sexta-feira, 11 de novembro de 2022

QUEM PODE TOMAR CERVEJA?

 Autoria Múcio Ataide

Passei pela praça e vi aquele homem tomando cerveja sentando em um banco. Um fato corriqueiro,  já vi pessoas tomando cerveja em vários lugares, nos bares, nas praias, andando pelas ruas com a lata na mão, nada diferente, então o que chamou a minha atenção? Por que eu achei que ele não podia estar ali tomando a cerveja?  A pergunta não demorou a ter uma resposta: aquele era um mendigo que há algum tempo havia me pedido uma esmola na rua. Tinha  certo impedimento físico que segundo ele o impedia de trabalhar.  E o mancebo  usava o dinheiro ganho para beber.

Num primeiro momento senti-me indignado com aquilo e até mesmo enganado. Uma vozinha maldosa disse bem lá no funda da minha mente. – Então esse malandro me enganou, pediu esmola, e eu pensando que era para comprar comida. Agora está ali bebendo. Não está certo isso. O certo seria ele comprar comida. Comprar o essencial para o seu sustento.

Mas logo depois outra voz falou. – Eu chego à minha casa, posso abrir aquela lata de cerveja que está na geladeira e tomar quando eu bem quiser, sem que ninguém julgue o meu momento de prazer. Eu posso, ele não. E porque eu posso? Porque eu tenho um pouco mais.

Então a realidade caiu como uma pedra em cima de mim. Quem tem mais, tem mais direito. Aquele homem tem menos que eu, e um pouquinho só a menos, então ele tem menos direito, eu o julgo por isso. Eu o julgo porque ele está fazendo algo que eu gosto de fazer. Eu o julgo por me achar de certa forma superior a ele.

Então é assim? Ser pobre não é apenas não ter o que comer? É não ter o direito a muitas coisas, é não ter direito a se deliciar com uma boa cerveja. É viver apenas para o que é básico?

Aquele homem que ali está, pobre mendigo, doente, impossibilitado de trabalhar vivendo de esmolas está fadado a não ter prazer, a sepultar sua vida antes da morte. Qual o sentido existe nisso?

Eu tenho apenas um pouco mais que ele, sou pobre, classe baixa, trabalhador, assalariado e posso tomar cerveja, mas ele que tem menos, um pouco a menos, não pode.

Mas o sistema é injusto não apenas para criar necessidade, mas sim para criar a estratificação e classificar as pessoas em classes e categorias. E deles extrai dinheiro  e direito.

A primeira análise empírica, do homem comum, é cruel julga e aponta o dedo para condenar. A segunda, do cientista social entende, compreende que a coisa vai muito além. Muitas questões estão ali dentro daquela lata, que ele sorve com tanta alegria, parecendo ser a coisa mais gostosa do mundo.

Vi uma lógica no meu julgamento e ao mesmo tempo vi uma grande injustiça nele. Percebi como as coisas são perversas e como tudo está calcado em cima da estratificação. Quem pode fazer isso ou aquilo? A quem é dado esse ou aquele privilégio?  Tem mais pode mais, tem menos pode menos? Não é apenas ter o dinheiro para comprar, mas é o direito de realizar. Pois ele tem o dinheiro, ganhou pedindo, não roubando, mas não dou a ele o direito de fazer o que quiser com o dinheiro que é dele.  Soberba, pura soberba.  E por causa disso o meu dedo apontou para ele e logo o execrou pelo ato que pratico com a maior naturalidade sem que ninguém me aponte o dedo. Vejam só o tamanho do abismo que o sistema cria. O enorme buraco que existe entre uma existência e outra.

O primeiro raciocínio simples e empírico faz sentido, é o que todos pensam, mas o segundo vem mostrar o tamanho das injustiças, a calamidade da perda simples de um direito. Pobre só pode comer tal qual um animal vive apenas para as coisas básicas e elementares, não nasceu para os prazeres e delícias , está fadado a carregar sua existência miserável e sem graça até o fim dos seus dias. A mendigar pelo básico, viver pelo básico, uma vida básica e sofrida.

E assim segue até que a vida diga: - Chega, já sofreu demais. A cerveja é só para os privilegiados iguais ao Múcio, quem tem um pouco mais que você, só para os que têm mais, mesmo que seja só um pouquinho mais. Para eles, sim é permitido o prazer, o gozo e as alegrias da vida. Para você não. Bem feito! Quem mandou ser pobre sem nada? Quem mandou não conseguir emprego, quem mandou ser doente e não poder trabalhar? Coisas da sorte, do destino, culpa sua, somente sua.  Direito a menos para você, prazeres a menos para você. O Múcio pode, ele sim, tem direito. Você não. Agora é sua hora de ir. Libere o banco da praça para outros mendigos, outros mais dignos que gastem o dinheiro da esmola com comida e não com prazeres a que não têm direito.

Sai dali pensando sobre essas duas visões. A simples e a sociológica e nenhuma delas resolveu o problema do mendigo que continuou lá saboreando a cerveja, parecendo bem feliz. Um hiato para suas dores e seus dramas.

-Saúde  amigo!

 

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

CONTAS DE GOTAS

Deixa a chuva cair

Que ela faz muito bem

Deixa a chuva cair

Que a paz cai também

Brinda com sua doce poesia

Em contas de gotas desfia seu rosário

Vem saudar nossa alegria

Derrame serenidade nesse dia

Do nosso encontro literário

 

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Pensando aqui...

 Vamos esperar para ver o que vai acontecer

Bolsonaro disse que fecharia o STE se não tivesse 60% dos votos, então vamos esperar para ver se ele vai mesmo fazer isso. Se tem coragem para tanto.

Algumas pessoas disseram que se Lula ganhasse sairiam do Brasil. Vamos ver se vão mesmo embora, e aguardar a alegre despedida.

Será que ao final dos quatro anos nossa bandeira será vermelha? Sai o verde e amarelo azul e branco e entra o vermelho?

Vamos ter banheiro unissex nos lugares públicos?

Todas as igrejas evangélicas estarão fechadas?

O Brasil será uma Venezuela? Uma cuba? Um país comunista?

Como estaremos?

Curioso para ver o que vai acontecer.

Você que acompanha esse blog me lembre dessa postagem.

Talk?

 

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

VIVA A MERITOCRACIA.

 Pedro era esforçado e trabalhador. E gostava de sonhar. Às vezes exagerava um pouco na utopia.

Saía todas as manhãs para a dura lida. E sempre alimentava o sonho de ter uma grande fortuna. Tudo seria pelo seu mérito. Afinal de contas havia lido sobre isso e também assistia a vídeos motivacionais que levantavam aquela bandeira: Bastava ter fé, acreditar, trabalhar e pronto, seria rico. Tudo dependia dele. Teria e seria o que quisesse.

Tudo muito simples... bastava trabalhar com afinco e vencer.

Viu numa revista que um dos ricaços mais pobres do país tinha uma fortuna de R$ 30.000.000,00. Fez os cálculos... bastava apenas conseguir um emprego melhor e ao invés do seu salário mínimo, ganhar R$ 50.000,00 por mês e trabalhar durante 50 anos, sem ter nenhum gasto, guardando toda a bufunfa para alcançar essa fortuna. Fácil e simples. Só dedicar-se.

Viva a meritocracia.

 

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

FOGUETES DA SAUDADE

 Enquanto os foguetes e fogos de artifícios pipocavam no céu causando estrondos e assustando os cachorros, carlos chorava. Naquele momento se lembrava da mãe que se fora.

Dia de Nossa Senhora aparecida. Dia de saudade e de lembranças...

 A fé no coração, o terço na mão, o barulho da explosão e o pavor do nunca mais. A fórmula eficaz na produção de uma importante substância curativa, a lágrima.  

Explode também no ar a saudade. Espalha-se pelos céus da alma num magistral colorido de luzes, se multiplicando em raios de vida e de lembranças.  E faz um barulho mais forte que o dos foguetes e bombas.

Viva Nossa Senhora, viva nossa vida, vivida e revivida nesses loucos, belos e tristes estrondos da existência.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

BELEZA TRISTE

 Quando sol poente pinta o horizonte

ah como é bonito vê-lo!

rajas de beleza   da tarde

em amarelo e em vermelho

Mas também vem a tristeza 

se imiscuir na emoção 

os extremos que se beijam

sentimentos que porejam 

tardinha, triste e bela contradição

sábado, 17 de setembro de 2022

CADÊ O OUTRO?

 O rim que ficou me perguntou:

-Cadê meu irmãozinho?

Eu disse:

-Evoluiu, subiu na vida e foi morar numa casa bem mais bonita!


*** 

Um rim vindo do coração . 

A cirurgia aconteceu, cirurgia  de transplante, eu doei um rim  para minha  irmã Ana,  e foi com muito  gosto  e isso me deixou muito feliz. 

