quarta-feira, 28 de outubro de 2020

ESTRADA

 Letra de música

autoria MÚCIO ATAIDE 


Tem pó na estrada

Tem sonhos e amores

Tem tantas esperas

Entre  tantas dores

Tem estrada na estrada

E à frente tem mais

tem praias  e serras

avenidas e quintais

tem beco espremido

de onde só se sai

por um só caminho

tem-se que andar pra trás

 

colhendo frutos

por todo o caminho

os doces e amargos

licores e vinhos

rosas perfumadas

tem tudo tem nada

clichês e  espinhos

a estrada aprisiona

mas também liberta

é uma avenida 

de portas abertas

Você pode entrar

ou pode sair

Não foge da estrada

ela está sempre aqui

 

  

estrada fé, estrada amor

estrada frio, também calor

estrada seguindo

estrada vindo

estrada vou

estrada é, estrada sou

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

DENSAS NOITES

Em sombrias e indecisas  noites 

o passado vem e arrebata

Numa tormenta interna  nata

surra meu chão como açoite 


sozinho nesse apartamento

 assim tão carente de alegria

preso aos grilhões  da melancolia

e às fortes grades dos momentos


notas e acordes  soam

carregados de mágoas voam 

filhos de uma triste canção. 


e a madrugada chega sufocando

com garras afiadas apertando 

corpo alma e coração. 


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

INTROVERSÃO

 Timidez e introversão, a eterna dúvida. Introversão é um assunto controverso. E muitas pessoas confundem com timidez. Mas na verdade são duas coisas distintas embora os comportamentos muitas vezes possam ser semelhantes. Um tímido pode ser também introvertido, mas a introversão é mais um traço de personalidade e a timidez está mais relacionada ao medo. A timidez quase sempre é adquirida, produto de algum trauma ou algum acontecimento marcante que levou a pessoa a ter receio do contato com os outros. A introversão é a maneira de ver o mundo. Introversão é jeito de ser.

Durante muito tempo me senti mal por ser introvertido justamente por não saber fazer essa diferença. Quis combater algo que era parte de mim, traço da minha personalidade e que não deveria ser combatido jamais. Porque é muito difícil você lutar contra o seu próprio jeito de ser. Temos traços naturais que devem ser respeitados e mais que isso, usados a nosso favor. Existem nesses traços qualidades que devem ser exaltadas e valorizadas. Isso é muito importante. Quando aprendemos a respeitar nosso jeito de ser e usa-lo a nosso favor as somos muito mais felizes e realizados. Lutar contra o seu jeito de ser é remar contra a maré, tentar tapar o sol com a peneira, etc... Poderia usar mil clichês, mas a verdade é que negar seu jeito de ser é ir  contra você mesmo. O melhor caminho é aceitar-se como é. E foi o que eu fiz depois de muitos anos de sofrimento e insatisfação comigo mesmo.

Mas a vida é assim, a gente vai aprendendo a medida que as coisas vão acontecendo  vamos tirando conclusões daqui e dali. Eu aprendi aos poucos a me aceitar do jeito que sou.

 Em 2013 conheci a obra o Poder do Quietos de Susan Cain. O livro faz uma análise profunda sobre a introversão e suas características. Ali pude conhecer alguns conceitos específicos, bem como saber de  experiências feitas na área e conclusões a que elas chegaram. Uma dessas experiências foram feitas por kagan com crianças altamente sensíveis. Ele provou que antes d qualquer influencia do meio social algumas crianças são naturalmente mais sensíveis e reagem de forma mais aguçada a estímulos externos.  Após conhecer mais sobre o assunto  pude perceber que uma grande parte do meu comportamento que eu considerava defeito na verdade era apenas traço de personalidade. Eu não deveria me condenar por ser como sou. O livro exalta o valor da personalidade introvertida que no nosso mundo ocidental sempre foi visto com maus olhos. Por aqui a exigência é ser comunicativo falante, como se isso fosse  garantia de sucesso e prova de inteligência e vivacidade.  Susan ressalta também a velha guerra entre os descolados e nerds onde um comportamento é tido como saudável proveitoso e o outro como uma negação, algo a ser execrado e banido. O livro mudou o meu conceito e me fez entender que cada um é de um jeito e não temos que nos adequar às exigências do meio social. No mundo oriental é o contrário  o introvertido é visto como introspectivo pensador e valorizado. Seu jeito é aceito e até admirado por todos.  Questões culturais à parte o importante é sermos  nós mesmos  sem culpas ou receios.     

