sexta-feira, 31 de julho de 2020

BATALHA ETERNA.

A letra A  maiúscula começa...

A batalha é árdua. É mesmo uma grande luta. Eu não imaginava que fosse tanto. E nem que fosse levar tantos tombos. Mas continuo em frente...

Quando comecei, tudo eram flores e sonhos. O sonho de escrever, de correr solto pelos campos floridos das letras e dos versos.  Trilhar a bela e  plana estrada  das páginas, com a elegante tonalidade sépia, misturar-me à  poeira das aventuras e deliciar-me com o aroma  gostoso de papel novo e até mesmo com o  mofo dos guardados.  Estrada essa margeada pelas flores a mim oferecidas por mil personagens, todos com mil tentáculos, parecendo aranhas penduradas nas teias das tramas e presos às armadilhas dos enredos.   Queria mergulhar profundamente no lago dos signos e me deleitar no rio das metáforas e das frases poéticas. Queria abraçar fortemente o mundo das letras e da escrita e perceber extasiado todo o seu encanto e todas as suas possibilidades.  E até ousava acreditar que as mãos fortes do sucesso viessem acariciar-me de forma terna e serena. Caminhos de flores e sonhos?

Mas já no inicio da caminhada  percebi que a coisa não seria tão fácil.

E estava correndo assim feliz pelas páginas quando tudo aconteceu. Ouvi um tropel e agucei meus ouvidos para entender melhor a situação. E aos poucos o fraco ruído foi se intensificando e me deparei com uma tropa  à minha frente. Um exército de grande contingente e todos os soldados  me olhavam com raiva parecendo querer me devorar.

Empunhei minha caneta, meu mouse e meu teclado e fiz desses objetos minhas armas para a feroz batalha que se aproximava. 

Estava com medo e sabia que seria uma grande peleja, mas defenderia com todas as minhas forças o meu direito de escrever.

O exercito que ali se apresentava era formado  pelos fiéis escudeiros da língua portuguesa. Aqueles soldados combatiam ferozmente todos os que se aventurassem a explorá-la e a extrair seus tesouros.

Se eu quisesse vencer e me tornar um escritor, teria que enfrentar aqueles inimigos.

Todos a postos e então a batalha começou:

Um vocábulo de cara carrancuda e muito autoritário que trazia uma plaquinha no bolso do uniforme escrito ORDEM e parecia chefiar o pelotão, convocou à luta  seus fieis seguidores  da linha de frente, os destemidos combatentes:   COMPLICAR, BAGUNÇAR E CONFUNDIR, que pareciam com muita vontade de brigar e gana de me acertar.  E para completar, sem esquecer de rimar,  chamou também a agressiva soldada ATACAR. 

Então vieram todos para cima de mim. Lutávamos ferrenhamente no ringue da página e das letras. Eu era atacado de todas as formas. Tudo ficava confuso  enquanto via meu texto todo bagunçado. 

Vieram  outros e me confundiram ainda mais. Vieram “tudo junto”, não vieram separados, lembrando que separado é tudo junto e tudo junto é separado.

A SEXTA que gostava muito de feira trazia uma CESTA de compras pendurada em sua ultima sílaba. Parecia cansada das labutas da semana e não via a hora de chegar o sábado para tirar aquela SESTA. Mas não podia, pois fora convocada para  a luta.

Proparoxítonos pomposas, todas  acentuadas conforme manda a lei  se gabavam de sua sonoridade. Diziam ter recebido um presente todo especial da amiga fonética, uma sonoridade elegante.

A onomatopeia au au  latia nervosa reclamando das colegas  tic tac, ronc ronc  nhec nhec, blem blem    e seus ruídos irritantes.  Isso fez o clima ficar ainda mais tenso.

A prosopopeia queria fazer tudo criar vida e convocava  seres inanimados para a batalha, despertando neles os mais diversos sentimentos. Fez o sol brilhar corajoso, me queimando a pele,  as flores marcharem me jogando espinhos  e a chuva me derramar granizo de propósito.

A hipérbole quase explodia de inchada se achando a melhor soldada de todas. Era muito grande.   Ela se considerava a melhor e exaltava sempre suas qualidades. Repetiu mil vezes que   todas  as palavras deveriam se voltar contra mim. Morreu de rir com a minha cara de assustado,  me fez congelar de frio e chorar um mar de lágrimas.  Exageradaaaaa!

 

Num certo momento parei e fiquei observando e pensando: como eram curiosos aqueles soldados!

Alguns vocábulos combatentes me confundiam: Tinha a maçã e a maçaneta quem se pareciam um pouco, mas ao mesmo tempo eram bem diferentes e na verdade nem parentes eram. O comprimento não tinha o hábito de cumprimentar ninguém. O cavaleiro que lutava num belo cavalo branco , não era Cortez nem um pouco cavalheiro.  O Cem veio sem arma alguma. O conserto, que  saíra de um concerto de rock , se dizia fã dos beatles e Hollings Stones  e viera direto  para a batalha,  fazia reparos em sua metralhadora que produzia um sonoro ratatatá. E minha cabeça ficou tonta quando vi chegando a sessão, a cessão, o caçar e o cassar, a sela que não estava  presa em nenhuma  cela, o cinto e o sinto. Jesus Curuz!

Neologismo, um soldado jovem e animado chegou com tudo na luta e ficou reclamando do seu avô arcaísmo que quase aposentado, fora convocado também. O velho estava caindo aos pedaços, mas mesmo assim marcava presença de vez em quando.