Aproveite bem seu novo brinquedinho Ana. Te amo. 


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

NAVEGANDO

 Quando o mar da vida balança

é preciso ser marujo  forte

segurar firme no leme

e encontrar então o norte

E navegar por muitos mares 

enfrentar a procela e seu brado anarco

entre a prudência  e os   avanços

entre  maré brava ou mar manso

saber conduzir muito bem  o barco 

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

...

Pensando aqui...

Ontem eu estava assistindo a um vídeo do candidato Felipe D’Avila, um liberal de mão cheia, e como todo liberal levanta bem alta a bandeira da privatização. Só espero que não agrida ninguém na cabeça com essa bandeira, pois já temos uma historia assim, mas deixa para lá.  Continuando, ele defendia com aquela mesma prosa de que a economia devia correr livre sem intervenção nenhuma do estado porque o estado é incompetente para gerir e aquela conversa toda.

Daí eu fico pensando:

As empresas estatais dão prejuízo por isso precisam privatizar. Mas se elas dão prejuízos por que a inciativa privada se interessa por elas?  Por que podem dar lucro.  Não seria o caso do estado gerir bem essas empesas? Já sei o que vão dizer: o estado é incompetente, tem gastos demais, cabides de empregos, as estatais são elefantes grandes, cheias de mordomias e roubalheira e bla bla bla , alias esse elefante me divertia bastante nas propagandas do tempo do  Fernando Henrique, porque era a declaração da incompetência do governo, mas enfim é isso que vão falar. Tudo bem vamos privatizar para dar lucro, assim vamos receber o dinheiro da privatização que será revertido para a nação e em beneficio do povo e teremos o imposto do lucro dessas empregas para aquecer nossa economia.

Mas se o  estado é incapaz de gerir uma empresas públicas, ele será capaz de usar bem o dinheiro da privatização e de usar em benefício do povo? E de reverter para a população  o dinheiro dos impostos advindo delas?

Resumindo no final, perdemos as empresas, a iniciativa privada vai ganhar dinheiro com algo que era nosso e vamos continuar na mesma, pois a corrupção que pode ser feita nas estatais pode ser feita também  com o dinheiro que os amados empresários tão patriotas e amigos do Brasil vão nos oferecer com a sua bondade ao pagarem os impostos dos seus lucros absurdos.

O mesmo governo que não presta para gerir estatal vai prestar para gerir o dinheiro advindo da venda e do imposto delas? De repente tudo vai ser diferente? Será que a cobra perde o dente?

Talvez a coisa tenha uma lógica, pois se o dinheiro vem da privatização, não pode ficar nos cofres públicos, mas deve ir  para os bolsos privados. Privado com privado. E os interesses do povo vão  para a privada.

Não seria o papo de   catireiro? Queremos as empresas para nós, e para convencê-los  criamos algumas justificativo e uma pequeinina visão do paraíso. Basta dizer que isso será em benefício do povo e  que tudo serão flores... Vai que cola!

O candidato dizia que com a privatização as empresas terão lucro. Acredito que o lucro surgirá e a riqueza virá Mas lucro para quem? 

No final o povo so perde. É a mesma coisa do lucro exorbitando do agro negocio, parabéns que maravilhoa mas  o lucro é nosso?  É do povo? Produz-se tanto alimento e o povo passando fome. Qual o sentido disso? 

Qual a lógica do avanço, da riqueza de um pais se o povo, o trabalhador que verdadeiramente constrói essa riqueza não usufrui dela? Que avanço é esse? Que sentido isso faz?

 Deus que me perdoe por fazer falsas acusações mas as vezes penso até que esses empresários sonegam imposto.

Sobre esse assunto tenho algumas dúvidas:

 Dia desses um defensor da privatização amigo meu me disse que está se preparando bastante para um concurso publico. Uai! Por quê?

E quanto a preço, será que venderão essas empresas por um preço justo?

A situação do país melhorou de verdade depois das privatizações?

Aquela bela cidade histórica mineira continua tão bela quanto antes?

Cadê o dinheiro das outras privatizações? Cadê o imposto revertido?

O serviço após a  privatização será melhor ou pior?

Por que tanta gente reclama da situação das estradas e do valor dos pedágios?

 O que foi feito com o dinheiro das outras privatizações?


Ah eu adoro os porquês, eles são libertadores...

Só pensando...

  

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

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 Pensando aqui...

Ontem na entrevista do Jornal Nacional o candidato a presidente Lula disse uma coisa interessante. Nos tempos em que o debate politico  maior estava era  entre PSDB e PT, as divergências  eram mais amenas e havia um respeito maior entre os adversários. De uns tempos para cá parece que uma névoa esquisita tomou conta das pessoas e então o opositor se tornou inimigo. Se você pensa diferente de mim você é do mal.  Um se sente na obrigação de xingar  o outro por pensar diferente. O que será que aconteceu? Por que essa onda estranha de ódio tomou conta do Brasil? Um país que sempre foi símbolo de paz e harmonia... Será que é preciso xingar, humilhar os outros na defesa das nossas ideias?

 Meu imponente é meu inimigo? Existe o bom e o ruim? O lado certo e o lado errado? Somos nós contra eles? Quem somos nós e quem são eles?   Meu time é melhor que o seu? É guerra? De onde vem isso? Por que isso ocorre hoje no Brasil?  Quem está nos induzindo a esse comportamento?  E a quais interesses a indução a esse comportamento atende? Só pensando...

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

FILHO DE LATA

 Dirigia pela estrada no seu amado fuscão. Havia reformado o carro e estava muito feliz. Além da parte mecânica e elétrica totalmente em dia  a preciosidade tinha  a cor vermelha viva, rodas de liga leve em formato de cruz e alguns acessórios bem curiosos .O carango parecia mais novo que os novos e tinha muita estrada ainda para rodar.

Fazia deslizar pela rodovia o charme a elegância e o cuidado nos mínimos detalhes. Um pequeno meteoro vermelho rasgando a  noite.

  Ter um carro antigo dá um certo status  e desperta a curiosidade das pessoas. Era como uma marca registrada. Ah é aquele cara do fusção.

 E o fato de ter reformado o carro fazia com que algumas  pessoas entendessem que ali existia algo mais que um veículo, um objeto que foi adornado preparado  e cuidado com muito carinho. Dá muito trabalho reformar e também gasta-se muito dinheiro.  Era quase como um filho, um filho de lata, charmoso, bonito e diferente. Sua marca registrada na mundo.

 Tem gente que torce a cara, ah carro velho é carro velho, pode reformar que continua sendo velho. Alguns condenam o comportamento diferente e outros até esnobam Ah que coisa de pobre reformar carro. Tem que comprar o novo isso sim.

Outros apoiam, reconhecem o trabalho e o esforço despendido e aplaudem a inicitaiva. 

As opiniões divergem, mas o charme vermelho vai pela estrada levando dentro dele a alegria, a satisfação e a realização de um sonho.

Quando se decide cuidar de uma  árvore, têm-se que plantar, regar, podar, adornar com terra e adubo, cinzelar, alimentar,  para depois  vê-la florir. 

Com filhos de lata também é assim.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

SOPRAR DOS VENTOS

 É um livro que se fecha

Quando uma vida termina

O fim de uma bela  peça

No triste  baixar  da cortina

Sabedoria, sentimentos, histórias, cordão de sonhos

linda  pipa que em pleno voo vai

com o soprar dos ventos não se aguenta

A linha então  se arrebenta

E toda beleza pelos ares cai

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

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 PENSANDO AQUI...

Já começaram as fakes, os ataques e aS manifestações  de ódio  nos posts referentes à política na nova campanha eleitoral.  Que coisa bonita! Eita nós! A mesma coisa!

 Eu de minha parte pretendo fazer publicações do ponto de vista ideológico, evitando publicar qualquer noticia não confirmada,  evitando qualquer ataque pessoal ou que venha a ofender a qualquer pessoa. Não me considero dono da verdade, procuro ter  uma visão relativista, dialética e democrática sobre todos os assuntos  e nunca formulo minhas opiniões a partir do certo e do errado, mas sim a partir do que eu acho melhor ou pior, e isso depende da situação e do contexto. Não seria a verdade uma abstração que varia de acordo com a época, a cultura e uma série de fatores?  E aqueles que têm uma visão maniqueísta da realidade me parecem bem ingênuos.  Entre o certo e o errado, o alto e o baixo, o oito e o oitenta, meu time e o seu time, o meu candidato e o seu,  existe muita coisa. O buraco é mais embaixo...

Então respeito é fundamental.

Cada um publica o que quiser e eu também. Se eu vir uma postagem e concordar com ela posso até ir lá e comentar e dar o meu apoio, mas não vou entrar na postagem de ninguém para discordar nem para ofender. Acho isso de muito mau gosto e uma enorme grosseria. Coisa de quem não sabe respeitar a opinião dos outros e carrega ódio dentro de si.

