente. Certo dia soltou um canudo enorme para o alto sujando toda a parede, fiquei com medo dela explodir e a desliguei. Um dia coze demais, no outro fica duro o alimento, é difícil demais calcular o tempo e o cozimento. Ela às vezes rouba um pouco da comida. Um dia fui cozinhar uma carne e quando olhei estava só a metade da carne dentro da panela, ela comeu a outra parte. Uso-a somente quando o alimento está mesmo muito duro.

O leite então, esse é maior safado. Não estou falando dos comportados leites de caixa, mas sim do tradicional leite da roça, vindo direto das fazendas, que aqui em nossa cidade antigamente era vendido pelas ruas e agora apenas em alguns estabelecimentos, é um cara extremamente problemático. Ponha-o para ferver. Fique atento, o tempo todo concentrado nele, não pisque, vigie. Ele vai despistar você, fazer de conta que é inofensivo, vai hipnotizar você fazendo com que mude de lugar a sua atenção por alguns segundos, o sem vergonha vai esperar você se distrair então vai ferver de uma vez e derramar tudo, sujando o fogão. Ele não tem pressa, espera a hora certa, todo matreiro. Depois agarra no fundo da leiteira que nada consegue tirar. Ele briga até com teflon. Mas é saboroso.

Temos muitos moradores por aqui, eu a minha filhinha bichológica Manu, a Manuela magrela, algumas arainhas que insistem em habitar as paredes com os seus emaranhados de encrencas, formigas por todos os lados, traças, pássaros no telhado, as simpaticíssimas lagartixas de parede, as galinhas do meu cunhado, galinhas do vizinho que passam por um buraco do muro, e outros bichos mais que vêm nos visitar. Cada um de forma própria faz a sua bagunça por aqui.

A casa é grande, às vezes me perco e preciso acionar o GPS para ir da garagem até o quintal passando pelos quilômetros e mais quilômetros de cômodos no meio do caminho. Quarto, sala copa cozinha, cobertas... Tem dois banheiros, mas uso apenas um. Uma garajona onde fica a minha nave prata, e uma garajinha onde fica minha nave negra. Dois cômodos na área externa com a função exclusiva de ajuntar sujeira, um quintalzinho com poucos pés de planta, e alguns pés de galinha acompanhados de corpos de galinhas que nem são minhas. Juntando tudo casa e lote são 250m² de vida pulsante, as vezes terna, noutras aterrorizante, sempre pronta a me aprontar alguma peça.

Têm muitas outras coisas, mil coisas, coisas demais, que não contarei aqui. Quem sabe num próximo livro.

Às vezes penso que a casa como um todo tem vida própria. Tem uma luz que ficava piscando mesmo com o disjuntor desligado, sempre está aparecendo alguma coisa nova dali e daqui, um entupimento, uma parede que descasca. O piso solta do nada também. E ela se suja sozinha. Isso é o que mais me intriga, eu limpo e logo logo está suja novamente, uma manchinha aqui, um lixinho de lá... Penso que ela pensa, e fique maquinando coisas para me atormentar. Imagina-a como uma senhora velha parecida com uma bruxa com roupas puídas, um chapéu enorme uma verruga muito feia na ponta do nariz e esfregando as mãos ela diz: -Vou esperar apenas ele limpar para eu me sujar de novo, vou fazer hora com ele, aprontando varias coisas por aqui...

Descasca, pisca, mofa, suja, apronta, alegra, entristece, anima, desanima, alto, baixo, oito, oitenta... E por aí vai.

Sei que posso através desse texto ter despertado no leitor uma ideia de decadência total, mas não é bem assim. Essa casa tem uma importância muito grande em minha vida e minha história apesar de todos os seus caprichos e peraltices. Mas eu vou enfrentando a fera, ou as feras que povoam a selva bravia do meu dia a dia com os seus ataques ferozes nessa luta constante do viver.

Até mais amigos. E cuidado quando vieram me visitar.


terça-feira, 23 de abril de 2024

LANÇAMENTO DE LIVRO



Lance letras colora o existir "DEIXA EU COMPLETAR" Histórias sobre meu pai e outras mais 

Editora Literatura em Cena 

Com bom humor, criatividade e senso poético o autor conta algumas histórias sobre seu pai e outras mais. Coisas curiosas acontecidas no dia a dia.

Numa leitura fácil e agradável o livro vai proporcionar ao leitor momentos de prazer, com as divertidas histórias, causos, anedotas, curiosidades e muitas outras coisas  que o farão rir, se emocionar, questionar, refletir  a vida e muito mais.

O livro pode ser adquirido diretamente com o autor: mucioataideart@gmail.com 

ou através dos sites: 

LIVRO FÍSICO NA EDITORA CLUBE DE AUTORES:  https://clubedeautores.com.br/livro/deixa-eu-completar-2

EBOOK NA AMAZON :  https://encurtador.com.br/axGZ5


sexta-feira, 19 de abril de 2024

GRANDE FORMIGUINHA.