No livro a autora descreve algumas características do introvertido. São elas: gostar de voltar-se para dentro, isso remonta a Carl Young que elaborou a teoria das personalidades e nessa teoria ele afirma que o introvertido tem o movimento de fora para dentro, como se ele pegasse o mundo fora de si e o trouxesse pra dentro enquanto o extrovertido tem o mundo de dentro para fora. O introvertido interioriza o mundo fora de si, o extrovertido exterioriza o mundo dentro de si. O introvertido tem a tendência  para meditar pensar, refletir  muito sobre as coisas. Não gosta de aglomeração. Se sente cansado depois de um longo colóquio. Isso lembra também a curiosa teoria das baterias. Uma comparação feita entre  a energia interna de cada pessoa e as baterias dos celulares. Uma analogia que está bem focada na nossa realidade digital.  O extrovertido quando está só sente sua energia interna fraca, então precisa de movimento, de estar em um grupo, falar, jogar para fora o que sente  para recarregar suas energias. O introvertido ao contrario sente sua energia minar na presença de muitas pessoas e muito  agito, então precisa de momentos a sós para fazer a recarga.

Introvertidos gostam de solidão, de ler, de meditar, de conversas intimas e profundas. Não curtem falar de trivialidades nem fazer fofocas. Tudo o que ouve o faz refletir. Em poucos segundos interioriza a fala e tira dela mil conclusões. Nunca fica numa coisa só, não tem aquela opinião formada e nem verdades absolutas. Quando ouve alguma coisa precisa mastigar aquilo dentro de si comentar somente quando tiver certeza, portanto é compreensível que seja assim tão fechado. Ele vive um mundo interno vibrante, uma mente movimentada,  embora pareça que tudo está sempre calmo dentro de si.

O livro trata de vários assuntos relacionados e poderia destacar algumas coisas que  além dessas citadas nos paragrafas anteriores também me chamaram a atenção, como por exemplo a teoria do traço livre, onde uma pessoa por necessidade ou por um objetivo especifico pode agir fora do seu traço natural de personalidade. Apesar de a autora ressaltar certa resistência que temos a isso por questões filosóficas intrínsecas demonstra através de diversos exemplos que  realmente é possível um introvertido por exemplo, agir por alguns minutos como extrovertido e até enganar a muitos. O que me faz pensar que temos dentro de nós uma diversidade de conhecimentos sobre a natureza humana. Somos um pouco de cada coisa e por que não usar isso a nosso favor?

Aprendi que reagimos por medo quando o lado mais primitivo do nosso cérebro a amigdala nos dita regras e conceitos, reage trazendo o medo  diante de diversas  situações quando os acontecimentos acionam gatilhos mentais associados a coisas negativas já vividas. E que temos o outro lado, o lado evoluído, racional o córtex pré-frontal, através deles podemos direcionar de forma consciente e racional  nossas ações e superar algumas situações difíceis. O velho e batido conceito da nossa ancestralidade e seus aparatos de fuga e enfrentamento da realidade, sendo a nós oferecidos através da fantástica máquina que é o nosso cérebro.

Poderia ficar aqui falando dias e dias sobre as preciosidades do livro, mas prefiro que leiam e possam assim  nos conhecer um pouco mais.

Conhecer a si mesmo é uma grande aventura

Espero que as pessoas com o tempo e através de obras maravilhosas como essa, consigam entender mais os introvertidos. Que aos poucos sejamos mais aceitos e acolhidos, pois fazemos parte desse todo que é a diversidade humana e qualquer classificação negativa se dá pela ignorância e pela nefasta cultura ocidental que não consegue entender nosso jeito de ser. Temos nosso valor.  Cada ser humano é um universo, uma unidade humana independente que não pode ser  comparada com nenhuma outra. As características da personalidade devem ser vistas não como certas ou erradas, mas como únicas e que de uma forma ou de outra contribuem para o todo. Temos grandes extrovertidos na historia e grandes introvertidos também. Não existe uma fórmula certa nem errada de ser, cada um com seu jeito pode fazer a diferença no mundo.    E  essa mania que temos de ficar julgando e classificando tudo é o que atrapalha. A diversidade é o que dá colorido ao mundo. Se todos fossem iguais, que graça teria?  Sendo assim o introvertido tem seu lugar e pode conviver sem culpas nem restrições.  