Se alguém fizer algum comentário deselegante nas minhas postagens não vou responder nem rebater apenas ignorar. Quem é capaz de fazer isso não merece a mínima atenção...  

MARIO ARMÁRIO E OS ÓTARIOS.

 Mário abriu seu facebook e viu aquele comentário indelicado numa de suas postagens. O sujeito rebatia suas ideias em frases desconexas e num péssimo português. Xingou até a sua sexta geração, e o mandou para diversos lugares feios . Um show de indelicadezas acompanhadas de palavrões, erros ortográficos e barbarismos gramaticais. Que horror!. Era um daqueles!  E a final usou aquela frase conhecida que fazia seu nome rimar com a palavra armário.

 Era sempre assim, bastava colocar alguma coisa referente às suas posições políticas que logo vinha um engraçadinho para fazer aqueles comentários raivosos e infundados. Se pelo menos aquilo tivesse algum fundamento, mas nunca tinha. Era a agressão de graça, apenas à expressão do ódio e a ausência total da razão.  Aquela turminha do ódio não tinha nunca uma fundamentação lógica. Na verdade eles não sabiam nada de nada.

Mas por outro lado era capaz de entender o que estava por traz de tudo aquilo. A grande sacada, a manipulação total.  A poderosa máquina do algoritmo, a grande rede das fake-news, a manipulação total das consciências. Aqueles não passavam de robôs teleguiados, programados para atacar e criar o conteúdo, conteúdo do mal que se multiplica indefinidamente.

Mais uma vez soltou aquela gargalhada de triunfo e sentiu-se um sortudo por poder entender o processo e não cair na grande teia.

 Seguiu em frente, sem responder, sem entrar em conflito com ninguém, mas de uma coisa tinha certeza: se o post teve aquela resposta raivosa é porque foi capaz de cutucar, de provocar e fazer pensar, e era exatamente isso que ele queria. A coisa fez efeito. E se os incautos agrediram os prudentes abraçaram, então valeu a pena.

Ele pensou:  Mário está colocando os otários dentro do armário.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

...

Pensando aqui... 

Hoje enquanto estava lendo percebi uma coisa interessante, enquanto eu leio focando nas palavras, na estética, na formação das frases e no som dos vocábulos eu acho a leitura chata  e as vezes até sem sentido, porém quando ao ler eu foco no sentido do texto, na trama e faço um fio de meada dos acontecimento eu entendo muito melhor e sinto que a palavra não existe de per sií, ela é escrava de algo maior, ela apenas é a condutora das ideias e dos acontecimentos. A simples mudança da maneira de se ler faz a leitura se tornar mais prazerosa e tudo fazer mais sentido...

terça-feira, 9 de agosto de 2022

PAGUEM MEUS BOLETOS

 Um dia desses fiz uma coisa que não costumo fazer. Mostrar a alguém um livro em produção, e logo aconteceu o que era previsto uma chuva de críticas e sugestões, mude o título, faça um outro desenho da capa, faça aquilo, mude daqui e dacolá.

Entendo que talvez a intenção seja ajudar, mas sinceramente me incomoda essa mania que as pessoas  têm de colocar  defeito em tudo. Talvez eu seja um pouco soberbo e desdenhe as opiniões das pessoas, mas me incomoda um pouco. Dá a impressão de que tudo o que a gente faz é errado. Estão sempre pondo defeito em tudo, nas nossas roupas, ou na maneira de nos vestirmos, na nossa casa, nos nossos hábitos.

Criticas e fofocas, o momento em que a vida do outro se torna mais importante que a nossa.  Incrível  a dificuldade que algumas pessoas têm de cuidar da própria vida. Um dia li uma matéria que dizia que quem comenta da vida dos outros está deixando a sua de lado, como se no momento da fofoca dobrasse a própria vida a colocasse no bolso e fosse cuidar da do outro. E durante o  tempo que perdem com isso poderiam estar cuidando de coisas importantes para si,  exercendo alguma atividade que lhes trouxesse benefícios, crescendo evoluindo, resolvendo seus próprios problemas, apenas perdem tempo porque não mudam a sua vida nem a vida do outro enquanto comentam. Resumindo um tempo perdido.

Parece que estão sempre dispostos a invadir nosso espaço e nossa privacidade. Como alguém que invade o quintal do vizinho para afanar algo e nesse caso afanam o sossego a tranquilidade e semeiam por lá ódios e desavenças.

Privacidade, essa palavra parecia desconhecida por muitas pessoas. Se soubessem entende-la tudo seria muito fácil.  Mas acredito que essas atitudes venham sempre de pessoas fúteis que estão por aí por aí, que vivem sem um propósito parasitando, assim como os parasitas invadem nosso corpo e fazem estragos por lá elas também fazem seus estragos e devem ser eliminadas de nossas vidas assim como os parasitas, eliminados  para todo o sempre.

Talvez seja o ponteiro do desconfiômetro que esteja estragado.  Um defeito que acontece muito. Talvez a vida deles esteja sem graça e a minha mais interessante. Curioso que essa pessoa nunca escreveu um livro e não entende nada do mercado literário para dar palpites.

  Queria ver alguém dizer:  - Olha só seus boletos já chegaram gosto muito de você, vou pagar todos eles! Tai uma invasão de privacidade que eu aprovo totalmente.

Que todos cuidem de sua própria vida.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

LIVRE

 Sempre tem o livro. E essa ideia paira o tempo todo em minha mente.

 Sempre tem o livro E  é para lá que eu vou.

Tem doenças, mas tem o livro, tem mortes, mas tem o livro. Tem dissabores e aborrecimentos, mas estes se dissipam nas páginas.  Madrugadas insones turbinadas de pensamentos catastróficos, porém existe  o livro, para amanhã de manhã, ou para agora mesmo. Tem o livro para compensar, para tapar os buracos. Livro catarse, livro refúgio, porto,  amparo, abrigo, âncora.

Mundos e enfeites, adornos e deleites...  

Livro onde se bebe as palavras, sua beleza, seu encantamento e suas infinitas possibilidades. 

Universo repleto de magias,  onde me banho da mais pura poesia,  onde se busca significados e se entra em tramas e enredos. Onde desfilam  as mais diversas emoções, onde se  chora, se ri,  se vive outra vida  e se é transportado para Roma, para Nova Iorque, para o século passado, para milhões de mundos e  eras. Eras, és, e sempre serás, livro um grande achado, um tesouro, uma referência. Um tudo.

Não importa o estilo, nem a capa, se de terror, mistério, suspense, hot ou amor, clássico ou atual, se é do tipo que consideram  alta ou baixa literatura (que bobagem), não importa nada, apenas essa mistura de letras na tela ou no papel, esse cheiro de papel novo ou mofado, esse deslumbrante tom sépia,  a consistência  e a união das folhas num só propósito: unidas seremos um, nada importa apenas o prazer  do mergulho, do voo e do êxtase.

Ai de mim se não fosse ele, talvez estivesse na sarjeta, talvez todo o sentido da existência houvesse me fugido das mãos. Sempre existe ele, sempre posso me voltar para ele. Ele sempre me espera com braços abertos e um sorriso envolvente,  e sempre me oferece    um leque imenso de possibilidades. Ele é esse profusão de sempres...

La me embrenho por loucas viagens, delírios aceitos,  uma mentira melhor que a verdade. Um mundo falso muito melhor que o verdadeiro.  A total ausência de limites e o poder da liberdade.

Não existe nada igual.

Parafraseando Silas Fonseca,   Não me livro, não me livrarei, e assim livro sempre ficarei.

 Livre só o livro. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

EXTREMOS

 Dois extremos

Sempre estamos entre dois

Que se anelam, se rebelam

Eles se tocam, se reprimem

Ora se juntam, ora se separam

Duas pontas, dois lados

Amor e ódio

bem e mal 

Graça e pecado

Rude e terno

esquerda direita 

Céu e inferno

Ânimo, desânimo

aclive declive 

Efêmero e eterno

Um pensamento

Apenas um pensamento

Faz o humor virar mau humor.

A chave que vira

E do nada

A cabeça sóbria pira.

Duas pontas

Distantes e tão próximas

A alegria a um passo da tristeza

Sem o bonito não existe o feio

O alto nada é sem o baixo

Sem acelerador para que freio?

Dialética, paradoxo

Explicações que nada explicam

Navegamos entre dois mares

Em ondas que vão e vêm...