A formiga levava um peso grande, bem maior que ela. O garoto observava e ficava encantado com aquilo. Como ela conseguia aquilo? E como seria a vida dela?  Como seria lá dentro do buraco das formigas? A casinha..., a comidinha.  Como seria? Ficava divagando, tentando imaginar e descobrir mil coisas  enquanto observava o inseto fazendo seu trabalho.

Foi até uma pilha de madeiras a um canto do muro e tentou pegaruma delas, não deu conta. Admirou-se ainda mais da força da formiguinha.

Ela era uma pequena heroinazinha do terreiro, mais poderosa que gente, porque gente não consegue carregar o que ela carrega. No entanto é um inseto insignificante, para muitos nem é notada, as vezes até pisada. Quanta injustiça nesse mundo!

O menino queria entender as coisas

A pequenina sumiu por debaixo da terra, levando o peso da sua sina de operária cumprindo o  seu papel. Não sabia ela que fizera um biólogo nascer, um cientista florescer e quiçá alguém capaz de mudar os destinos da humanidade. Sem saber despertou saberes, vontades e sonhos. Sem saber fez a diferença.

A vida é assim, pequenos  podem se tornam grandes, além de carregar um peso muito elevado elevam o existir.

quarta-feira, 27 de março de 2024

Contas de Eras


Velas

Pedras grandes

Castiçais

Aldravas

Gigantescos umbrais

Janelas e flores

Tapete de cores

Lembranças e ais

Espreme aí, é um beco

Sinos.

Comporta menino

Matraca

Cheiro de pipoca

Cravos... espinhos

Manto...

flores de forte cheiros

Lágrimas, espanto

O roxo e o coxo

Contrição, mortificação

Dores e espadas

Os anjos, todos os anjos...

Carregam o cordão

Cordão de contas

Contas de eras

E eras e eras...

E vai seguindo...

MÚCIO ATAIDE

terça-feira, 26 de março de 2024

TUDO PARECE ESTAR CONTRA.

 Para eles tudo bem, estão no seu habitat. É tudo fácil.  E o movimento, as falas, o barulho tudo isso faz parte do mundo deles. Deles. Os extrovertidos. Ah deve ser bom demais ser um nesse mundo ocidental que valoriza tanto esse jeito de ser. Se gostam de conversar o mundo os acolhe porque o mundo gosta de conversar. Fala demais. Se querem o agito, movimento o barulho, o mundo aí está para satisfazer seus gostos. Se o zumzumzum existe e esse mesmo zumzumzum carrega a bateria deles então são privilegiados. Tudo se encaixa, tudo preparado para eles. Deve ser bom demais.

Difícil é ser introvertido nesse mundo barulhento e agitado. Ver a bateria ao final do dia se esvair, sentir-se cansado por causa de tanta fala e barulho. Querer o silêncio e ele nunca é ofertado. Gostar de refletir e não poder. Querer ler um ebook em um intervalo ou outro do serviço e do barulho, mas o mundo, esse mundo frenético, que não consegue fazer  silêncio, não nos permite um momento de introspecção para ler  e nem conseguimos um pouco de ócio para tal.  Silêncio é pedir demais de um mundo que fala demais, de um mundo cheio de certezas e tão caótico.  Terrível quando nos acusam de introvertidos como se isso fosse uma doença ou crime  e nos aconselham a ser diferentes. Você tem que mudar, tem que se enturmar... Eles podem seguir seu traço natural, mas nós não. Difícil demais ver  o seu jeito de ser, ser desprezado quando muitos o consideram errado e na contra mão do progresso e  do sucesso.

Difícil quando o mundo quer que você seja diferente do que é. Difícil  se encaixar e encontrar uma forma de ser você mesmo.

Não acho que seja ruim ser introvertido, curtir o prazer da solitude e os tesouros do mundo interior, ler, meditar, estar só, sentir a bateria recarregando, é bom sim,  mas às vezes é muito difícil. Parece que tudo está contra a gente.

 

 

sexta-feira, 22 de março de 2024

MEXE DIREITO

"Mexerica madura

doce nectar

sabor sem igual 

adoça a vida 

nas delícias do quintal "


 O menino foi até o quintal, pensou em pegar uma deliciosa mexerica e saboreá-la. tinha uma bem la em cima amarelinha, parecia esta deliciosa. Desaninou-se porem ao perceber que teria que fazer um grande esforço para apanhá-la. Pegar algum objetivo comprido e pontudo e chuchá-la. Até tinha um bambu por ali, mas pensou no esforço que teria que fazer... Desanimou-se

Olhou para o chão e viu uma quase madura caída, era menor que as outras, resolveu então chupá-la, era mais facil apanhar do chão. 

Mordeu-a, mas não estava gostosa, sabia que aquela lá de cima estaria, mas não queria fazer esforço. contentou-se 

As mexericas caem do pé antes de amadurecer. Por que será? 