Já tive vergonha, mas hoje tenho orgulho em ser um introvertido.

 

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

JÃO DA ESTELA 

Meu amigo “Sô  Jão” tem setenta e cinco anos e a namorada dele  vinte e dois.

Ele não pode evitar que as más línguas bifurcadas lancem sobre essa relação algumas  golfadas de veneno cristalino. O veneno da maledicência que mora em muitos corações e se espalha por aí. Mas isso não importa, deixem que falem, importa  apenas o amor e talvez um pouco de pesar pelo dinheiro gasto com a moça. E fica horas cogitando o porquê das visitas da amada acontecerem principalmente no dia do recebimento  da sua aposentadoria estendendo-se pelo tempo em que se estende o dinheiro na carteira. Mas isso é apenas um detalhe.  Deixem que falem. Esse povo fofoqueiro!

Quanto ao sexo, diz usar de certo artificio azul, dia sim e outro também. Fala muito disso, conta bravatas da noite anterior fazendo gestos com as mãos. Com os dedos da mão esquerda faz um círculo com o polegar e indicador e introduz o indicador da mão direita, que talvez por causa de uma artrose ou coisa assim é torto,  no círculo, fazendo movimentos de vai e vem, exaltando assim sua brilhante e azulíssima performance. 

Um dia ele disse que sua namorada era Estela, mas eu não entendi muito bem, e perguntei para confirmar porque sabia que esse não era o nome dela, então ele me explicou que Estela era uma mulher que não pegava fio (filho). Então entendi. 

E me jurou que o sexo vem da cabeça. Eu perguntei confuso como isso funcionava ele explicou:

-Na hora que a gente está fazendo a coisa,  dá um trem na cabeça, um estalo e então a coisa desce. O leite se derrama pra baixo. Ele vai se ajuntando ali no “cerbro” e cai na hora certa. Enquanto me dava aula de sexologia deixava escapar gargalhadas de satisfação, pelo seu conhecimento do assunto ou talvez pela lembrança do prazer sentido. 

Ê trem bão! Falou com aquele gosto!

E eu então entendi perfeitamente as vistas grossas para a falação do povo e para sua reclamação de que falta mês no final no pagamento.

Amor, coisas do amor que os ignorantes e maledicentes não conseguem entender. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

ABRI O LIVRO.

 Quando abri o livro

uma luz dele surgiu

raios multicores

carregados de amores

o meu mundo e tudo  coloriu


então peguei uma carona

na asa dourada da imaginação

e me permiti voar

livre solto no ar

por mundos de montão


do planeta vi os quatro cantos

chuva, neve, deserto e mar

andei por terras  distantes

reais, imaginárias fascinantes

bastava apenas imaginar. 


me tornei heroi vaqueiro

um sabio e perspicaz detetive 

empresario, guerrilheiro

me tornei mil, e faceiro

nessa loucura  não me contive


Aquele lume colorido

feito oleiro do  barro me moldou 

me fez pensar 

me abriu horizontes do viver

 refletir melhor, entender

minha vida inteira  transformou


a luz brilhou na leitura

com alegria, amor  e paixão

uma viagem deveras  fascinante

divina , envolvente, revigorante

livro caminho da emoção. 


quando o fechei

não perdi a riqueza tão vasta

 tregua na magia 

a luz colorida  se apagou 

tudo por algum tempo  voltou

a ser de novo sem graça

 







terça-feira, 29 de setembro de 2020

ACREDITAR

 Quero flores no caminho

E perfume pelo ar

Quero andar sozinho

Comigo a me acompanhar

 

Quero alegria esperança

Um sorriso sempre aqui

Como se fosse eterna criança

Mas que sabe cuidar de si

 

Quero amor muito amor

Para aplacar de vez a dor

Que insiste em machucar

 