 

quinta-feira, 28 de julho de 2022

TORVELINHO

 A vida tem cores

Espinhos flores

Opostos e vizinhos

 

deliciosos odores

fétidos bolores

 Água e vinho

 

Pode trazer  dores

Ódios e  amores

Confuso torvelinho

 

Regozijos e  horrores

Vivendo entre valores

Diversos nos caminhos

sábado, 23 de julho de 2022

IR ALÉM

 Ninguem imagina

o que se passa aqui

as voltas que essa cabeça dá

as ideias e as maquinações

nem os absurdos que faço

levado pela mão 

conduzido pela mão

dessa louca chamada imaginação

Ririam com certeza 

Mas o que se há de fazer

se a fantasia faz armadilhas

me faz de presa 

vontade de viver

sonhos que não se contêm

desejo de ir além 

não sei explicar

as explosões de loucuras

nessa longa louca e eterna procura

de vida, vida em plenitude, vida além

dos conceitos valores e convenções

que fazer se sou assim 

talvez seja assim até o fim 

quarta-feira, 20 de julho de 2022

QUINTAIS DE SEMPRE

 Assim como Manoel

Eu também vasculho os quintais

Os meus quintais.

Os quintais de sempre

Cato os tesouros por lá  deixados.

De short, de  chinelas havaianas

Tento eu refazer o caminho

Ser o menino sem destino

Cavando tesouros do chão.

Da terra fofa, vermelha.

Me sujando  todo

Me penduro nos cipós da mata do Tarzan

Voo sem asas e sem nenhum mecanismo

Giro uma lata vazia de goiabada nas mãos

É o volante do meu fusquinha

Faço da tampa da caneta uma nave espacial

E de um objeto quadrado qualquer o manche

Ainda vejo os aviões passarem baixinho por aqui.

Faz de conta que ainda tem pé de manga.

Faz de conta que o cachorro ainda está lá

Ainda sinto o sabor da jabuticaba

E as vezes espeto o dedo no “manacaru”

Vejo minha  mãe cantando lá da cozinha

Enquanto lava os pratos.

Meu pai ainda faz meus brinquedos agachado a um canto.

Oh quantos castelos tenho por aqui!

Um sitio encantado,  um reino lá de muito longe

Bruxos e fadas, heróis e vilões.

Tesouros, tesouros tesouros...

Quanta vida esondida brota nas terras desses quintais!  

Não, o tempo não levou

Não carregou aquele menino.

Ele ainda está por lá

E brinca de viver e sonha

E canta, e faz estripulias.

Mas hoje por tudo isso

Para manter tudo isso.

Faz a melhor de todas as brincadeiras

Para melhor sentir e melhor ver

Para ser eternamente criança

E abraçar em plenitude o viver.

Ele LÊ.

***

terça-feira, 19 de julho de 2022

LER É BOM, MAS NÃO É FÁCIL NÃO.

 Chegou à livraria e  começou a olhar as prateleiras encantada com tudo que via.  Ana Lívia era a leitura em pessoa.  Bastava olhar para ela andando igual a um zumbi em meios aos livros para perceber seu fascínio por aquele mundo.  Pegava um livro, olhava a capa, lia a sinopse, queria comprar, perguntava o preço e então desanimava. Olhava outro e o mesmo ritual se repetia.

Depois de algum tempo foi até uma prateleira dos livros antigos de literatura brasileira e conseguiu enfim achar um mais em conta.

A vontade era parar um caminhão ali na frente da loja e levar tudo. Aquele lugar parecia um castelo encantado. Um lugar mágico com milhões de mundos mágicos, aventuras, ensinamentos. Enfim era para ela um pedacinho do céu na terra.

A leitura  é algo bom, prazeroso traz conhecimento cultura, amplia a mente, nos fazer viajar por diversos mundos  e todos sabemos de suas inúmeras vantagens , mas é uma estrada às vezes tortuosa. Além do preço que está sempre fora do orçamento da gente,  o livro exige  atividade mental, raciocínio, achar o tempo para ler, aceitar ser prisioneiro das tramas e até sofrer junto com os personagens. Mas é algo maravilhoso.

Depois observou que existia num canto uma placa com os dizeres:

“PÁSSAROS TEM ASAS, HOMENS TEM LIVROS”.

Achou a frase inspiradora, mas ficou abismada com dois grosseiros  erros gramaticais  numa  frase escrita em uma livraria.  Torceu o rosto e seguiu em frente.

Logo em seguida  Ana resolveu resolver um antigo problema das leituras. A ideia surgiu naquele momento e veio como um maravilhoso insight. Foi até o setor de papelaria e começou um diálogo inusitado com a balconista.

-Moça, boa tarde.

-boa tarde

-Eu queria  clip.

-Ah desculpe  não temos aquele suporte para fazer vídeos.  

-Não espera, não é nada disso. Eu não estou falando de vídeo clipe. Eu falo de clips de papel

-Feitos de papel?

-Não. Os clipes não são feitos de papel. Papel não é a matéria prima. São usados no papel.

-De qual tipo a senhora quer.

-Na verdade eu quero clipes de plásticos. Eu quero para marcar livros, mas não quero daqueles que marcam livros.

-Deixa eu entender melhor. A senhora quer marcar ou não marcar? Que marque ou que não marque?

-Assim, eu quero marcar o livro quando estiver lendo, mas é bom que o clips  não marque o livro.

-Eu confesso que estou confusa.

Ana então começou a vasculhar sua mente tentando encontrar as palavras. Olhou em volta e os livros a inspiraram. Afinal através deles conseguimos nos comunicar melhor com as pessoas. Então mergulhou nas lembranças de  antigas leituras, trouxe o poder da palavra, a força do raciocínio e o bom ordenamento das ideias e sentiu-se segura para explicar.

-Eu quero uma caixa de clips, esses pequenos objetos que servem para prender as folhas, vou usá-los para marcar nos livros o ponto em que estou nas minhas leituras. Quero-os de plásticos porque assim eles não vão estragar os livros. Quero marcar os livros no sentido de determinar meu ponto na leitura e não quero marcar no sentido de estragar ou danificá-los. Entendeu?

-Sim. Mas infelizmente não temos. Temos clips apenas de metal.

-E esses marcam bastante né?

-Uai, a senhora não queria marcar?

-Deixa isso para lá,  eu vou anotar o número da página num caderninho.

-Tchau.

-Tchau.

LER É BOM, MAS NÃO  É  FACIL NÃO.

 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

SINFONIA

E a maravilhosa sintonia persistia noite à fora. Com certeza era ouvida pelos  vizinhos e por quem mais passasse ali por perto.

Sinfonia da madrugada, notas soltas no ar que se prolongavam por longo tempo. Eu diria até por uma temporada inteira.

O regente era o inverno. Os instrumentos o pulmão e as cordas vocais, os músicos os ácaros. No baixo estava a rouquidão. Nos sopros as partículas de ar. Na percussão o bater do coração. Nas cordas a rinite, no solo a sinusite. Nas partituras notas graves e agudas  em melodias ora rápidas ora lentas. Título da obra: A 9ª sinfonia da alergia.

E a melodia o eterno cof cof da tosse.

***

quinta-feira, 14 de julho de 2022

TERRA FOFA

 Desequilibrou-se um pouco quando pisou naquela parte fofa da terra, ao lado da porteira. Sentiu uma fisgada e percebeu que havia torcido o tornozelo quando afundou o pé. Sentou-se num pequeno barranco ao lado da estrada e lamentou sua sorte.  Agora deveria ir para festa com o pé machucado. Ficou triste porque assim não poderia dançar e aproveitar a famosa fogueira de santo Antônio na fazenda Santa Tereza.

Todo ano Antônio dos santos, o famoso Antônio Pirica, sertanejo valente e amansador de burro bravo visitava aquele lugar. Adorava as festas de  fogueira e se divertia bastante. Morava só numa pequena tapera e sua vida era um pouco sem graça. Não existia muita diversão por ali, então quando chegava o mês de junho e a época das fogueiras era motivo de grande animação. Ia a todas e aquela da Santa Tereza era a mais famosa. Vinha gente de longe para os festejos.

Levantou-se devagar maldizendo a vida. –Que droga!Qual foi o idiota que fez esse buraco aqui perto da porteira? Só para a gente machucar. Agora nada de dança. A festa acabou para mim.

Apesar das mil pragas proferidas entrou na fazenda e aproximou-se do local da festa. Já estava começando.

A bandeira  de santo Antônio estava colocado sobre a mesa da sala e o dono da casa já começava a puxar o terço. Antônio procurou logo uma cadeira num cantinho do terreiro, pois  o pé latejava e precisava descansá-lo. Tentou concentrar-se na reza e esquecer o triste ocorrido. Prosseguiu-se assim uma profusão de Ave Marias e Padre Nossos. Havia gente, na sala, na cozinha no terreiro, todos contritos e orantes, mas pensando na fogueira e nas coisas que viriam depois.

Logo após o terço o dono da casa pegou o maestro e todos o acompanharam. A procissão seguiu pelo quintal, deu a volta por trás de dois pés de manga e se dirigiu para o local onde seria erguido o mastro. Antônio seguia devagar, mancando,  tentando não pisar forte no chão.