Por que será que algumas coisas se precipitam na vida? O rumo certo, ou conhecido como certo não é seguido, há atropelos e  por causa disso talvez as coisas percam o sabor. A mexerica temporona não tem a mesma doçura daquela amadurecida no tempo certo. As vezes é mais azeda, noutras aguada, e até seca. 

E tomar o caminho mais facil pode reduzir o prazer. A conquista muitas vezes adoça a boca. O sacrificio tem suas recompensas. É preciso arriscar, buscar solução saber mexer direito com as ferramentas que temos, com os recursos que estão à nossa disposição.  

O tempo faz a diferença é preciso entender isso, mas a ação também.  Não conseguiria há algum tempo ser  o que sou hoje. Não poderia entender certas coisas da vida sem o toque sábio e preciso da maturidade. E também não seria o que sou sem ter feito certos esforços e movimentos para tal. 

Talvez se fosse viver em outros tempos o que vivo hoje, também me tornaria azedo, aguado ou até seco

Tudo tem o seu tempo. 

E a recompensa da doçura vale o esforço. 

terça-feira, 19 de março de 2024

TRISTE SERESTEIROS


 Moro em cidade de interior e aqui ouço os galos cantando na madrugada, alguns cantam lá de bem longe, outros estão aqui nos terreiros vizinhos, tem até o pequeno garnisé que fica aqui no meu quintal. Eles fazem a sinfonia do amanhecer, um coro bem sincronizado. Conversam cantando. Um canta o outro responde e assim vai até que o dia venha e cale por algum tempo suas vozes.

Despertadores naturais, seresteiros das madrugadas, menestréis do sereno, cantando odes à aurora e brindando ao novo dia. Fazem a ponte entre o escuro e o claro, cordas vocais que vibram no degradê vermelho e amarelo, transição entre dois mundos, o sono o despertar, o claro o escuro. São os eternos vigilantes da madrugada.

Mas o que guarda aquele canto? Qual mistério está escondido naquele som um tanto quanto desafinado, desajeitado e esquisito? Não existe ali o trinado harmônico e sereno de pássaros canoros, aqueles que dobram seu cantar enchendo o ar de notas bem combinadinhas, que acariciam os ouvidos da gente. Não, o canto parece fora de hora, de lugar, um pouco rouco, notas distorcidas, mas mesmo assim há um encanto. Há beleza mesmo nas notas desafinadas, porque eles conseguem despertar dentro da gente algo escondido, perdido nas dobras do tempo. Transportam-nos para outras eras e o som acorda uma melancolia e um pesar que moram lá dentro do coração da gente e nem sabíamos que estava lá, até que o som rasga a madrugada puxando a tristeza lá do fundo.

É triste, é triste o cantar do galo. O som ao longe ou ao perto, desperta dor, medo, perda e lamento. Eras perdidas da infância voltam a nos visitar, frases não ditas ditam coisas, alegrias sepultadas em nossa história mostram a inutilidade de seus túmulos, pessoas que se foram parecem ressuscitar com aquele canto e a dor e o flashes inconvenientes das crises existências e dos pensamentos escatológicos e negativos se instalam em nossas camas, deitam ao nosso lado, conversam com a gente e cantam também, cantam uma canção muito triste, a marcha fúnebre talvez... Prosélitas do mal, essas ideias embaladas pelo canto melancólico que ecoa por todos os cantos, convertem tudo ao redor para a doutrina do fim, da inutilidade e do lamento.

O cantar do galo traz os ares da tristeza, a marca de outros tempos, medos incertezas, dores, o terror da morte, o pavor do nunca mais e o despertar triste, mas ainda assim há beleza e encanto naquele cantar. A madrugada colorida de vermelho e amarelo carregada de belezas e promessas nada seria sem eles.

Vamos acordar!

MÚCIO ATAIDE

segunda-feira, 18 de março de 2024

O APITO

 Por muita  vezes ouvi o apito do trem nas madrugadas da  minha vizinha cidade de Divinópolis.

Naquela época final da década de 80 começa da de 90 existia um Múcio jovem cheio de vitalidade e vontade de viver. E uma das suas diversões preferidas era visitar a tia na cidade próxima. Era uma alegria lá estar. A casa simples, a comidinha gostosa o carinho da tia, o aconchego do lugar, tudo era encantador e comovente.

Além da casa tinha a cidade que por mim era endeusada. Como era bom ir até lá,  desfrutar das ruas, fazer compras, ir a bares, praças, cinemas, clubes, bailes  de todo o vigor  daquele pequeno e amado micro cosmo que nos finais de semana tinha ruas apinhadas de gente e a vida pulsava em cada avenida! A alegria e animação da juventude... Uma cabeça cheia de sonhos, e ávida por realizações, amores e prazer.  

E depois das noitadas e diversões já na cama o som grave que rasgava a madrugada assassinando seu silencio  e ecoando por cada canto.  