Quero abraçar de vez a vida

E no fim da estrada comprida

Dizer:  valeu acreditar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

UM NOVA ESPERANÇA

 Nada como uma nova esperança

quando as estradas estão tortas

os caminhos desalinhados

quando o cansaço bate à porta

e nos sentimentos desesperançados; 

Nada como uma nova esperança

uma ideia redentora

dessas que nos faz renascer

com a força toda do viver

nova era salvadora

esperança caminho

esperança sentido 

para tudo sentido

sem ela nada vale

esperar o melhor

esperançar realizações

combustível do viver

nada como  uma nova esperança. 



terça-feira, 22 de setembro de 2020

CAI CHUVA

 uma chuva macia cai

são pingos de tranquilidade

molhando a cidade

E trazendo paz

 

Há muito esperada 

vem aplacar o calor

fazer desabrochar flor

e dar verde às ramadas 

 

traz vida, viço, sossego 

à alma aconchego

como mel do favo pinga assim 

 

E tanto pode nos oferecer

de vida, de alegria e prazer

Cai chuva, pode cair...

 

QUANTA IMORALIDADE!

 Naquele tempo tudo era diferente, os valores eram outros e aquilo não podia ter acontecido.

Maria, sua filha estava grávida. Mas ela não era casada e isso para ele representava uma coisa terrível. Ficaria a moça falada na redondeza e todos comentariam e a honra da família estaria destruída.

Isso era uma imoralidade. Jamais poderia imaginar que um dia passasse por uma situação assim. Olhava pela janela e se perguntava:  Afinal de contas o que acontecera de errado? Sempre educara suas filhas de um modo tão rígido e todas as lições a elas ministradas eram pautadas nos mais nobres princípios da honra e da moral.  E não tinha essa de muita conversa não. Quando falava até a agua do rio parava. Voz forte potente e autoritária. E a vara de marmelo e as correiadas  chiaram muitas vezes por alí. Será que as lambadas  não surtiram efeito?

Ter filhos, só depois de se casar, onde já se viu.

Por muito menos classificou outras moças de  à toas . Não, uma moça de família não podia se prestar a isso.

 Sexo, nem gostava de ouvir essa palavra, era indecente demais, só depois de casar, no escuro e sem muitas firulas porque isso era coisa de  prostituta. Somente  aquelas lá da rua de cima se prestavam a certas saliências. Elas faziam  coisas incríveis . Principalmente aquela de  ontem a noite...

-E agora o que fazer? Pensou de si para si.  O rapaz, pai da criança havia vazado na braquiária como dizem, sumiu no pasto, picou a mula,  escafedeu-se, deu no pé... E agora todos veriam a barriga da moça crescer e isso seria  um motivo de vergonha. Se houvesse um jeito de casá-la rápido para ninguém perceber tudo estaria resolvido, mas como fazer isso se o rapaz se foi e nenhum homem de bem aceitaria uma mulher profanada. Uma perdida, deflorada era isso que sua filha era. Que vergonha meu Deus. Crio uma filha com carinho e respeito e agora acontece isso.

-Ah são esses tempos modernos, esse povo de hoje não tem jeito mesmo. Já estamos em 1975 e a coisa só vai piorar. Pra onde esse mundo vai?

Só esperar para sentir a vergonha, os risos dos vizinhos, os comentários velados.  Abaixar a cabeça quando andar pela rua e aceitar que seu lar é desonroso e que tudo está perdido. A que ponto chegamos?

Estava desolado, muito triste e para animar-se só mesmo indo à casa de Conceição.

Sua filha grávida, não podia aceitar aquilo. Uma moça deve se casar virgem e pura.

Única exceção aceitável:  a mãe da moça.  

 

-Ah quanta imoralidade nesse mundo!