Olhou para o lado e viu algo que por alguns momentos amenizou sua dor. Uma caboclinha morena, vestida com os trajes típicos das festas juninas, um vestido de chita, com alguns remendos, laço de fita num cabelo com longas tranças, algumas pintinhas na cara. E uma graciosidade que o prendeu na primeira olhada. A moça olhava para ele  e sorria de forma encantadora. Sentiu-se logo atraído por ela.

 Ele queria continuar acompanhando  a procissão, mas o pé doía muito então voltou para junto da casa sentou-se a um canto  e ficou apenas  observando.

A procissão seguia com as rezas serpenteando pelo quintal.

Escolheu um lugar onde puder observar a moça e a partir daquele momento ela tornou-se a estrela da festa. A fogueira que acendeu seu coração. De vez em quanto seus olhares se cruzavam e sentia-se muito feliz por causa disso. Nesses momentos até esquecia as dores do pé.

Depois de algum tempo tudo mudou e no lugar da reza veio a alegre cantoria.  A tradicional cantiga do não bambeia não, já dava um novo clima àquele encontro, uma aura mais profana invadiu o ambiente e a sisudez foi aos poucos sendo substituída pela alegria e irreverência.

Sob as notas alegres da mesma canção a bandeira foi colocada no longo pedaço de bambu que estava ali no chão do terreiro esperando sua vez de brilhar. O bambu, que tinha o garboso codinome de mastro foi levantado e sua base colocada sobre um buraco na terra. Logo em seguido cobriram de terra fofa o que restou do buraco em volta do mastro.  A turma animou-se ainda mais quando o mastro foi erguido. A velha cantina aumentou de volume e os versos engraçados se multiplicaram. Começaram a socar a terra com pedaços de paus para firmar o mastro e o povo continuava cantando:

 

Depois foi uma festa só. Os fogos de artifício riscavam o céu, adicionado a ele algumas  estrelas e fazendo a noite ainda mais bela.

Bombinhas, rojões, balões pelo céu, trouxeram ao ambiente uma profusão de ruídos e cores num maravilhoso festival de belezas e encantamento.

Ouviu-se um ruído agudo, como se um foguete passasse em alta velocidade no meio do povo, era o que se chama de castelo, alguém acendeu um rojão e esse, em alta velocidade, acendeu vários outros, por onde passou deixou um rastro de explosão e de luz. Tudo encadeado.  Seu trajeto culminou na fogueira acendendo-a, e  ofertando  aos visitantes um grande espetáculo de cores e sons. Logo em seguida o céu se iluminou ainda mais, mais uma coleção de estrelas iluminando a linda noite. Uma cascata de luz caía sobre o terreiro. E a noite ficava cada vez mais quente pelo fogo e pela animação do povo.

Depois começou o arrasta pé. Sanfoneiros e violeiros espalhados pelo terreirão batido animavam a festa enquanto a turma dançava um delicioso forró.

As peneiras com biscoitos, pipoca e outras iguarias típicas das festas passavam para lá para cá.

A canjica e o quentão eram os parceiros da fogueira na dura missão de esquentar a noite de junho.

A festa animada e Antônio um pouco emburrado no canto. Queria dançar, brincar, conversar mais com as pessoas, mas aquela dor no pé não permitia. Maldita hora em que foi pisar naquela terra fofa.

O único consolo era olhar para aquela moça bonita que também não tirava os olhos dele. Seus olhos eram dois pedacinhos de ouro, dois pequeninos favos de mel, que brilhavam mais que a fogueira e esquentam seu ânimo.

Percebeu que ela se afastou um pouco e foi atrás. Era sua oportunidade para ficar a sós com a bela garota e conversar com ela.

Foi mancando até o outro lado do terreiro onde ela estava sentada em um banco de toco. Aproximou-se devagar para não assustá-la.

-Boa noite. Algum problema moça. Você está sentindo mal? Notei que deixou a festa de repente.

-Boa noite. Não é isso, é que me deu vontade de  sair um pouco do tumulto e olhar um pouco para o céu. Olha como a noite bonita!

-Sim, uma linda e fria noite de junho. Com uma bela lua cheia clareando os caminhos, as estradas, e fazendo com que a noite  pareça dia. A misteriosa e exuberante senhora das noites que paira sobre os prados e campinas. Solitária dama que vai espalhando beleza e encanto por onde passa. E as estrelas que se perdem no infinito são pequenos diamantes raros. Só não são mais belos que os seus olhos.

-Vejo que o senhor é um poeta e sabe falar coisas bonitas.

-Sua beleza me inspira... mas estamos conversando e eu ainda não sei seu nome

-Muito prazer eu me chamo Rita, mas todos me chamam por aqui de Ritinha.

-Prazer, eu sou Antônio.

-Eu notei durante a festa que o senhor estava mancando. O que aconteceu?

-Ah foi um acidente. Quando chegava por aqui pisei numa terra fofa do lado da porteira.  E torci meu tornozelo.

A moça deu uma pequena risadinha e falou de forma muito graciosa

-Bem, eu posso ajudá-lo. Tenho ali em casa um preparado com arnica e alguns outros ingredientes que são ótimos para esse tipo de contusão.

-Eu ficaria muito grato.

Ela então foi até a casa onde morava, trouxe o preparado, pediu a ele que tirasse a bota e com todo o carinho esfregou o liquido na região contundida, fazendo uma leve, e ousada massagem.

Depois ficou movimentando o pé dele torcendo e puxando enquanto o rapaz sentia ao mesmo tempo dor e prazer.

E o resto da noite foi só alegria. Conversa, dança e encantamento. Alguns são fisgados pelo coração, outros pelo pé.

Ritinha sentiu o sonho desabrochar em suas mãos quando ele prometeu voltar ali no dia seguinte para visitá-la.

Aquele estava fisgado e fisgado pelo pé.

 Nascia ali a promessa de uma vida nova e feliz.

 

No outro dia bem a moça toda sorridente foi até a porteira levando consigo uma pequena pá. Cavou a terra fofa e desenterrou o pobre do santo Antônio. Limpou a terra que estava sobre a imagem a abraçou, um abraço forte que significou ao mesmo tempo um pedido de perdão e um agradecimento. Colocou a terra no lugar, pôs uma pedra em cima para que ninguém mais se machucasse. Isso já não era mais necessário. E voltou para casa abraçadinha com o santo.

Salva Santo Antônio o Santo casamenteiro.

 

 

quarta-feira, 13 de julho de 2022

PRISIONEIROS

Olhou em volta e viu as fortes grades. Não podia sair, estava enredado naquele lugar. Uma pequena sela apertada, claustrofóbica, muito assustadora.

O ar lhe faltava!

Olhou mais além e viu a forca. Numa fração de segundos viu aquele amontoado de cordas vindo para cima dele. O nó estava ali em seu pescoço e alguém estava apertando.  Estava sendo sufocado, quase não conseguia mais respirar.

Olhou em outro  canto e viu um torno. De repente sua cabeça estava presa a ele e novamente sentiu aperto. Alguém girava aquela roda e a cabeça foi sendo comprimida pelas duas partes da ferramenta. Pressão na cabeça que quase fazia os miolos saírem pelo ouvido.

De repente todo o corpo estava sendo apertado. E os ossos esmagados. 

Ficou zomzo. Quase perdeu os sentidos.

Era submetido a mais cruel das torturas.

Agitou-se desesperou-se, se debateu. Seus olhos ficaram molhados, suas roupas também. Sentiu que estava com febre. Começou a tossir sem parar, talvez essa fosse uma forma de expelir de dentro de si todo aquele horror. Sentiu as piores sensações. Quase morreu naquele instante.

Depois acalmou-se.

Olhou em volta e percebeu que o cenário terrível era apenas o seu quarto . Os terrores, os sintomas de uma falsa  covid.

 Prisioneiro da mente e seus cenários fantasmagóricos, todos somos.  

terça-feira, 12 de julho de 2022

FOICE CRUEL.

 Morte, dama que  assusta

sorrateira e hábil gata 

do nada ela dá o bote 

vem, toma,  arrebata

Já dizia Suassuna

como rebanhos de um redil 

estamos todos caminhando

passo a passo  andando

rumo à sua foice cruel e vil. 




quarta-feira, 29 de junho de 2022

TUM

 Tum  e tum

Tá e tum

Baixo e alto

Desce e sobe

método infalível

expurga e orna

à verdade torna 

Tum tum

Tudo azul

Na cabeça no peito

Novo jeito

Norte e sul

Tum e tum

Rio dos curiosos

kkkk

Hahahaha

O que será?