Certa madrugada  ao ser acordado pelo potente ruído, e dominado pelo movimento atrevido e até desagradável de ideias perniciosas  que também  buzinavam em minha mente, deixei-me levar por pensamentos melancólicos e escatológicos: “um dia tudo isso vai acabar, um dia talvez eu ouça esse apito, mas não tenha mais o aconchego dessa cama, a gostosura dessa casa, nem carregue mais comigo toda essa alegria jovial. Todo esse reduto de prazer vai virar fumaça. Talvez daqui há alguns anos eu aqui esteja, hospedado em um hotel e ouça esse apito e perceba que perdi tudo isso e então vai doer e vai doer muito.

O tempo passou e a previsão se cumpriu. Depois da morte dos meus tios, já bem mais velho, numa viagem àquela cidade dormindo em um hotel, acordo com o famigerado apito, e ali uma pequena alucinação aconteceu. A disposição dos móveis no quarto  do hotel era muita parecida com a do quarto  que dormia na casa de minha  tia. Uma cama de casal que ficava ao lado da porta  tendo bem a minha frente uma janela, na parte lateral um armário... Um quarto com as mesmas  paredes e teto brancos  que parecia muito com aquele. Então fui puxado do sono pelo conhecido apito e  por alguns segundo quando estava entre o sono e o despertar tive a nítida impressão de voltar àquele quarto. A cena aconteceu em um tom cinza num limbo entre sonho e realidade. E foi mágica.  Eu estava lá de novo, e havia o apito e havia todo aquele pulsar de alegria de outros tempos, e então nada havia acabado. A vida naquele momento ainda tinha a mesma poesia daquelas noites divinopolitanas da juventude, ainda era inundado pela força sem igual dos hormônios e pela vontade de viver e abraçar a vida em toda a sua plenitude.  Fui acordando devagar  e demorei um pouco para entender. Quando a ficha caiu, eu me lembrei daquela noite e daquele estranho pensamento. Minha mente conduziu-me até ali, fez cumprir a profecia daquela madrugada de tantos anos.

E o apito continuou rasgando a madrugada e a minha alma, seu silvo grave penetrante parecia pronunciar em tom áspero e desesperador a frase:  -Nunca mais...

Então doeu, doeu como eu previ que doeria. É triste ver as referências, os prazeres, as coisas que marcaram a vida da gente virarem fumaça de trem se esvaindo pelo ar ao som de um apito triste.

É como se o apito do trem da vida estivesse sempre nos avisando que estamos perdendo muitas coisas pelo caminho.

Piuiiiii.

 

sexta-feira, 15 de março de 2024

LIVRO DEIXA EU COMPLETAR - SEGUNDA EDIÇÃO

 Bom dia !

Estou fazendo PRÉ-VENDA DO LIVRO “DEIXA EU COMPLETAR” 2ª edição
O Valor é R$ 39,90.
Quem quiser adquirir antecipado pode fazer o pagamento através do pix chave: mucioataideart@gmail.com
Ou entre em contato pelo fone (37) 99826-7396 (whatsapp)
Favor passar o comprovante do pix para o mesmo whatsapp.
Segunda edição do Livro "Deixa eu Completar" Histórias sobre meu pai e outras mais. Reflexões, crônicas, os causos do velho, histórias curiosas e divertidas.
Novos textos, nova capa, nova diagramação.
Com o trabalho primoroso dos profissionais da Editora Literatura em Cena e o talento de Ricardo Welbert no desenho de capa.

SENDAS MUITAS

 Entre o torpor e a consciência

Entre o sono e o alerta

A mente faz os seus caminhos

Toda clara e aberta

Suas sendas são muitas

Brs, trilhas, veredas,  savanas

Entre pedras e paus

Entre o bem e o mal

Estrada tortuosa ou plana

sexta-feira, 8 de março de 2024

COISAS BOAS COISAS VÃS

A mesma coisa

tudo se repete

o misto de raiva

medos e alegrias 

e sonhos

brota de novo

se esconde 

se expande.

tudo vai e vem

como é isso?

quem plantou isso?

quem inventou

como pode ter

algo tão estranho

e impreciso 

a mente

essa deusa

vilã

que coisa 

ditar-me

coisas boas

coisas vãs


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

SUPREMACIA

 Assistindo ontem aos jornais  e vendo o Sr. Filipe Martins aliado de Bolsonaro  fazendo o gesto com os dedos símbolo considerado por alguns  como símbolo da supremacia branca lembrei-me do livro Um milhão de pequenas coisas  de Jodi Picoult que li recentemente.

Baseado em fatos o livro conta a historia de uma enfermeira obstetrícia proibida de cuidar de uma criança branca, porque os pais supremacistas pediram a direção do hospital para que nenhum negro se aproximasse do filho deles. Após uma cirurgia a enfermeira foi obrigada a atender a criança porque ela estava morrendo, tentou reanimá-la, mas mesmo assim a criança morreu e ela foi a julgamento sendo acusada de matar a criança.