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Medos e Sonhos

 sonhos e medos, medos e sonhos 

guerreiros,  valentes,  gladiadores 

vitimas, algozes, tentadores 

bravos, mansos, taciturnos,  risonhos 


Lutam e se abraçam assim do nada. 

misto de contradição e  ousadia

Numa peleja eterna,  insana, arredia

Espalham sangue e flores pelas estradas 


sempre juntos, íris acesas, alertas 

a essência do ser por vezes descoberta 

quando a verdade do âmago aflora


um se mostra, o outro se  encolhe indeciso 

num indecifrável  vai e vem impreciso

acompanham-me vida á fora. 




sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O CONDOMÍNIO

Numa semana tumultuada do mês de setembro de 2012  papai e mamãe   mudaram-se  para o condomínio fechado chamado  São Miguel das Almas que fica localizado no bairro São Francisco em Pitangui MG . Numa mudança repentina, como todas elas são, levaram apenas a roupa do corpo e uma cama acolchoada toda feita de madeira.  O transporte para a nova morada foi feita num carro branco com algumas luzes no teto. Muitas pessoas ajudaram na mudança. 

Deixaram a casa espaçosa e mudaram para um apertadíssimo apartamento de 2x1 . O condomínio não tem porteiro, o muro é baixo,  também não tem  câmera, ou nada relacionado à segurança, mas não precisa porque é um lugar tranquilo e la todos vivem em paz. Não existem brigas, nem disputas. Lugar de gente educada, calada, tranquila, não se ouvem gritos nem nenhum sinal de confusão.  Eles não reclamam de nada. Nem se movem. 

  São muito as apartamentos, todos pequenos e bem diferentes uns dos outros. Alguns luxuosos, outros como os de papai e mamãe bem simples. 

O sindico que é muito justo estabeleceu algumas regras para aquele lugar. Quem se mudar para ali não pode levar  o orgulho, a ganancia,  o poder, o apego aos bens materiais. Nem se pode levar casa, carro, moveis. Nada. Para ingressar é preciso deixar tudo do lado de fora. 

 Lá meus velhos  encontraram também alguns  parentes, parece que aos poucos a família vai toda se mudando para aquele local.  E acredito que devem fofocar a respeito de nós que por enquanto vivemos fora do condomínio. O apartamento deles fica de frente para o do  Tio João  onde creio que nas tardes de domingo batem longos papos, contam piadas  e cantam musicas de Nelson Gonçalves ou quem sabe lembrem aquela do Roberto Carlos: "aquelas tardes de domingos quantas alegrias, velhos tempos, belos dias".   

Devem contar "causos", mamãe dar receita de bolo.  Talvez lembrem  por exemplo de quando tinham filhos pequenos e nos reuníamos numa festa de aniversário ou na casa de vovó. E as lembranças devem doer, como doem aqui do lado de fora quando surgem os retalhos de vida costurados  na colcha do existir igual a música colcha de retalhos que mamãe gostava tanto de cantar. Aposto que papai diz quando alguém tenta interromper seu discurso: espera, calma, deixa eu completar... e depois do fim do caso dá aquela gargalhada gostosa. Devem ser memoráveis tardes de domingo como aquelas de antigamente. 

De vez em quando vou lá pedir a benção e bater um papo com eles. Mas somente eu falo, eles permanecem quietos. Talvez entendam que  a saudade é tanta e que preciso desabafar então me ouvem atentamente. Ali sinto paz e tranquilidade e parece até que todo o barulho e maldade do mundo não pode entrar pela portaria daquele condomínio. 

Sempre que  ali estou  me lembro daquele trecho da Bíblia 

"Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.
Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda."

E penso na razão da quietude dessas duas pessoas maravilhosas. Nada mais têm a dizer, fizeram o que puderam da melhor forma possível.  Cumpriram sua missão de espalhar amor e dar carinho. Combateram o bom combate dando exemplo e me ensinando a viver. Me ofertaram o presente da vida e uma vida maravilhosa na presença deles.  Eternos heróis.  Têm todo o direito de descansar em paz sob os raios vibrantes de uma luz maravilhosa. 

 A dieta ali é "braba", estão bem magros,  o puro osso, e não engordam apesar de serem muito sedentários.  

Mas estão em paz. Ali não mais existe o sofrimento. Estão bem e eu também estou apesar  da saudade.  

Fico com as  lembranças que as vezes machucam bastante, mas o sorriso de felicidade  por ter ganhado esse grande presente de conviver com esses dois seres maravilhosos. Agradeço sempre pela existência deles.

E aqui estou esperando a minha vez de mudar para lá também. Espero que demooooreeee.

 

" Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos"

Frase escrita na portaria do Condomínio São Miguel das Almas. 