Havia soldados idosos como o vovô e a vovó, que eram muitos parecidos, quase gêmeos,  não fosse o fato de um usar um elmo no formato de um triangulo e a outra ter um topete saliente, talvez sustentado em riste por alguma espécie de gel.

Soldados pequenos e curtos e outros longos. Olhei para um pequeno que me parecia amistoso e ele me disse: OI!  Bem no centro do campo de batalha com ar de imponente estava  o pomposo e longilíneo Sr. ANTICONSTITUCIONALISSIMAMENTE. Esse quase me faz perdeu o arquivo inteiro num acesso de raiva e no desejo de apagá-lo. Pensei até em  chamar o meu amigo estrangeiro  o simpático Sr. DELETAR para dar um jeito no empolado. 

Tropecei no  PARALELEPÍPEDO,  OSCULEI o chão, vi-me em situação DELETÉRIA aos pés de vocábulos FILAUCIOSOS, que GRAÇOLAVAM para mim. Levantei-me MODORRENTAMENTE. Estava tonto tentando NITIFICAR  a situação. Pensando que a luta ainda atingiria a QUINTESSÊNCIA.

Pensei e cheguei à conclusão de que não estava entendendo PATAVINAS da situação. 

 Alguns soldados eram  muito ativos na batalha, outros nem tanto. O hzinho de um pobre dígrafo em nada se  manifestava. Era muito calado aquele menino. Não  fazia diferença  estar ou não estar ali.  Nem esticava a perninha para alguém tropeçar. Tudo o que sabia era fazer nhem. Apenas engordava o contingente sem nenhuma serventia.

O i de um hiato estava separado da sua companheira, dizia que o relacionamento não estava dando certo  e então decidiram que seria melhor cada um ficar na sua sílaba e lutarem separadamente.  

O a preposição de uma crase por outro lado  não se  separava jamais de seu amado artigo.  Estavam sempre juntos, até pareciam um só. Olha só que coisa linda, duas vidas em uma. Mas eram lutadores ferrenhos e causavam muito estrago me obrigando a perguntar o tempo todo: vou de... Venha da... se vou... se venho...  e me bombeavam com as granadas sanguinárias da dúvida. Uma dupla cruel e que me fazia desafinar na sinfonia das letras.

Existia ali uma senhora curva que parecia estar sofrendo de algum problema na coluna. Não podia ficar de pé e se arrastava na parte de baixo das letras. E também parecia ter falta de ar porque tudo o que queria era respirar. Fazia parar o texto o tempo todo, cansada, exausta, preguiçosa, ofegante, indecisa,,,  Ziguezagueava para lá e para cá no meio da página, estava em todo canto.

 Um senhor alto, bem magro e que tinha um único  pé achatado parecia sempre admirado com tudo o que via. Estava  sempre suspirando ao  final de cada  frase. Ah mundo cruel!!!

  Outro senhor  que também gostava de fim de frase era muito curvo, seu corpo parecia uma bengala  ou o cabo de um guarda-chuvas e também tinha um pé achatado. Esse era muito  curioso e  fazia mil perguntas:  Quando acabaria a batalha? O que ia acontecer em seguida? ?bla? bla? Bla? Ele não parava de perguntar?

 

Cansada  de assinar muitos decretos referentes à batalha a elegante senhora denominada   rubrica não achava um lugar para descansar, não encontrava  assento,   porque não tinha acento.

Outro vocábulo que também encontrava-se num exaltado estado de nervos era  o senhor aço, que dizia:  -Se continuar nesse sol quente eu asso!

Sra. Etimologia elegantérrima, de traje sóbrio e distinto parecia muito ligadas as coisas tradicionais, tinha modos fidalgos e  aristocráticos e  tentava explicar que tudo tem uma origem e que era preciso entender o começo das coisas.  Era radical em alguns pontos e dizia ir à raiz das palavras. Cheia de estratégias bélicas e regras.  Porem é radical apenas em alguns pontos. Inflamada com suas explicações esclarecedoras incitava todos gritando: Vamos  à batt(u)alia.

As simpáticas senhoras Sintaxe  e morfologia chegaram para uma avaliação da situação. Eram altas, esguias, usavam grandes óculos de  aro redondo e ficavam observando tudo e classificando cada situação.  Foram logo se movimentando. Sra. Sintaxe muito metódica separava os vocábulos na linha de frente e dava a cada um uma função e exigia que todos usassem FRASES de motivação e fizessem uma ORAÇÃO antes da peleja. Coloca ordem em tudo.  Bradou de forma decidida: AVANÇAR aos soldados: sujeito, adjunto adverbial, objeto direto e indireto, complemento nominal, aposto, vocativo, predicado. Marchem. Enfim punha cada um no seu lugar, colocando ordem na bagunça. A Sra. Morfologia estava sempre preocupada com as questões de classe, era elitista sobre certos aspectos e não admitia nenhuma forma de ascensão. Cada um deveria permanecer no seu lugar. Mas ela mudava as vezes.  Dizia saber a forma correta de fazer as coisas. Era graduada em dificuldademia,  pós graduada em confundiologia e  tinha mestrado em duvismática.   Gritou mudando também seu tom de voz. Em fila: SUBSTANTIVOS, ARTIGOS, PRONOMES, VERBOS, ADJETIVOS, CONJUNÇÕES, INTERJEIÇÕES, PREPOSIÇÕES, ADVÉRBIOS E NUMERAIS. Eles responderam: sentido comandante.