O livro descreve muito bem sobre a teoria do arianismo, da supremacia branca, que causa nojo e asco, difícil  acreditar que exista algo assim. O pai da criança fazia parte de um grupo de Skinheads, ele, a esposa (mãe da criança que faleceu) o sogro e várias outras pessoas saíam pelas ruas espancando e até matando negros, latino-americanos (detestavam mexicanos) judeus e outros. Eu com minha cor parda seria eliminado por eles caso cruzasse o caminho do grupo numa noite qualquer. Diriam vamos pegar o Múcio ele é latino ele  é do grupo errado.  De acordo com a história,  na maneira de pensar deles o branco é a raça verdadeira e as outras são sujas, manchadas e devem ser eliminadas. O autor do livro menciona uma igreja cristã em que  os supremacistas do livro eram adeptos e que  acredita que Deus fez os brancos como raça pura, a verdadeira,  apenas esses são filhos de Deus  o diabo fez  os outros e para fazer a vontade de Deus é preciso eliminar todos os que não são puros.

Tivemos um gostinho por aqui do que o ódio de classe pode fazer. Quando olho para o outro e digo você tem menos valor porque pertence a outro grupo. Eu sou gente de  bem e você do mal, eu sou de uma classe financeiramente superior, de uma raça superior, de uma orientação sexual melhor,  do outro partido, do outro time, de outra ideologia e por isso, por você ser diferente eu preciso combater você.  Enfim, esse ódio no livro foi apresentado como crença em supremacia branca, mas ele   tem várias faces todas elas horrendas .   Não sejamos vítimas dele.

Será que nosso ex-presidente foi capaz de flertar  ideologicamente com isso e conviver  com pessoas que pensam dessa forma? Principalmente em um  país que é pura  miscigenação. É de assustar de verdade

Recomendo o livro  é muito bom. E o final surpreendente.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

VEM AI...

 Vem por aí a segunda edição do Livro "Deixa eu Completar" Histórias sobre meu pai e outras mais.

Novos textos, nova capa, nova diagramação.
Com o trabalho primoroso dos profissionais da Editora
Literatura em Cena e o talento de Ricardo Welbert no desenho de capa.
Em breve o lançamento.
mucioataideart@gmail.com.



quinta-feira, 23 de novembro de 2023

JESUS SEM BRAÇO.

Aproveito o conto abaixo e a reflexão dele para desejar a você caro leitor deste blog um santo e abençoado natal e um 2024 cheio de coisas boas. Boas Festas! Felicidade! 


Conto de Natal 2023

Autoria Múcio Ataide

Indeciso bateu com os nós dos dedos na porta, logo abaixo da guirlanda verde e vermelha. E Por alguns instantes pensou em desistir. O corpo estava bambo, tremia um pouco.  Sentia medo e tristeza.  Não tinha meios de conter as lembranças nem o furor interno ao voltar ali.

Ouviu o ruído quase surdo de uma chinela havaiana  castigando  o antigo assoalho. Ela vinha devagar. Dali a pouco abriria descortinando um passado inteiro, tal qual as cortinas de um teatro se abrem para que o drama comece.

Viu o vulto por trás  do vidros coloridos da porta, depois ouviu  o clic da fechadura  e finalmente o interior da casa.

 Por trás da porta apareceu um rosto moreno, de aparência cansada já um pouco enrugado trazendo  olhos negros tristes e indecisos.  Um sorriso que era de felicidade, mas que escondia ou tentava esconder lágrimas.

–Oi Roberto. Você veio, que bom!

–Como está minha irmã?

–Dá um abraço.

O abraço revelou o que o sorriso escondia. Represas se rompem quando a força das águas é grande demais.

Depois de um instante de silêncio embaraçoso e indeciso, recompuseram-se.

–Entra, senta aí, eu vou passar  um café e trazer um bolo de fubá que acabei de fazer e a gente conversa.

Enquanto ela foi à cozinha ele aproveitou para andar um pouco pela casa, reconhecendo o local, tocando nos móveis, sentindo arrepios,  sem poder impedir os gatilhos mentais que o atacavam sem piedade. Os caibros escuros, o chão de pisos claros, os quadros de santos na parede. Tudo parecia conservar os ares de outras eras. Estar ali  era dar uma abraço apertado no passado.

Entrou em um cômodo e outro, tateou cada  cantinho esquecido.  A casa era invadida por um raio insistente de sol que dourava parte da sala e parecia acordar outros tempos e despertar um estranho misto de dor e alegria.

–Senta aí mano. Aí o café fresquinho e o bolo que você tanto gosta. Vamos conversar. Puxa que bom que você veio. É a primeira vez que volta aqui depois...

–Ah Amanda se você soubesse como foi difícil vir.   