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

 Divina Senhora


Uma estrela brilhante
uma luz que irradia
raios envolventes
envolvendo-me em magia

nada atrai mais
do que esse doce momento
em que ela chega
e se apodera dos meus sentimentos

Muda tudo, tudo, tudo 
se imiscui em cada cena 
cada instante do viver
faz valer a pena

musa, rainha 
com jeito peralta de criança
quero tê-la sempre assim 
divina  Senhora esperança

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Enfrente e em frente


Quando sentir mil temores  chegando

E se  espalhando em você

Pense de onde eles vêm

E  o que podem  lhe oferecer

 

Quais os tesouros contidos

E quantos ensinamentos

Estão escondidos nos medo

E em outros sentimentos

 

Se algo lhe incomoda

Pense a razão o porquê

O que será que está errado

Aí dentro de você

 

A vida tem seus segredos

O corpo sempre responde

Aos desmandos do viver

Na dor que o peito esconde

 

Cada situação vivida

É motivo para aprender

Extraindo lições de tudo

O que contigo acontecer.

 

  

Não negue não se esconda

Não queira disfarçar jamais

Abrace bem forte o que sente

Depois sentirá a paz.

 

Enfrente o medo e o momento

E tudo aquilo que sentir

Depure seus males e monstros.

E siga em frente a sorrir.  

***


Múcio Ataide ao estilo  Braúlio Bessa. Rs. 

terça-feira, 4 de agosto de 2020

PASSANDO O RODO

Enquanto lavava a rua a mulher olhava o movimento e se divertia com tudo o que acontecia ao seu redor.

Parava sua atividade para conversar com um ou outro exercitando  seu  esporte preferido  a maledicência.  Ah como gostava de lançar a língua ferina, que zunia como uma chibata agressiva sobre a vida de cada um. Sabia tudo, tinha conhecimento dos menores detalhes do que acontecia na rua. Sabia que a dondoca da casa da esquina estava saindo com um homem casado. Que o rapaz filho da dona zinha tinha finalmente saído do armário. Que Sô Jão  la do final da rua estava namorando  uma moça novinha. Imagina só  o homem tem 76 anos! 

Falava do tempo do frio do calor, da chuva, da  politica do preço do feijão e dos absurdos das cenas da novela de ontem. Enquanto  lavava o passeio passava o rodo em tudo.

Num dado momento parou e ficou indignada quando viu que escorria uma água próxima ao seu portão, água essa que se juntava a outra que usava para lavar seu passeio. Num acesso de raiva olhou agressivamente para a mulher  da casa de cima, que cometia aquela atrocidade de ficar lavando o  passeio. Absurdo!  Gritou indignada para a vizinha. –Fica aí fofocando falando da vida dos outros,  gastando água e molhando a porta da gente.  Xingou e escondeu-se.  Entrou na casa  bravejando:  Fofoqueira sem vergonha.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

BATALHA ETERNA.

A letra A  maiúscula começa...

A batalha é árdua. É mesmo uma grande luta. Eu não imaginava que fosse tanto. E nem que fosse levar tantos tombos. Mas continuo em frente...

Quando comecei, tudo eram flores e sonhos. O sonho de escrever, de correr solto pelos campos floridos das letras e dos versos.  Trilhar a bela e  plana estrada  das páginas, com a elegante tonalidade sépia, misturar-me à  poeira das aventuras e deliciar-me com o aroma  gostoso de papel novo e até mesmo com o  mofo dos guardados.  Estrada essa margeada pelas flores a mim oferecidas por mil personagens, todos com mil tentáculos, parecendo aranhas penduradas nas teias das tramas e presos às armadilhas dos enredos.   Queria mergulhar profundamente no lago dos signos e me deleitar no rio das metáforas e das frases poéticas. Queria abraçar fortemente o mundo das letras e da escrita e perceber extasiado todo o seu encanto e todas as suas possibilidades.  E até ousava acreditar que as mãos fortes do sucesso viessem acariciar-me de forma terna e serena. Caminhos de flores e sonhos?

Mas já no inicio da caminhada  percebi que a coisa não seria tão fácil.