Quase desmaiei quando vi aquele pessoal todo vindo em minha direção. E minha cabeça estava tonta com tudo aquilo. Levava tombos de todos eles. Derrubavam-me, me levantava e continuava a escrever, mas logo em seguida caía de novo nas valas e trincheiras da dúvida e da ignorância linguística. Errava, acertava, apagava, corrigia...

Por fim a batalha intensificou-se...

 Vi cair próximo a mim  uma bomba vinda de um substantivo muito chulo que não pretendo aqui repetir, me tonteou ao ler aquele nome próprio que era muito impróprio. 

 Logo em seguida fui atingido por granadas de  adjetivos agressivos que exaltavam meus piores defeitos.

 Um canhão marrom enorme soltava pelos ares  Locuções,  advérbios, interjeições. Nossa! Que dureza!

 Metralhadoras de herros ortográficos disparavam rajadas de letras trocadas e balas de dislexia. Não me importei muito com isso porque Herrar é umano, mas me lembrei que  perssisstir no herro é burrisse.

 Escrevi, deletei, escrevi, acionei back-space, mudei a frase. Tudo dava errado.  

Explicá-los-ei que me senti derrotado, ou vi-me derrotado por torpedos de  ênclises próclises e mesóclises que  me faziam tropeçar antes durante e depois do verbo

Kamikazes caíam. As bombas jogavam em Hiroshima e Nagasaki eram brincadeiras perto do arsenal atômico   de regras gramaticais e vocábulos atrevidos que profanavam meus dedos ao tocar os teclados e me lançavam num desolado campo de guerra com vestígios de destruição espalhados por todos os cantos. Agrediam-me, confundiam e quase me fizeram desistir.

A batalha era um texto que não conseguia interpretar.  

 Ao tentar correr pisei numa mina de cacofonias que provocaram sons horríveis ao explodir.

Estremeci da cabeça ao pé, Parecia que havia sido atingido por um pé de  cabra. Fiquei de pé, mas quase perdi o pé, e eu preciso desse pé que não é um pé de moleque, mas é doce na hora de dançar um arrasta-pé.  Na hora soprava um pé de vento.

O pleonasmo orientava alguns companheiros seus na luta. Parecia um bom estrategista e era bem lógico em seus conselhos. Dizia: precisamos prestar atenção e ver com os olhos o que está acontecendo vamos ver um panorama geral do campo de batalha, e se ele atacar de um lado nos subimos para cima e se atacar de outro descemos para baixo.   Se tiver oportunidade nos escondemos. Tem uma barraca de campanha ali adiante quando ele vier nos entramos pra dentro e quando ele for embora nós saímos pra fora. Temos que ter cuidado com as surpresas inesperadas, mas não podemos deixar de atacar, não devemos adiar para depois  principalmente quando não tivermos outra alternativa. Vamos avante pra frente turma.

Do canto direito da página, vi surgindo alguns ditongos abertos, alguns deles muito indignados com as mudanças ortográficos, se diziam injustiçados e roubados  em seus bens, já que não mais tinham seus acentos e estavam fulos da vida. Outros apenas por maldade me atacavam.  Após uma grande assembleia,  como faz a união europeia,     criaram mil pernas  como centopeias, surgiram de todos os cantos até da claraboia se arrastavam como  jiboia. De um modo heroico comandados pelo  chapéu que  nada perdeu, mas ainda assim era cruel,  queriam  me fazer de réu e me levar para o beleléu.  Clamei Deus do céu!

Correndo tropecei em alguns hifens que estavam perdidos no meio da linha. Na confusão se separaram de suas duas palavras amigas e agora estorvavam o caminho.  Chutei-os para a margem direita.

Parei sem saber o que fazer.

De tão perdido que estava perguntei: Será que acabou? A reticencia sempre misteriosa e indecifrável respondeu: Não...  Tem mais...

Desci página abaixo, mas quase caí quando o rodapé acabou e o tombo poderia ter sido fatal, então corri para cima seguindo pela margem esquerda naquela linha vermelha, uma via muito bela, parecia asfaltada  que liga os extremos do caderno  e que tem uma cor bem nítida. Cheguei ao cabeçalho, mas lá também fui atacado.  Uma trema ali esquecida chorava sua demissão e dizia desesperada. Num “agüento” esse sofrimento. Eu era tão tranquila,  o que fizeram foi um sequestro. Já não  sou mais um acento. Reforma me jogou no vento. Eu num "Güento". Corri quando vi dois pontos iguais vindo em minha direção.

Continuei correndo desesperado. Desci novamente.  Escorreguei relando  nas linhas uma a uma até o rodapé.   La fiquei pendurado na ultima linha. 

Será que sairia vivo NESSA luta acirrada? Ou Morrerei NESTA batalha? ESSE jeito de brigar fugindo é bom ou será que ESTE outro aqui enfrentando  me ajudaria mais? Pensei: MAIS eu sou  MAS forte.   Escorreguei como quem escorrega numa casca de banana,  nas conjunções adversativas.  

 O  Porquê  que era amigo intimo do senhor da bengala, me perguntou: Por que você não  desiste? Respondi: Desistir por quê? Não sei tudo mas estou aprendendo, e dia a dia ou talvez dia-a-dia me fortaleço na luta e me torno melhor porque eu acredito nisso.