–Eu imagino. Mas você está muito bem mano. Continua o morenão alto e bonito que arrasava com a gatinhas na escola. Eram todas apaixonadas por esses olhos castanhos e o porte atlético. Não mudou muito não.

–Bom, mas caiu neve sobre os cabelos negros.

–Ah essa neve cai mesmo, eu tenho meus artifícios para contê-la.

– É o artifício acaju.

–São naturais.

–Claro que são.

–Na nossa família a neve cai bem cedo.

–Hum, delicia de café e esse bolo esfarelento  também está muito gostoso! Igualzinho ao da mamãe.

–E como vai a vida?

–Estou batalhando com meu escritório. Dizem que por lá tem um advogado pendurado em cada árvore, então a concorrência é braba. Mas vou indo.  

–Devagar você chega lá. Eu por enquanto estou vivendo com a pensão do Rubens, mas eu quero arrumar um trabalho. Depois que saí do supermercado, minha vida está muito vazia. O dia inteiro nessa casa escura não é fácil não.

– Isso mesmo mana, arruma um serviço e ocupa a cabeça, lhe fará bem.

– Mas a casa continua igual né? Ali, a velha cadeira da mamãe. Ela só se sentava nela, lembra?

–Deixei no mesmo lugar, com a mesma almofada. Tinha um ciúme danado dessa cadeira   e se eu ou você ocupássemos aquele lugar ela logo chiava.

– A toalha de crochê sobre a mesa. Lembro bem do dia em que ela terminou de fazer. Foi uma obra de arte e se gabou disso.

– É ela adorava fazer crochê

– Os retratos, os móveis,  o oratório de madeira com a imagem de Nossa Senhora Aparecida que continua com o terço enrolado no pescoço. Você ficava brincando de enforcar a santa. Que maldade! O velho guarda louças, as tigelas esmaltadas,  o fogão de malta, aquele  do frangão do domingo, tudo do mesmo jeito. Você conservou o jeito dela.

– Eu pensei em mudar tudo, mas me doeu, na hora que comecei a tirar as coisas do lugar, senti que não devia. Parecia estar manchando a imagem dela, sei lá.  – baixou os olhos, depois colocou as mãos de unhas muitos vermelhas sobre o rosto. Era como se cada frase fizesse espetar uma lança no peito.

–Eu te entendo – Passou a mão sobre a tinta  acaju, não conseguia esconder o tremor,  pegou um maço de cigarros e o isqueiro  que estavam sobre a mesinha de centro. Acendeu-o e tragou muito lentamente assumindo uma postura  introspecta e distante, tentando ordenar os pensamentos . O trago era a busca do relaxamento e do alívio.

–Quer?

–Não, parei.

–Aquela foto do seu casamento não estava ali.

–Coloquei ao lado da foto da mamãe. Coloquei hoje, porque assim logo estaremos todos juntos na nossa ceia. Ceia, que grande ceia! Ah Roberto perder a mãe e o marido no mesmo ano é demais, é para acabar com o natal de qualquer um – então a represa novamente entornou.  

– Mas estaremos juntos, isso é o que importa – ela fez cara de muxoxo, como se a última frase dele fosse um remendo em pano velho. Frase feita, tentativa frustrada de mascarar a realidade.

–Dois órfãos  solitários, a viúva sem filhos  e o solteirão convicto. Grande natal!

– Ah você montou o presépio. Ali esta. – Aproximou do cenário colorido que estava colocado sobre uma pequena mesa no canto da sala. A árvore de natal e a gruta de Belém.  Viu uma virgem Maria de olhar terno, um São José com cara de responsável, e as vaquinhas e ovelhas que o faziam lembrar-se de um cenário bucólico e distante de muitas outras noites santas perdidas no tempo. O presépio montado e remontado uma vida inteira. Todo fim de ano ali àquele cantinho,  acompanhando a evolução e a decadência das coisas. Vendo os meninos cada ano maiores e a vida se transformando a cada ceia.

–Ah e ele não poderia faltar. Nem esperou a meia noite e já colocou-o no seu trono – Ela riu e pareceu por alguns segundos  conseguir espantar a névoa triste que pairava sobre sua cabeça

–Ele é diferente de todos os outros uai.

–Ah mana essa história  é muito divertida. O menino Jesus sem braço. A imagem caiu, quebrou o bracinho dele, então papai disse que ia comprar cola e colar.

–Senhor Ademar, sempre tentando consertar as coisas. Que saudade!

– É, mas o capetinha do Robertinho fez questão de sumir com o bracinho. Olha que heresia brincar com o braço do Cristo. Então papai se propôs a comprar outra imagem. E a mamãe toda brava disse: – Não Senhor, só porque ele é deficiente nós vamos desprezá-lo? Não. Então quer dizer que se eu perdesse parte do braço você iam me jogar fora e achar outra substituta. Não, não, nada disso.

–Hahaha, essa família era uma piada! Quanta saudade de tudo aquilo!