 

terça-feira, 28 de junho de 2022

RUÍDOS

 A vida tem ruídos

vozes asperas

agudas ou graves

atuantes demais

cortam os ares

tiram a paz

e o sossego záz...

prolixos decibeis

irritam da cabeça aos pés. 

sons... sons... sons...

irritates ruidos

dificeis de suportar 

desesperadores sons

giz se arrastanto na lousa 

violão desafinado 

 agulha de vitrola  suja

bagaço de cana rangindo no dente 

isopor na parede

rádio em mal sintonia

desesperadoras

insuportáveis cacofonias 

A eles sou nada propenso

inimigos do silêncio

ruidos...

segunda-feira, 27 de junho de 2022

PESO E PLANO

 Não quero os pesos

Não quero os estorvos

Somente a manhã radiosa

Que se apresenta linda

E transformadora

O sabor da fruta já provada

Aprovada, sentida, amada

Por que será que seu sabor se ausenta?

Que o fel o substituiu

Que tudo rui

Por que piso  em buracos

Se a estrada já foi e pode ser

 Bela, amena, plana?

sexta-feira, 24 de junho de 2022

FliPitangui

 Nos dias 04 e 05 de novembro de 2022 teremos a realização da FliPitangui (feira do Livro de Pitangui MG) que acontecerá no auditório do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Pitangui. Exposição e vendas de livros, palestras, debates.  Encontro de escritores, leitores e amigos. Um momento de exaltação à  cultura e ao valor da leitura . Venha participar da nossa feira.

Maiores informações pelo tel. (37) 3271 4110 com Múcio

 

Flipitangui

Feira

Do

Livro

Por

aqui

sexta-feira, 10 de junho de 2022

PENSANDO PELAS RUAS

Às vezes andando pelas ruas de Pitangui (MG) e ando muito por elas,  fico imaginando como seria se todo o patrimônio histórico tivesse sido preservado. Como seria bonito tudo isso por aqui! Os prédios conservados, pintados, pequenos postes de iluminação público colocados nas paredes das casas, com luzes amarelas que lembram velas e lampiões, as ruas calçadas com aquelas pedras grandes, aquelas quadradas, não sei bem o nome, que são boas de transitar, não tanto quanto o asfalto, mas são boas. Assim como a gente vê em cidades como São João Del Rei, Ouro Preto e outras histórias.

Fui a Ouro Preto em um dia comum e alguém de lá me disse: -você precisa vir aqui na época do carnaval é uma loucura. Em Diamantina me falaram sobre a tal Vesperata que é um grande espetáculo e gera muito movimento. A mais tranquila que conheci, mas não menos fascinante foi Congonhas com seus profetas e seus morros. Também promove grandes eventos.  

E a preservação do que é histórico traz o turista   o turista então gera um lucro absurdo. Quando andava pelas ruelas de Tiradentes tive a impressão que estava seguindo uma procissão devido ao grande número de pessoas pelas ruas. Ouvi alguém falar numa língua estranha ao meu lado e demorei a perceber que era alemão. Vi restaurantes especializados em comida italiana, japonesa, francesa e outras. À noite entrei num pequeno auditório e lá alguém fazia um belíssimo recital de piano. Meu Deus! Pensei. É só uma cidadezinha do interior de Minas.  Vários museus, em todos se paga para entrar. E fiquei imaginando a renda dessa cidade, os impostos e o quanto dinheiro o turismo não gera por ali.

Isso tudo poderia ser nosso.

O ideal seria que houvesse duas cidades aqui, um centro histórico preservado onde você pudesse andar e sentir-se como se estivesse em outra época. O que aconteceu comigo quando entrei uma vez no centro histórico de são João Del rei. Fui envolvido por um clima de beleza, charme e elegância. Algo difícil de explicar. Fascinante a sensação que se tem. Parece que aquela arquitetura abraça você e o conduz para outro tempo. Existia uma poesia no ar. Até imaginei que fazia parte de uma daquelas antigas novelas das seis, cheias de acontecimentos frenéticos, uma trama de prender a atenção. Desculpem, a imaginação às vezes toma conta, voltemos ao assunto: Por outro lado poderia existir uma cidade moderna com todo o fascínio do progresso em outros barros. Chapadão, Santo Antônio poderiam ter construções mais verticais, um clima de cidade grande.

Quem dera tivéssemos por aqui, shopping center, cinema, teatro... Ninguém precisasse sair da cidade para fazer consultas médicas especializadas. Enfim oferecesse bem mais aos pitanguienses.

Do chapadão ao velho da taipa poderia existir um centro industrial, quem sabe talvez com alguma especialidade, assim como Nova Serrana  é a terra do calçado, Pitangui poderia ser a terra de alguma coisa, ter alguma atividade que alavancasse a economia.

Cidades modernas são belas, cidades histórias também, o progresso é maravilhoso e a preservação do patrimônio é algo louvável. Assim como São Joao Del rei Pitangui poderia ter os dois lados.

Mas ficamos no meio do caminho, nem preservamos, nem fomos em direção à modernidade.

Daí eu volto para casa e fico pensando que são apenas divagações feitas pelas ruas. Sonhos apenas, mas imaginar faz bem e acima de tudo amo Pitangui, gosto desse lugar, gosto das pessoas, acho bonito o que ainda sobrou do nosso patrimônio. Temos muitas cosias boas por aqui.  Acredito que evolui devagar, mas acima de tudo é um lugar bom para se viver.

Parabéns Pitangui pelos 307 anos.

Múcio Ataide.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

DIA RAIZ

 O dia surge bonito

Mais uma oportunidade

De traçarmos nosso caminho

Na fé na luz na verdade.

Novo dia novo compromisso

Dos frutos do amanhã

O novo dia é a raiz

Tudo depende da gente

E não da sorte somente

Para crescer e ser feliz.    

segunda-feira, 6 de junho de 2022

SERENANTE

Madrugada, fria

Escura, serenante

Madrugada da saudade

De amores e amantes

Madrugada de outros tempos

De acordes e serenatas

De tantas coisas perdidas

Pela vida engolidas

Dama triste, cruel, ingrata.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

BARCO DA ILUSÃO

 O olhar triste  guarda segredos

Que contrasta  com a face calma

Lá por dentro profusão de pensamentos

Como  ondas revoltas nos mares da alma  

Por eles também  está a navegar

O barco indeciso da ilusão

Lutando com a cruel procela

Na batalha que rasga suas velas

Na tempestade intensa  da solidão

 

 

sábado, 28 de maio de 2022

TARDE SE VAI

 A tarde bela se vai

A noite  cai lentamente

O crespúsculo ja coloriu o céu 

Num movimento calmo e silente

Amarelo, vermelho, rajas de tristeza

Sol em dolente   e deslumbrante despedida

Hora dos temores, desesperanças

Languidez ,poesia,  flashes, lembranças 

Beleza triste pintando  a tarde e a vida.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

REFÉM

 tempestade de areia

uivos horrendos ao longe

um grito de socorro

e quem é que responde?

tão só num deserto

aridez, dureza e  cactos 

o temor pede passagem

sem direito a miragem

refem dos medoe e fatos

sexta-feira, 20 de maio de 2022

ANJO SEM ASA


O mendigo viu o cobertor cair sobre si. Quentinho e gostoso!

Quando virou-se viu  um vulto se afastando. Foi muito rápido.

Seria um anjo? Quem o cobrira com aquela manta tão gostosa?

Enrolou-se na manta, sentindo a gostosura do aquecimento e relaxando o corpo.

Ainda na memória o anjo que se afastava, como um  espectro de luz, vindo do céu e deixando cair  sobre seu corpo o amor  disfraçado de tecido. 

Começou a chorar de tanta felicidade! 

Alguem se preocupava afinal.

Depois dormiu mais quente e mais feliz. 

Foi mesmo um anjo, um anjo sem asas, mas em compensação com um enorme coração e uma conta a mais para pagar numa loja de enxovais.

*** 

DOAR

Tempo do frio

Tempo de doar

Manta, coberta

Tudo o que há

Que se possa vestir

Que se possa aquecer

Pense:  E se

Quem passa frio por aí

Fosse você?

  

terça-feira, 17 de maio de 2022

SÉPIA

Adoro esse tom sépia

Tonalidades das sensações

Amarelo das tardes morenas

Reduto mágico das ilusões

Viagem por diversos mundos

Imagens, movimento, comparações...doce lida

Tesouro sépia encantado

Caminhos, sentimentos alados

Livro vida.  

sexta-feira, 13 de maio de 2022

 

A GATA PRETA

 

Hoje é o dia, a sexta-feira 13.

Cheio de dúvidas eu pergunto será

Que hoje é mesmo dia nefasto e sombrio

Das coisas ruins, da desgraça e do azar?