E estava correndo assim feliz pelas páginas quando tudo aconteceu. Ouvi um tropel e agucei meus ouvidos para entender melhor a situação. E aos poucos o fraco ruído foi se intensificando e me deparei com uma tropa  à minha frente. Um exército de grande contingente e todos os soldados  me olhavam com raiva parecendo querer me devorar.

Empunhei minha caneta, meu mouse e meu teclado e fiz desses objetos minhas armas para a feroz batalha que se aproximava. 

Estava com medo e sabia que seria uma grande peleja, mas defenderia com todas as minhas forças o meu direito de escrever.

O exercito que ali se apresentava era formado  pelos fiéis escudeiros da língua portuguesa. Aqueles soldados combatiam ferozmente todos os que se aventurassem a explorá-la e a extrair seus tesouros.

Se eu quisesse vencer e me tornar um escritor, teria que enfrentar aqueles inimigos.

Todos a postos e então a batalha começou:

Um vocábulo de cara carrancuda e muito autoritário que trazia uma plaquinha no bolso do uniforme escrito ORDEM e parecia chefiar o pelotão, convocou à luta  seus fieis seguidores  da linha de frente, os destemidos combatentes:   COMPLICAR, BAGUNÇAR E CONFUNDIR, que pareciam com muita vontade de brigar e gana de me acertar.  E para completar, sem esquecer de rimar,  chamou também a agressiva soldada ATACAR. 

Então vieram todos para cima de mim. Lutávamos ferrenhamente no ringue da página e das letras. Eu era atacado de todas as formas. Tudo ficava confuso  enquanto via meu texto todo bagunçado. 

Vieram  outros e me confundiram ainda mais. Vieram “tudo junto”, não vieram separados, lembrando que separado é tudo junto e tudo junto é separado.

A SEXTA que gostava muito de feira trazia uma CESTA de compras pendurada em sua ultima sílaba. Parecia cansada das labutas da semana e não via a hora de chegar o sábado para tirar aquela SESTA. Mas não podia, pois fora convocada para  a luta.

Proparoxítonos pomposas, todas  acentuadas conforme manda a lei  se gabavam de sua sonoridade. Diziam ter recebido um presente todo especial da amiga fonética, uma sonoridade elegante.

A onomatopeia au au  latia nervosa reclamando das colegas  tic tac, ronc ronc  nhec nhec, blem blem    e seus ruídos irritantes.  Isso fez o clima ficar ainda mais tenso.

A prosopopeia queria fazer tudo criar vida e convocava  seres inanimados para a batalha, despertando neles os mais diversos sentimentos. Fez o sol brilhar corajoso, me queimando a pele,  as flores marcharem me jogando espinhos  e a chuva me derramar granizo de propósito.

A hipérbole quase explodia de inchada se achando a melhor soldada de todas. Era muito grande.   Ela se considerava a melhor e exaltava sempre suas qualidades. Repetiu mil vezes que   todas  as palavras deveriam se voltar contra mim. Morreu de rir com a minha cara de assustado,  me fez congelar de frio e chorar um mar de lágrimas.  Exageradaaaaa!

 

Num certo momento parei e fiquei observando e pensando: como eram curiosos aqueles soldados!

Alguns vocábulos combatentes me confundiam: Tinha a maçã e a maçaneta quem se pareciam um pouco, mas ao mesmo tempo eram bem diferentes e na verdade nem parentes eram. O comprimento não tinha o hábito de cumprimentar ninguém. O cavaleiro que lutava num belo cavalo branco , não era Cortez nem um pouco cavalheiro.  O Cem veio sem arma alguma. O conserto, que  saíra de um concerto de rock , se dizia fã dos beatles e Hollings Stones  e viera direto  para a batalha,  fazia reparos em sua metralhadora que produzia um sonoro ratatatá. E minha cabeça ficou tonta quando vi chegando a sessão, a cessão, o caçar e o cassar, a sela que não estava  presa em nenhuma  cela, o cinto e o sinto. Jesus Curuz!

Neologismo, um soldado jovem e animado chegou com tudo na luta e ficou reclamando do seu avô arcaísmo que quase aposentado, fora convocado também. O velho estava caindo aos pedaços, mas mesmo assim marcava presença de vez em quando.