Então decidi reagir e fui para cima de todos eles acompanhado de minha amiga caneta,  meu fiel   teclado, metralhadora barulhenta  e o mouse  que era meu parceiro estrangeiro na luta e se parecia com um rato.  E daí  foi porrada para todo lado. Eu caía, levantava, pulava, dava rasteiras, derrubava alguns, caía de novo... ora eu estava por cima, ora por baixo.  Enfrentei palavras, regras de acentuação, pontuação, adjetivos, substantivos, verbos, advérbios e um enorme exército.

Fui ficando tonto com tudo aquilo... Que loucura! Que peleja! Parece não acabar. Socorrooo!  Eu sozinho contra todos eles.

A batalhar parecia não ter fim. E acho que nunca terá...

Então chegou a soberana língua mãe e jogou um grande lácio prendendo-me a ela. Nesse momento desisti da batalha, aproveitei que fora laciado  por aquela linda senhora,  a abracei e dediquei-lhe  o meu amor. Afinal de contas é o meu instrumento de trabalho e me permite mil possibilidades. Essa senhora me fascina pelo  entrelaçar das letras, dos significados  e dos mundos maravilhosos que visito na companhia dela... Com esse abraço eu exalto a beleza da vida na poesia dos meus versos, eu entendo o mundo, filosofo, faço perguntas, busco respostas indago.... Me comunico. (Ou será comunico-me?) Enfim me realizo (ou realizo-me?) profundamente abraçado  a ela e sentindo o seu carinho.    Ela é  musa, alegre e triste terna e ríspida,  brava, mansa, tem a resposta para tudo  mas é mãe de todo aquele que se aventura por essa estrada maravilhosa das letras.

E ao final cansado, bem ferido e enlevado por aquele abraço consegui me levantar e percebi  que essa batalha é constante,  e que dela jamais poderei fugir. Então decidi abraçar esses inimigos e entendi que fazem parte do processo para me tornar um bom escritor. Preciso de todos eles e devo vê-los como amigos e conviver com todos de forma pacífica. Apesar de serem sujeitos complicados e cheio de regras são fundamentais para mim e tornam a minha  escrita mais bela.  Preciso lidar com eles, conhecer seus segredos e aos poucos ir dominando-os. E mais que isso, usá-los a meu favor o tempo todo. Então dessa forma mesmo com a continuidade da batalha me senti (ou...) vitorioso. 

O voo de um pássaro muito belo sobre a minha cabeça pareceu coroar minha vitória e me fez pensar: Que coisa curiosa! O voo desse pássaro ortograficamente reformado,  perdeu o chapéu (que quase perdeu algo também) mas não perdeu a asa. E voa enchendo os ares de beleza e encanto. Aves assim vêm de longe e veem de longe. Minha imaginação voou nesse momento:  Estava lá cima montado no dorso no pássaro. Podia  sentir-me flutuar nos ares, me deliciava com o ar fresco que entrava em meus pulmões, como também via abaixo  a via terrestre  e toda a magia da natureza se espalhando em cores, aromas e sabores. Nesse mundo das letras eu podia tudo, viajava por todos os mundos e era tudo o que quisesse.  Sinto a vida jorrando em meu ser e uma vontade imensa de gritar: que os versos voem que as palavras encantem,  que a flor da poesia perfume o ar, que os livros se multipliquem, que todos leiam. Que a arte a cultura a literatura sejam como esse esplendido voo, abrindo as portas da liberdade em cada ser. E considerei esta uma bela  descrição de um maravilhoso voo de um pássaro planando nos céus de um  arquivo Word.  

 A ave  segurava no bico um pequeno pedaço de papel e então pude perceber que a crônica sobre a batalha das letras, essa eterna luta, estava chegando ao fim. No papel estava escrito EPÍLOGO.

E nunca mais me esqueci daquela ave.  Seu planar pelos céus das letras sempre me incentiva a prosseguir.  E por onde vou vejo o voo. E em frente vou e voo.

Senti-me realizado, mas sabia que essa crônica tinha erros e contradições. E pensei: Que bom! Estou caminhando, me moldando, evoluindo,  isso que importa. A luta é eterna...

E pelos prados verdes e bonitos dessa nossa terra maravilhosa, esse abençoado chão brasileiro, suas cidades grandes e pequenas, seus povoados e recantos, em suas matas e jardins, em todo canto, posso sentir o perfume daquela majestosa flor, de estonteante beleza e inebriante perfume. A caçula de muitas outras flores que viajaram continentes e têm suas sementes espalhadas por aí.  Ela é esplêndida.  

 E voo na magia da palavra, sentindo o perfume da flor, divina flor,  preso sempre aos intrigantes e ao mesmo tempo maravilhosos laços do lácio.

 

Declaro terminado esse  texto cheio de erros  e para constar digito FIM.

Pitangui MG Brasil  31 de Julho  de 2020

 

  Ponto Final .