Dia das bruxas e lobisomens

De todo tipo de encrenca e treta

Mas para me dar sorte de verdade

O que eu queria mesmo na realidade

Ter para mim uma linda gata preta.

terça-feira, 12 de abril de 2022

SERPENTEANDO

 A fé queima em luzes vivas vindas das velas e dos corações. A fé se dobra nas esquinas, sobe e desce as ladeiras, se espalha pelas praças e vai aglutinando, agrupando, fazendo uma espécie de osmose com as pessoas. Todas na mesma massa.  Elas vão se juntando e crescendo o grande cordão. Como uma serpente se esgueirando nos grandes paralelepípedos exalando o cheiro forte do incenso e se movendo lentamente como se  enfeitiçada  ao som dos sinos e da mais pura tradição. 

A procissão na pequena cidade do interior, da minha cidade,  vai levando junto em seu trajeto toneladas de tradições e de sentimentos. Os casarões históricos com suas janelas ornadas por panos, velas e imagens sagradas são pequenos altares onde fieis de mãos postas  acolhem e se irmanam ao silencio piedoso do cortejo embalados pelas rezas e pelas  tristes canções cantadas por séculos. Melodias de muito além, de outras gerações e que trazem em suas notas o choro, o drama, as dores  e as mais diversas indagações. Tem tanta história em tudo isso que até me perco.

Fico pensando quantas vezes pisei nas pedras grandes dos paralelepípedos (hoje asfalto) da minha pequena Pitangui, enquanto ouvia aquela música: os anjos todos os anjos... Repeti as rezas...   Muito refleti no sermão da quarta feira do encontro... Senti pena do pobre senhor dos passos com aquela pesada cruz nas costas... Imaginei as dores de Maria com as  lanças que transpassavam o coração...  Também me lembro do quanto me  contrai  em tristeza vendo o senhor morto no esquife embalado pela marcha fúnebre da banda José Viriato  após o triste e dramático sermão do descendimento.

Os padres com as batinas em cores tristes  trazem o clima da mortificação, dos sacrifícios e dos pesares pelas faltas e pecados. O medo do inferno difundido por séculos e um pouco esquecido nos últimos anos,  parece ressurgir como algo escondido que se do nada se revela. Uma aura de culpa e contrição se espalha a partir da fumaça e do cheiro das velas e se e espalha pelos cantos da cidade impregnando em tudo uma poesia sutil e  uma beleza triste.

E a procissão vai rompendo, tal qual uma serpente, se esgueirando,  visitando as ruas...  nossa cidade do dia a dia, a cidade alegre do sol e do burburinho da semana, agora é quieta, escura e  contrita. Tudo converge para o silêncio, a contenção e os poucos movimentos.

 

Família, antigos amigos, falecidos, oportunidades perdidas, dia a dia, frases não ditas, mágoas do passado renascendo, arrependimentos, o pesar do não volta mais, encontros, outros tempos, tradição. Tudo misturado num cortejo existencial, que vai também serpenteando dentro de mim com velas acesas, incensos medos e indagações. A procissão vai muito além dessas ruas...

E sigo o cortejo rezando num grande rosário de saudade e de pensamentos. Ah quantas contas tem, Quantas contas!

segunda-feira, 28 de março de 2022

O PINTOR

   



Esse pintor é dos bons!

Que tão bela tela tece

Que ressalta ou esmaece

As cores em vários tons

 

No pincel tem bem destreza

E rajas vermelhas amarelas

Saem de sua aquarela

Essas pinceladas! Que beleza!

 

Vendo algo tão  belo e bom

De minha  interjeição  vem o som

Envolto em êxtase e torpor.

 

Dessa tela gigante tão bonita!

Essa coisa inexplicável, Infinita!

Quem é  o pintor?

 

quarta-feira, 23 de março de 2022

PORTA ABERTA

 A verdade aparece

As tramoias são descobertas

Os esquemas e segredos

Fogem pela porta aberta

Basta esperar um pouco

“Convicção” deve-se ter

Que as injustiças são revistas

O mal vem ao alcança da vista

Punição... doa a quem doer.  

DA SÉRIE PEDAÇOS DE VIDA - A REZA E A FESTA

 Eu seguia pela longa avenida. Estava animado porque estava indo  para a festa. A cidade era luz MG. Uma bela cidade do nosso interior mineiro.

A velha historia de sonhar com momentos bons  e fazer o sonho acontecer. Planejar a viagem, me arrumar, colocar a esperança na mochila e seguir pela estrada.  E no trajeto descobrir mil coisas boas: O hotel e o sempre delicioso café da manhã, conhecer a cidade suas ruas, praças, monumentos,  igrejaqs, seus cantos e encantos, os restaurantes com seus também  deliciosos pratos, parada gostosa entre uma caminhada e outra, as tardes de reflexões e planos, as  lanchonetes e bares onde se prova os sabores do lugar.    As promessas de diversão e aventura que povoam a mente. E a noite com seus mistériose suas luzes. Um conjunto de prazeres que incluía aquela caminhada solitária rumo à festa.  Algumas realizações planejadas com esmero já  haviam acontecido e outras ainda viriam. Dali a pouco a alegria da festa, as pessoas bem traiadas, como se costuma dizer, andando para lá e para cá, os sabores e cheiros, o perigo pulando na arena, as luzes do palco e muitas, muitas coisas boas mais. Alegrias, muitas  alegria! Prazeres e promessas de prazeres.

Muitos carros passavam e  pedestres também, todos animados para a festa de peão. O rodeio, os shows as novidades geravam um  clima de alegria que invadia a cidade e trazia de longe muitos  visitantes que vinham com o ânimo na mochila e a vontade de curtir a vida e aproveitar  tudinho. E eu era um deles.

Enquanto andava olhei para traz e vi um espectro de luz que parecia pairar no ar da cidade. Um pequeno pedaço do céu na terra. A imponente catedral. Toda iluminado por luzes verdes parecia boiar no ar. Lembrando a fé, os preceitos religiosos, a grandiosidade dos templos e dos poderes.  A imagem despertava em mim um quê de culpa, uma sensação de pequenez e de nada saber sobre os mistérios da eternidade. Linda, estupendamente linda! Estive ali mais cedo, na hora em que a decência reina, na fisionomia contida das pessoas, no recato dos poucos movimentos, na hora da missa. Mas aquela hora já passou, agora é hora da festa, dos movimentos não contidos, de rasgar um pouco o recato. De romper algumas barreiras.

O enorme edifício lá estava, e todos aqueles que participaram da celebração agora dormiam ou estavam assim como eu indo para a festa. Era  o outro lado da vida, primeiro o contido, o comportado, o religioso, agora o profano, o aventureiro.

E o movimento continuava. Carros e pessoas,  um zumzum que aumentava ao chegar perto do parque de exposições.  Passavam todos agitados, gritando, cantando, ouvindo alto as músicas pelos toca fitas dos carros. Um motel no caminho era a parada de alguns deles. Música, festa, bebidas sexo, cada um com sua ilusão. Todos esperam alguma coisa de um sábado à noite, como dizia aquela velha canção.

Eu andava e de vez em quando olhava para traz.

 

 

Não conseguia deixar de olhar para as luzes verdes muitos   brilhantes que  fazeiam destacar aquele tesouro arquitetônico,  sobre todas as outras construções da cidade. Aquela imagem parecia unir dois mundos. De um lado a alegria, a festa e a aventura, a vontade louca de abraçar a vida e usufrui de todas as suas possiblidades rompendo todas as barreiras. Uma postura que fecha os olhos da consciência para o lado sombrio do existir, para o fim, para a decadência e para as verdades escondidas e amarradas Lá no fundo do âmago. Do outro, a ideia ruim que escapa e vem incomodar. Essa festa acaba, essa alegria acaba, tudo tem um fim. Tudo é ilusão. Fumaça que se perde no ar.

A construção iluminada imponente,  com todas as suas torres apontando para o céu escancarou-me os extremos da existência. As forças paradoxais que coexistem e são ambas verdadeiras. Lados opostos do existir

Fui andando e olhando para aquele espectro na noite

Depois da festa, voltando pelo mesmo caminho, ela ainda estava lá, mais uma vez me mostrando no silencio da madrugada, depois da reza e da festa, que a vida continuava e o eterno rosário repleto de contas do bem e do mal, seria ainda rezado por mim em muitas outras ocasiões.

Dois mundos distantes e ao mesmo tempo tão proximos. Quem sabe até um necessite do outro para existir. 

A noite seguia seu curso...

Enquanto me foi possível olhei para aquela igreja. Grande, iluminada, imponente e reveladora. Espectro de luz e de verdades que pairava ao longe, como que  boiando no ar,  na beleza triste e silente da madrugada.

terça-feira, 22 de março de 2022

POSSESSÃO

 O escritor  começava a escrever e uma magia acontecia. Ele se sentia protegido por algo superior e não conseguia entender por que do nada a inspirações surgiam. Falava consigo mesmo: - Hoje não tem jeito, hoje não vem nada. Nenhuma ideia pode romper essa barreira. Mas quando começava a escrita a magia acontecia, as ideias se organizavam, a história fluía liquida e quente com começo meio e fim, tudo surpreendente.  