– Depois de levar uma boa bronca Robertinho nunca mais quis brincar com as imagens do presépio. E o menino Jesus sem braço ficou aí a vida inteira.

– É eu me lembro que gostava de ficar passando a mão no toquinho de braço.

– Então vai lá ainda pode gostar. – ele tocou a imagem bem devagar.

–Dá uma sensação boa. Olha aqui, estou sentindo um pedacinho da pontinha do braço, do lugar quebrado riscando meu dedo. É como se eu o estivesse fazendo carinho. E ele retribuísse. Dá uma sensação gostosa de paz.  Lembra que eu dizia que ele falava comigo enquanto eu fazia isso. Dava-me conselhos?

–Ah é mesmo tinha me esquecido de mais essa sua bobaginha.

–Olha o respeito com o irmão com mais velho heim.

– E o Robson?

–Quem?

–Robson nosso primo. Eu brincava com ele aqui na rua.

–Ah sim, cabeça a minha, até tinha me esquecido dele,  aquele lá é estranho, vive solitário, não liga muito pra gente. Mora num barracão lá do outro lado da cidade.  Sumiu depois que a tia Nena morreu. Vendeu a casa dela e se mudou. Não sei nada da vida dele.

– Eu preciso ir até lá. Não sei por que, mas me deu vontade de vê-lo. Eu preciso ir! Você tem o endereço dele?

Ela foi até a estante, abriu a gaveta,  pegou um pedaço de papel, uma caneta  e anotou o endereço. Enquanto fazia isso sentiu um aperto no coração  e teve uma ideia.

–Aqui está.  Fica no bairro Malheiros. Na parte mais velha da cidade.

–Sei onde é. Uai, mas agora a cidade tem parte nova e velha?

–Imápolis cresceu muito nos últimos tempos. Está parecendo cidade grande.

–Mano, convide o Robson para passar o natal aqui com a gente.

– Vou convidar.

Foi um pouco difícil achar a casa do primo. Teve que se esgueirar por diversos becos lamacentos e pedir um trilhão de informações. As ruas daquele bairro eram tortuosas, sem placas e de difícil acesso. Por fim chegou.

Um barracão sem reboco com janelinhas pequenas azuis e parte do telhado ameaçando despencar.

Ficou com medo também de não ser bem recebido.

Depois de cinco batidas a porta se abriu, revelando um Robson muito diferente daquele dos velhos tempos. Bem magro, Tinha aparência abatida, olhos fundos, os cabelos que antes eram amarelo vivo agora estavam queimados e tinham uma cor  indefinida. No hálito um forte teor etílico.  As íris azuis e belas não eram capazes de esconder a tristeza.

–Oi Robson – cumprimentou meio sem jeito, vendo uma expressão de surpresa e um sorriso disfarçado no rosto descaído.

–Oi Roberto. Que bom que você veio.

–É a segunda vez que ouço essa frase hoje. Estou começando a acreditar que sou bem recebido nos lugares.  Mas... rapaz, foi difícil achar sua casa. Como está primo?

–Entre por favor.

É feio ficar reparando as coisas na casa dos outros dá a impressão de que se está colocando defeitos, mas de forma discreta e à jato Roberto foi revirando um olhar disfarçado pelo ambiente surpreendendo-se com a decrepitude daquela casa de um cômodo só, que tinha como adornos de decoração  roupas pelo chão, um fogão muito sujo com grandes crostas de gorduras e restos de comida, um sofá rasgado apoiado em quatro tijolos grandes e um verniz marrom sobre os móveis formado por uma camada densa de poeira

–Sente-se, fique à vontade – E foram então testar o poder de sustentação dos tijolos – Não repare a bagunça nem a falta de conforto.

–Nossa que calor que tá fazendo heim? – o tempo e a temperatura são sempre a porta de entrada para outros assuntos mais sérios  e o deslize para a falta de jeito e para escapar  da vergonha.

–Sim, tá demais. Nunca fez tanto calor assim. Está precisando de chuva.

–Você tinha meu endereço?

–A Amanda me deu, mas eu custei a achar.

–Ah é mesmo eu havia passado para ela.

–Eu fiquei sabendo da morte da tia Nena. Eu sinto muito primo, infelizmente não foi possível vir, mas eu gostava muito dela. Há três anos não venho nessa cidade. Na verdade depois da morte da minha mãe eu não queria voltar aqui. Tive que insistir comigo mesmo. A Amanda insistiu para que eu viesse, então eu vim. Mas só Deus sabe!

Robsom pegou um cigarro pela metade, que estava jogado sobre o sofá acendeu-o, tragou bem fundo, sem conseguir disfarçar o tremor das mãos.

–Ah minha mãe era tudo para mim. Depois que ela se foi, tudo se complicou. Eu vendi a casa, acabei gastando o dinheiro com besteiras. Vim morar nesse barracão alugado, nesse  fim de mundo Passei a beber, perdi o emprego. Sinto muito falta dela e agora no natal, fico lembrando e...  Ah deixa pra lá primo, me fale de você.