                  Assinatura 


quinta-feira, 30 de julho de 2020

Brilham sobre mim.

algumas estrelas brilham 
rondando a triste noite
um clarão em meio ao escuro
seu brilho parece açoite
e girando sobre mim 
acompanhando o trotar das horas
trazem o lume de outros tempos
de outras ilusões  outros ventos
na solidão que no quarto aflora.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Perfume promessa

A flor mais viçosa perde o viço
mesmo após no jardim fazer festa
mesmo que seu perfume seja promessa
de mil estripulias e risos

Eis que do nada  muda a flor
Secas e feias caem  as pétalas
Sentimos como costumeira  e certa
a volta triunfante da dor.

lindas novas flores virão
cumprindo seu destino colorirão
prados, campos e  jardins

o eterno ciclo do viver
mistérios do nascer e morrer
no caminhar certeiro para o fim

quinta-feira, 23 de julho de 2020

A Casa Roxa


      Abriu a porta devagar.
     A velha  folha de madeira rangiu,  provocando com seu ruído desafinado o agigantamento do medo.
   Entrou  finalmente na  casa roxa. A velha tapera abandonada considerada por muitos mal assombrada. A construção guardava mistérios em seus umbrais e provocava arrepios. Era toda  roxa, por dentro e por fora.
        Avistou  algo estranho no meio da sala. Brilhava iluminado pela  luz da lua cheia belíssima daquela noite, que entrava atrevida pela porta recém aberta.
      Criou coragem, foi ate o meio da sala e viu o monstro. Era grande, gordo, cheio de pelancas, pele enrugada, nariz pontudo, sobrancelhas grossas pouco cabelo, usava roupas fora de moda e o olhava fixamente. Pensou:  Que coisa horrível! O tenebroso  animal parecia  imitar todos os seus movimentos.

   Saiu correndo e ao virar-se derrubou o espelho que tanto o assustara. 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Visão turva

visão turva
conceitos embaralhados
sentimentos  escondidos 
precisando seren  enfrentados  
nessa roda insana 
a mesma pergunta gira 
aonde isso vai parar 
pensa até quando isso o  profanará
e quando é que a sorte vira. 


Batalhas da Noite

  O homem cansado das lutas tinha a visão turva.O cair da tarde parecia embaçar seus olhos e colocar uma névoa espessa em  todos os seus conceitos.
   Já não adiantava mais nada. Estava quase desistindo.
   A mesma batalha começava a todo crepúsculo, estendia-se noite adentro  no tenebroso silencio das madrugadas com os sons, os zumbidos e o abandono da  casa vazia até o amanhecer.
  Encolhido nas trincheiras do medo, ouvia os tiros dos pensamentos acelerados e suas mil conjecturas sanguinárias.
  Uma bazuca de ansiedade disparava para todos os lados, e bombas de efeito moral causavam depressão e desesperança.
  Era uma guerra dos ânimos  com pistolas  de melanciolia, tiros de ansiedade e canhões desprendendo enormes balas  de medo.
  Do silencio da noite, dos quintais sombria, granadas de sons inesperados,  faziam latejar e sangrar ainda mais  as feridas  abertas pela  insônia.
  E a noite era campo minado dilacerando membros  e abrindo as mais sangrentas feridas.
  A cruel batalha  acabava pela  manhã, onde apesar de ferido, sentia-se vitorioso. E  por causa disso ousava acreditar que teria flores saindo dos canhões. Mas não o que acontecia. Novas explosões e a peleja parecia eterna.
Não  sabia até quando aguentaria aquilo. Agora é noitinha e já ouvia novas explosões. 

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Blog - diário


blog  é diário
diário é dia a dia
blog é jogo rápido
e pode virar mania
apenas procuro dizer
que agora me vem
sem delongas, sem rodeios
começo e vou logo pro meio
gostou bem, não gostou amém.




quinta-feira, 16 de julho de 2020

Bola?


Fui ao cemitério numa tarde de sábado. Gosto de ir visitar o chamado campo santo. Sinto ali uma paz muito grande. Mas nunca quis ficar por lá. Apenas uma visita aos meus queridos que ali descansam e volto para o meu  canto.
 Enquanto  rezava ao lado do tumulo de um parente, vi uma coisa estranha ao meu lado. O que era aquilo? Uma bola grande? Cheguei mais perto e então compreendi que era um crânio.
Fiquei um pouco assustado e sai procurando o coveiro para informá-lo.
O homem  muito bravo  me explicou que eram os meninos da redondeza que costumavam aproveitar alguns túmulos com a tampa solta e tirar dali os ossos para brincarem, provavelmente usavam a caveira como bola. 
O operário da morte pegou o crânio e o segui até um túmulo onde faltava uma tampa na parte de baixo. O homem  colocou a caveira lá  de forma que esta  ficou “olhando” para frente e essa visão me pareceu muito aterradora. 
Percebi no fundo do tumulo um paletó azulado e saindo dele ossos compridos. Pela roupa deduzi que fosse um homem.
Era o que sobrara de uma vida.
Pensei: talvez esse tenha sonhado como muitos um dia ser jogador de futebol, mas jamais imaginou que se tornaria bola. 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

TERRA DA POESIA

Na terra da poesia encontro
Solo fértil do querer
Onde planto sementes de encantos
Para flores de encantos colher

La o ceu é mais azul
E rosas mais perfumadas
E a beleza em tudo de norte a sul
Vai margeando minha estrada

Ceu estrelado,  lua de prata
Faz a alma livida enlevada
Amor em tudo derramar

Nessa terra de mágica  de sonhos
Um novo mundo lindo risonho
É onde eu quero morar 


Cuidar

corona traiçoeiro
veio para encucar
causar medo no povo
fazer essa gente pirar

um bichinho tão pequeno
mexe com a vida de todos
muda hábitos e rotinas
se não se cuidar ele passa o rodo

ficar quietinho em casa
aproveite se você puder
leia,  assista bons filmes
curta os filhos e de quem te quer

mas se precisa trabalhar
trabalhe com muito cuidado
use máscaras, se proteja
não dê sopa pra esse desgraçado

se ele te pega te moe
ele pode te levar pra cama
e todo dengoso dizer
que muito muito te ama

tenha consciência e pense
no seu amigo e parente
cuide de você meu amigo
assim cuidará de toda a gente. 