Então a poesia pousava no texto como uma bela borboleta multicolorida pousa numa flor. Depois voa pelos campos livres para espalhar a beleza de suas cores e a graciosidade de seus movimentos.

E escrever tornava-se um mergulho mágico no mar ora calmo, ora tempestuoso das letras com sua fantástica flora, seus encantos e belezas.

E um novo mundo se fazia... Mundo de mil aventuras e possiblidades.

 Como se  uma enorme nuvem descesse sobre sua cabeça e ditasse as frases.

 E as teias da trama eram tecidas como as perfeitas teias de uma aranha. Tudo entrelaçado, tudo no seu lugar, os encaixes perfeitos. Fios de enredos, traçados de acontecimentos, nós de personagens. Uma grande teia se formava para prender os leitores. Feito moscas eles eram enredados na teia e não conseguiam se libertar dela.  Caiu na teia mágica das letras, de lá não se pode mais sair.

Era um ser mágico que se apoderava de si e punha as coisas no lugar. Bastava começar para tudo se ajeitar.  

Nuvens, borboletas, flora marinha, teia... Não! Nada! Nenhuma metáfora poderia definir  aquela maravilhosa possessão.

segunda-feira, 21 de março de 2022

BAILADO NA TARDE.

 A jovem Maria, bela e   sonhadora olhava a rua no fim da tarde. E olhava também para o horizonte. Na pequena cidade era possível contemplar os montes distantes. Ainda não havia a selva de pedras que barra essa visão em muitas  outras cidades.

Ela olhava o horizonte que acolhia a escuridão da tardinha. Com rajas vermelho amareladas apresentava um espetáculo de rara beleza.

O sol já partira e a escuridão ia aos poucos comendo o céu  e espalhando sombras. Era a hora indecisa entre a noite e o dia, a tristeza e a alegria. Entre o bom e o ruim.

Um sino tocava, uma melodia voava pelos céus em notas tristes, vinda da matriz que ficava ali bem pertinho.  A oração da Ave Maria penetrava no fundo da alma e de lá extraia mil tesouros do sentir. Vasculhava o amago do ser e fazia dor pra valer.

A tarde era triste e bela, fazia promessas e cobrava também. A beleza podia até apagar a dor, mas essa se escondia em cada sombra.

Os sentimentos eram confusos e se alternavam.

Indagações e delírios pairavam no ar.  

Tardinha de sábado na janela entre a luz e a escuridão, entre a esperança e o desespero.

A noite prometia surpresas e logo as coisas iam se ajeitar, mas naquele momento tudo era confuso e os sentimentos do bem e do mal, muito intensos.

Talvez por  um delírio, pela alucinação de  seus sentimentos Maria viu dois seres abraçados, voando pela rua. Dois espectros esfumaçados. Delírio advindo do seu estado de torpor emocional? Ou os seres do mundo dos mistérios que acordavam para rondara pela noite como sempre fazem? Não sabia responder, mas poderia definir como a dança  elegante entre a tristeza e a alegria. Os dois seres dos extremos que  bailavam  bonito pelas ruas da cidade naquela hora do lusco-fusco,  no paradoxo daquela tarde.  

quarta-feira, 16 de março de 2022

CALMA

 Muito movimento

Grande agitação

Me Funde a cuca

E só Traz confusão

Eu Quero a  calma

Paz e tranquilidade

Isso sim é prazer

Sem atropelar sem correr

É viver de verdade

sexta-feira, 11 de março de 2022

RIMANDO

 A doce brincadeira de rimar

Pode nos levar a  muitos caminhos

Da vida dos sonhos podemos falar

De céus, da  terra,  de flores e espinhos

A rima pode  simplesmente

Nos jogar nos braços  da alegria

Usando o que temos na mente

Rimando plantamos  a semente

Do amor à vida em forma de poesia

quinta-feira, 10 de março de 2022

O EXILADO DA RUA OUTONO

 COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO  O EXILADO DA RUA OUTONO DE OSIAS RIBEIRO NEVES EDITORA ESCRITÓRIO DAS HISTÓRIAS

 Recebi o livro Os exilados da rua outono de Osias Ribeiro Neves, agradeço imensamente ao autor por me presentear com essa leitura maravilhosa e teço  abaixo alguns comentários.

Gostei muito do livro os exilados da rua outono. Além da indiscutível qualidade literária, riqueza gramatical e  léxica, me fez pensar .

Belos contos da cidade e do campo, exaltando as coisas das gerais, eu diria com  um toque roseano, mas com personalidade e poesia saltando em cada linha.

  Um texto  muito bem construído, ameno e agradável em muitos pontos, tenso em outros, despertando a reflexão, as emoções, questionamentos  mas prendendo a atenção   durante toda a leitura.

 

As histórias  despertaram minha atenção:

Na vida das aldeias seus significados e costumes. E no decorrer dos acontecimentos, trágicos ou amenos com as peculiaridades  e os valores próprios e de cada época e de cada povo.

Nas linhas do trem que continuam vivas na memória e traçam destinos e assim será para todo o sempre. As marcas que ficam.

No paquiderme, enorme, desajeitado,  nos estorvando. O que é o paquiderme? O que nos incomoda? O que deve ou não estar em nossa vida? Qual o sentido? Quais são nossos fardos? Reflexões em toneladas nesse texto.

Nos visitantes da noite que representam o período mais sombrio de nossa  história. Que as luzes se acendam e que essa escuridão, que hoje nos ameaça, não volte a existir. Coisas do (a) Demo.

Na alma , em Almas, o ruminar do pombo e esse vai e vem da vida com seus meneios e suas lutas e ideias, ideologias... Caminhos diversos.  Os exílios, os encontros e desencontros.

Em o Matador    pensei sobre os limites e extremos da vida. Quem vence e quem é vencido? Coragem, esperteza, quais são as verdadeiras armas dos grandes?

Em nó do laço, a vida de gado e os aboios da vida com seus berrantes e ferrões. Texto denso, poético, belo e realista, e chocante no final.

Em como vemos as paisagens à nossa volta.

Nos contos Um mundo e outro mundo me lembrei de Fernando Sabino,  e de um mundo de imaginação, poesia  e mil possiblidades que reside em cada um de nós. Com aquele toque de fantasia,   ternura  e senso de aventura.

Nas Rotinas do amor e desamor o realismo das relações, pequenas histórias que são vividas no dia a dia por muitas pessoas. A aridez  e a decadência das relações, o machismo, as tragédias. Tudo isso  que acontece por aí, o tempo todo. No princípio achei que eram minicontos, depois percebi que eram contos contados de forma alternada como uma pequena novela em capítulos,  e todos eles tiveram um fechamento perfeito. Muito bom.

Em Pássara, a prisão e a liberdade. A lenda do canto livre que ecoa pelas matas. A fuga da gaiola, o valor da liberdade e da superação dos males. A passarada que celebra a liberdade e canta livre.

No conto exilado que dá titulo ao livro a história do professor, de um grande amor, exilados num antigo casarão.

No ultimo conto do livro a exploração faz virar carvão, somos  apenas uma peça a mais na fornalha dos lucros, trabalhador só uma pecinha a mais, queimou estragou, joga-se fora.  A ganância destruindo sonhos. Vale trocar o certo pelo duvidoso?  O sonho que pode destruir.  E o quanto nos tornamos carvão nesse sistema tão injusto que nos rodeio?

Foi assim que interpretei do meu jeito o livro.  

Concluindo um livro muito bom, contos bem escritos  com grande qualidade literária,  realismo, poesia,  despertando a reflexão fazendo pensar ,viajar pelas palavras e sentir de forma intensa o prazer de ler. Parabéns Osias e mais uma vez muito obrigado pelo presente e por me proporcionar tão bons momentos com o exilado da rua outono.

Super recomendo.

Para saber mais sobre a editora e o livro ou para adquiri-lo acesse www.escritoriodehistorias.com.br

quarta-feira, 9 de março de 2022

POEIRA DO TEMPO

 Poeira amarela  do tempo

Com seus grãos dourados

derramando a cada momento

Sobre mim o ouro do passado

 

Grãos de alegria  e esperança

Caem sob as folhas do meu ser

Traz-me de volta o eu criança

E todo o seu reduto de prazer

 

Poeira da doce mocidade

E dos amores de todas as  idades

pó mágico dos mais belos sonhos

 

Traz o aconchego do lar

Papai, mamãe,  tudo que não vai  voltar

Poeira traz-me céus risonhos

Site oficial  Neste site,  um pouco da carreira literária de Múcio Ataide, seguindo o caminho das letras para  brindar a vida e descobrir se...