–Eu vou levando a vida. Estou lá em BH, Moro sozinho, tenho meu escritório, vou avançando devagar.

– Que bom! Realizou o sonho de ser advogado. Desde pequeno dizia que queria ser doutor.

–Gosto da minha profissão.

–Aposto que já tem um carrão e um apartamentão. E faz sucesso com a mulherada.

–Nada, estou pagando um apartamento pequeno financiado em trocentas prestações o carro é um gol 2010. E quanto às mulheres dou umas namoradinhas por aí, mas a gente não achei meu grande amor.

–Mas eu vejo que você está feliz primo. Se a tia Maria estivesse aqui estaria orgulhado do filho dela. Sempre foi muito bom – Abaixou-se um pouco, levantou a barra da calça  para coçar a perna que parecia muito  inchada  onde existia uma ferida com uma substância amarela com jeito  e cheiro de putrefação.

–Aquela garrafa ali na mesa é o que?

–Conhaque.

–Posso?

–Claro. Lave o copo na pia.– mas ele não lavou

–Uau! forte heim!

–Ajuda a curar a dureza da vida.

–Acho que hoje eu estava precisando disso.

–Vai passar o natal com sua irmã?

–Sim e eu vim aqui laçar você para passar o natal com a gente. Por favor, queremos você lá. Será um prazer... – E aquela corda ali no canto primo, o que é aquilo?

–Não é nada não primo. Já não tem mais importância.

–Como é que é?

–Eu vou

–Não entendi.

–Eu disse que eu vou passar o natal com vocês. Convite aceito.

–Ah que bom. Então esperamos você lá. Vamos à missa na igreja  matriz às sete horas, isso é tradição e depois vamos para casa. Será um grande prazer. Nosso natal juntos. Ceia simples... Uma família, mesmo com todos os desfalques no time, estaremos juntos como nos velhos tempos.

–Roberto você me fez lembrar dos natais na casa da vovó Inês. Nossa que povão e que festa que era! Nós três foi o que sobrou daquela família inteira, uns morreram outros foram para longe. Agora acabou tudo.

–Acabou nada. A festa continua com a gente.

–É Roberto, É isso, juntos, comemorar. Família. Ainda tem esperança. É, vai ser bom. Não imagina como vai ser bom. Nossa!

–Está tudo bem Robson? Você parece exaltado, emocionado.

–Está tudo bem. Muito bem.  Agora está.

–Ah e Ele vai estar lá.

–Hum o Jesus sem braço.

– O próprio. O nosso  salvador que mesmo faltando um pedacinho continua salvando nosso natal.

–Hoje  mais que nunca tenho a certeza disso Roberto.

–Vou indo primo. Um ótimo natal para você. Desejo-te muitas felicidades e que  tudo se resolva em sua vida. Todos esses problemas, tudo vai ficar bem tenha fé.  Te esperamos lá logo mais.  

–Feliz natal primo e muito obrigado pelo presente.

–Uai, mas eu não trouxe presente algum? 

–Você trouxe sim. Veio até com laço. Acho até  que vou adiar para ano que vem. Ou quem sabe para sempre. Substituir um pelo outro.

–Como assim Robson? Adiar o que para ano que vem? Substituir o que?

– O nó da forca. 

 

 

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

QUITANDA

 Que tal uma quitanda

Especialidade mineira

Que conquista gente

Dessa nação inteira?

Que tal um pão de queijo

Daquele bem quentinho

Pelo ar soltando  fumaça

E exalando o  cheirinho?

E é claro acompanhado de um cafezim

Que tal uma broa de fubá

Que faz a vida mais bela

Fofinha e gostosa

Com a massa bem amarela?

E por falar em fubá

 temos também o bolo

Esfarelando na mão

Que gostinho mais gostoso.

E é claro com um cafezinho

Quentinho e saboroso.

A pamonha o curau,

Os produtos do milho

Que sustentam  e agradam

Pai, mae e filho.

E por falar em derivados

Temos também os do leite

o requeijão e o  queijo  

biscoito de queijo, vou repetir o pão de queijo 

tudo beijo na boca do sabor  

 A coalhada que é deleite

De doce ou de sal

e a nata grossa que contrariando a muitos

só faz bem não faz mal. 

Biscoito de polvilho que frito

Redondo ou torcido

Fica saboroso e bonito

E com café pra completar,

Porque sem café não dá.

Tem muitas coisas

Mas vou parar de falar

Porque   a fome me aperta

coisa louca deu água na boca

Apenas vou lembrar

E falar isso porque  nunca é demais

Tudo trem bão!  Viva Minas Gerais



Site oficial  Neste site,  um pouco da carreira literária de Múcio Ataide, seguindo o caminho das letras para  brindar a vida e descobrir se...