quinta-feira, 18 de junho de 2020

NÃO SOU MAIS O MESMO


Eu já não sou o mais o mesmo.  Estou assustado com esse novo ser que está surgindo em mim. E com algumas coisas que têm me acontecido.
Gente! Eu recebi um convite numa rede social de  um site que se chama: A coroa Metade. Estão querendo encontrar uma cora metade para mim. Já não é mais o par perfeito, nem o namore aqui, muito menos a cara metade. Não! Agora é a coroa metade. 
Há poucos dias eu comprei uma máquina de lavar roupas. Eu sempre acreditei que isso era coisa de mãe comprar. Filhos compram computadores, aparelho de som etc. Agora eu me vejo feliz com a minha nova lavadora.
E sou obrigado a fazer aqui uma confissão. Confesso que tenho também sonhado com um jogo de panelas. Pode isso? Um jogo de panelas!? A que ponto chegamos!

Dia desses me deu vontade de rasgar a bola dos garotos na rua.  
Um fogão de seis bocas me atenderia melhor...
Como ser um bom dono de casa?
Linda a caixa de ferramentas que vi naquele site...
Bombardeio o pai google com perguntas de  mil dicas, Como tirar a baba do quiabo? Como fazer arroz soltinho etc etc etc
Quero pia limpa, silêncio, filmes introspectivos, dormir cedo depois de um delicioso mingau de maisena...  
Tudo que tem muito barulho me incomoda. 
Preciso firmar bem os olhos para enxergar as letrinhas miúdas. E já conto com o auxilio de certo instrumento de metal adornado em meu rosto. 
 Descobri que sou colecionador. Todo mundo tem um hobby eu também posso uai! Estou  colecionando algumas dorezinhas físicas a cada dia.  Se passo um pano na casa, alias limpar a casa é outra coisa que tenho feito muito, fico com dor na coluna... Se durmo um pouco de lado pareço que fui retorcido, ou então vem o torcicolo.  As juntas desconjutam, dores nas juntas vêm juntas  e vou aos pouco juntando dores.  Aquela historia  do Junta e joga fora...
Embora estejamos em um país tropical sinto que por um descuido da natureza de vez em quando cai neve em meus cabelos. 
O  programa altas horas agora é mesmo em altas horas. 
Sair de casa é quase um crime sem perdão.
Quando  bebo a embriaguez vem mais rápida e o sono também.
Algumas comidas parecem cair como bombas no estômago.
Não é tão fácil cortar as unhas dos dedos dos pés.
Ocorre declínio em outras áreas também, mas deixa isso pra la... Vamos encurtar para o texto não ficar longo demais. Crônicas compridas agora me dão preguiça.
Melhor é aceitar logo a nova condição.
Me disseram que isso se chama envelhecência. Uma fase da vida onde saímos da fase adulta e caminhamos para a chamada melhor idade a idosidade. Eu estou indo em rumo à flor da idosidade. 
Talvez possa romantizar, usar toda a mágica  da poesia, da bonita filosofia da  melhor idade, de perolas dos  livros de autoajuda  e com a tarefa gostosa de puxar a sardinha para o meu lado,  dizer: envelhecência  significa envelhecer com decência, desfrutando do melhor dessa idade e da crença de que toda a vida é plena com as dores e delicias de cada época. São maravilhosas todas as fases do viver. Fechei com essa teoria.  Então sendo assim eu me assumo.  Sou um envelhecente. E quem não é?
Queria correr, pular e gritar: QUE VENHA A ENVELHECÊNCIA, mas tenho medo disso provocar dor nas juntas.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Metade do caminho.

Parece que a palavra não chega lá
ela é apenas uma aprendiz
ainda lhe falta o trato
o tato, o saber,  o verniz
para chegar lá
o significado não a alcança
ou ela não  alcança o significado
ela tenta, se esmera, se estica e espicha
mas não consegue
não alcança o fundo do  poço
nem lhe cai a ficha
perde-se no meio do caminho
e muitas vezes nos abandona
é ingrata porque nela confiamos
a vemos como uma musa, nossa dona
mas não chega,
parece ir apenas até a metade do caminho
o resto, quem quiser que vá sozinho.
não consegui expressar o que queria...


terça-feira, 26 de maio de 2020

Toco

Em cada acorde que toco
em cada belo ponteado
faço uma ode à vida
de um jeito apaixonado 
minhas mãos vão deslizando
pelo instrumento de pinho
tirando belos acordes
fruto de um dom divino


o que eu vejo na vida
Por aí vou ponteando 
catando os cacos de mundo
e pouco a pouco colando 
nas cordas dessa viola
a vida é meu brinquedo 
nela vivo alegrias
sonhos  e tanta magia 
meus terrores, meus medos 


toco a viola toco 
toco a sina do existir
floreio  o passado de sonhos
o agora terno e risonho
ponteio o que está por vir 




A Hora

A existência é imprecisa
escapa por entre os dedos das  mãos
como a  areia fina e frágil,  escorre
voa para outra dimensão

somos reféns desse medo 
dessa sina cruel dos viventes
vivemos no temível entrementes 
A hora é o maior dos segredos. 

a morte causa impacto 
desconstrói todos os pactos
bagunça os conceitos do ser e ter 


não entendemos nem aceitamos 
de todas as formas indagamos  
perdidos num mar de porquês

sexta-feira, 8 de maio de 2020

É


Mãe
O eterno, o indecifrável Universo de amor
Não é possível mensurar a dimensão desse ser
Palavras são imprecisas
Nem de longe tocam a realidade
Do que ela é de verdade
Vai além das explicações e dos conceitos
Mãe... aconchego, afago, ternura, carinho, amor, respeito
Tudo o que há de melhor.
Poderia usar mil palavras
Mas não adianta
Defini-la não conseguirei
Ela existe por si mesma
Inatingível expressão de grandiosidade
Mãe É 

Rastros



Pessoas que realmente importam deixam rastros, marcas profundas no chão da nossa existência. Sulcos ficam na lama pós-tempestade.  E esses rastros, mesmo após a lama secar, não se apagam jamais. São guias  e a eles devemos seguir.
Mas até chegar a percebermos isso muita coisa acontece:
Primeiro vem a noticia! O impacto, a surpresa. O absurdo! Essa pode ser dada de forma brusca  ou suave. Pode seu mensageiro usar de todo o tato e destilar toda a sua verbosidade no sentido de amenizar a situação, ou soltar o verbo de forma rude e direta...  Tanto faz o  faleceu ou o morreu, impactam. Como se algo se partisse dentro daquele que a recebe. O mundo cai, parece que uma nuvem densa  se projeta logo acima de nós. Tudo fica escuro, uma tempestade de vento e granizo, o desespero se avizinha  uma chuva acida e torrencial desaba.  Como se todas as luzes em volta estivessem sendo apagadas. Tudo fica sombrio. Nos fechamos para o lado alegre da vida. 
Demora um tempinho, embora a maior parte  das vezes ele seja mínimo, poucos segundos  para que a mensagem ultrapasse os limites da razão e atinja o âmago do ser, se espalhando pelo terreno da emoção. Primeiro pensamos  sobre o fato, depois o sentimos de forma profunda e  consequentemente  fazemos mil  conjecturas sobre ele.
Então o drama se faz dentro da gente! Um turbilhão de pensamentos vem invadir e a imaginação viaja por todos os lados.
A vida se esvai de nós  como a areia fina escapa da mão e se perde ao vento. E tudo o que se diz sobre a efemeridade e a fragilidade da nossa existência é assustador.
Tudo parece ter sido  tão  rápido! Tantos anos vividos que passaram tão depressa! E  nem os percebi.  Perdi-me na rotina e na doce ilusão de que tudo seria eterno que deixei para viver depois, para amar depois, para valorizar depois. Mas quando é esse depois? Talvez não tenha parado pra sentir. Para registrar os momentos, para saber que estavam aqui.
 Tantos bons momentos à minha disposição, mas pareço ter passado batido em muitos.
Culpas, indagações cogitações. Tudo isso tenho agora diante desse fato que amedronta a todos nós e que  é o destino inevitável de todo ser vivente.
Momentos que se foram  agora os quero , os quero todos. Abraçar o afeto que não abracei, ou não tanto quanto deveria. Agora que não os tenho, os quero.
A vida é mesmo engraçada. Carregada de contradições. Sabemos da morte, mas a afastamos de todas as formas do pensamento e não vivemos como se fossemos morrer, e muitos morrem sem terem vivido de verdade.
Então vemos os rastros de vida deixados. Pedaços de momentos perdidos na areia do tempo.  Ah me lembrei daquele dia... Daquele tempo em que éramos felizes... Daquela tarde de domingo... Daquela noite fria...  daquilo que ela me disse... Aquele dia lá em casa, hummm “tava tão bão”... e naquele aniversário que farra nós fizemos... a festa de casamento ...se pudesse voltar...  Não volta mais, nunca mais...  Ah ainda posso ouvir aquele sorriso que não mais ouvirei,  também viajou para o terra do nunca mais.  Ainda rio daquela piada que ela contou e que riu também. Ouço aquela voz... Ora mas que coisa estranha! Se aquela voz já não existe mais, se aquelas cordas vocais já não tinem exalando aquele som tão aconchegando carregado de carinho, como   ainda a posso ouvir? Ouço, está aqui, ainda atinge os meus ouvidos. E aqueles olhos brilhantes que em alguns momentos se encontravam com os meus, tinham um brilho que vinha de longe trazendo toneladas de amor encontradas no meio dos caminhos. Olhos que tudo diziam, se declaravam sem nenhum receio.  Tudo está aqui, eu sinto, eu vejo, eu toco.
 Os meus sentidos estão aguçados para tudo o que se refere a ela, e hoje vejo coisas que não via e sinto o que não sentia.  Sim, até sinto que ainda posso tocá-la, sinto sua pele, suas mãos segurando as minhas, sinto a textura o calor do seu toque. Tudo está aqui. Pedaços de vida estão aqui, pedaços perdidos jogados ao vento, rastros de toda uma linda caminhada.
Todo aquele que morre não morre de todo. De certa forma ainda vive. Eles deixam rastros, e esses rastros são na verdade sua presença que continua entre nós. Ela se foi, passou para outra dimensão,  para um lugar onde mesmo aqueles que têm todas as respostas não sabem responder onde fica.  Está no mais profundo dos mistérios. Mas posso senti-la toda vez que fecho os olhos e pareço ouvir o som de sua voz, no carinho deixado, no conselho dado naquele momento difícil. Em tudo isso  ela está viva. Naquela frase que de alguma forma nos ajudou, ela está viva. Vive no exemplo, vive na nossa risada toda vez que a lembrança nos conduz àquele momento feliz junto a ela. Vive o tempo todo aqui dentro de mim, me alegrando por saber que a tive e que isso foi maravilhoso. Vive na oração, quando onde acima de tudo agradeço a Deus por ter me permitido conviver com ela e ter me concedido o maravilhoso presente da sua presença em meu viver.  Não. Não morreu. Todo seu legado aqui está.  Ela vive.
Talvez essa seja a verdadeira eternidade, a eternidade do carinho que permanece, a eternidade do sorriso que damos quando dela lembramos. Não! Essa historia de morrer é algo muito relativo. A vida vai muito além de uma urna funerária, de um tumulo inerte. A vida pulsa  nos gestos, nos carinhos em todo o universo que ela deixou em nós. E se derrama em amor e em saudade.  A vida se refaz na nossa capacidade de amar e de perpetuar um amor que parecia efêmero, mas que ultrapassando todos os conceitos e as convenções,  não morrerá jamais.
Alguns acreditam numa continuação da vida num outro plano, outros não, mas de qualquer forma eles serão eternos em nossas lembranças. Respeito os que não acreditam, mas eu creio que um dia nos reencontraremos. E imagino que será numa bela manha de céu deslumbrantemente azul, de um sol  ameno e acolhedor. E esse sol irá aos poucos enxugar o pranto que desce por nossos rostos. Soprará uma brisa suave e gostosa e essa brisa trará o perfume dela, primeiro de forma tênue, disfarçada, depois vai se acentuando. Então enxergaremos um ponto lá longe,  uma estrela que começa a brilhar, e seu brilho vai se intensificando, e vemos então aquele pontinho aumentando... está vindo em nossa direção. Já a podemos reconhecer. E que alegria! Aquela estrela que agora brilha intensamente é ela, aquela pessoa, aquela que nos foi tirada, está voltando para nós. Aquele é o momento mágico do reencontro. E como num comercial de tv, começamos a correr em câmara lenta, com uma musica suave ao fundo. E por onde vamos passando,  flores vão se abrindo, e a brisa nos traz um perfume de felicidade. Um delicioso perfume. Então nos aproximamos e o abraço acontece.  Intenso, profundo, impactante, descarregando um caminhão de saudade. Ah como é bom voltar a abraçar!  Abraço acolhedor, capaz de apagar toda a dor e fazer desabrochar a  flor  perfumada da felicidade e do eterno reencontro. Então gritaremos de alegria ao percebermos que; dor, medo, insegurança, tudo isso já é coisa do passado.  E seremos para sempre parceiros, e o fim já estará vencido. Eu creio, tenho o direto de crer e imaginar o dia que vamos nos reencontrar para uma felicidade eterna.
Enquanto esse dia não chegar eu continuo acreditando na beleza dos rastros no chão e tendo a certeza  de que os momentos vividos ao lado daquela pessoa tão especial são eternos. Não ela não se foi, apenas uma parte não mais posso  ver nem sentir, mas ela está entranhada em nós. Vivendo conosco na lembrança, no sorriso, nos exemplos no legado... Em todos os momentos
E essa tristeza que agora mora em mim é a certeza de nada foi em vão. Houve amor, houve afeto, se não, não sentiria toda essa ausência.  Ela faz falta porque valeu à pena tê-la aqui. E devo agradecer a Deus pela sua presença e por ter permitido tê-la  por alguns anos. Percebo a sua existência como um maravilhoso presente dado por Deus. Um anjo a mim emprestado, que veio, mudou minha vida para melhor e depois se foi. Anjos voam é assim que acontece. Um viva por essa maravilhosa existência.
Não nos esqueceremos de tudo o que deixou.
Os rastros ficaram.

terça-feira, 5 de maio de 2020

A alegria

A alegria está em mim
nunca no mundo cá fora
apenas respinga no meu ser
a chuva  do que vivo agora
eu a produzo a faço
a vejo na alegria da manhã
até mesmo na noite escura
nas minhas mais loucas procuras
a abraço e dela sou sempre fã. 

terça-feira, 28 de abril de 2020

Rodo

me sinto muito perdido
pelos tortos caminhos da vida
sentindo as pancadas do destino
nas muitas coisas vividas
a vida quer de mim coragem
viver e lutar o tempo todo
ir se moldando aos seus contornos
se acomodando aos múltiplos  entornos
do contrario ela  derruba e passa o rodo.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Algumas aldravias sobre meu cachorro e sobre a dor que sinto por causa de sua morte.

cãozinho
adeus
como
doí
meu
Deus

***
versos
emoção
cão
homenagem
para
amigão

***
aldravia
piou
cão
sempre
será
amor

***
lágrimas
molham
chão
posso
conter
não

***
morreu
amigão
so
lembranças
pelo
chão

***
cachorro
esperto
quer
sempre
dono
perto

***
Adeus
procê
pra
nunca
mais
ver

***
morte
tras
pavor
do
nunca
mais

***
quando
morreu
olhos
vidrados
nos
meus

***
adeus
paz
Sammy
até
nunca
mais

***
Animal
doente
perigo
doi
perder
amigo

***
morte
do
cão
amarga
igual
limão

***
O
cão
não
aguentou
o
latidão

***

pelo
do
cão
macio
como
algodão

***

amor
carinho
afeto
cão
bem
perto




Site oficial  Neste site,  um pouco da carreira literária de Múcio Ataide, seguindo o caminho das letras para  brindar a vida e descobrir se...