Havia soldados idosos como o vovô e a vovó, que eram muitos parecidos, quase gêmeos,  não fosse o fato de um usar um elmo no formato de um triangulo e a outra ter um topete saliente, talvez sustentado em riste por alguma espécie de gel.

Soldados pequenos e curtos e outros longos. Olhei para um pequeno que me parecia amistoso e ele me disse: OI!  Bem no centro do campo de batalha com ar de imponente estava  o pomposo e longilíneo Sr. ANTICONSTITUCIONALISSIMAMENTE. Esse quase me faz perdeu o arquivo inteiro num acesso de raiva e no desejo de apagá-lo. Pensei até em  chamar o meu amigo estrangeiro  o simpático Sr. DELETAR para dar um jeito no empolado. 

Tropecei no  PARALELEPÍPEDO,  OSCULEI o chão, vi-me em situação DELETÉRIA aos pés de vocábulos FILAUCIOSOS, que GRAÇOLAVAM para mim. Levantei-me MODORRENTAMENTE. Estava tonto tentando NITIFICAR  a situação. Pensando que a luta ainda atingiria a QUINTESSÊNCIA.

Pensei e cheguei à conclusão de que não estava entendendo PATAVINAS da situação. 

 Alguns soldados eram  muito ativos na batalha, outros nem tanto. O hzinho de um pobre dígrafo em nada se  manifestava. Era muito calado aquele menino. Não  fazia diferença  estar ou não estar ali.  Nem esticava a perninha para alguém tropeçar. Tudo o que sabia era fazer nhem. Apenas engordava o contingente sem nenhuma serventia.

O i de um hiato estava separado da sua companheira, dizia que o relacionamento não estava dando certo  e então decidiram que seria melhor cada um ficar na sua sílaba e lutarem separadamente.  

O a preposição de uma crase por outro lado  não se  separava jamais de seu amado artigo.  Estavam sempre juntos, até pareciam um só. Olha só que coisa linda, duas vidas em uma. Mas eram lutadores ferrenhos e causavam muito estrago me obrigando a perguntar o tempo todo: vou de... Venha da... se vou... se venho...  e me bombeavam com as granadas sanguinárias da dúvida. Uma dupla cruel e que me fazia desafinar na sinfonia das letras.

Existia ali uma senhora curva que parecia estar sofrendo de algum problema na coluna. Não podia ficar de pé e se arrastava na parte de baixo das letras. E também parecia ter falta de ar porque tudo o que queria era respirar. Fazia parar o texto o tempo todo, cansada, exausta, preguiçosa, ofegante, indecisa,,,  Ziguezagueava para lá e para cá no meio da página, estava em todo canto.

 Um senhor alto, bem magro e que tinha um único  pé achatado parecia sempre admirado com tudo o que via. Estava  sempre suspirando ao  final de cada  frase. Ah mundo cruel!!!

  Outro senhor  que também gostava de fim de frase era muito curvo, seu corpo parecia uma bengala  ou o cabo de um guarda-chuvas e também tinha um pé achatado. Esse era muito  curioso e  fazia mil perguntas:  Quando acabaria a batalha? O que ia acontecer em seguida? ?bla? bla? Bla? Ele não parava de perguntar?

 

Cansada  de assinar muitos decretos referentes à batalha a elegante senhora denominada   rubrica não achava um lugar para descansar, não encontrava  assento,   porque não tinha acento.

Outro vocábulo que também encontrava-se num exaltado estado de nervos era  o senhor aço, que dizia:  -Se continuar nesse sol quente eu asso!

Sra. Etimologia elegantérrima, de traje sóbrio e distinto parecia muito ligadas as coisas tradicionais, tinha modos fidalgos e  aristocráticos e  tentava explicar que tudo tem uma origem e que era preciso entender o começo das coisas.  Era radical em alguns pontos e dizia ir à raiz das palavras. Cheia de estratégias bélicas e regras.  Porem é radical apenas em alguns pontos. Inflamada com suas explicações esclarecedoras incitava todos gritando: Vamos  à batt(u)alia.

As simpáticas senhoras Sintaxe  e morfologia chegaram para uma avaliação da situação. Eram altas, esguias, usavam grandes óculos de  aro redondo e ficavam observando tudo e classificando cada situação.  Foram logo se movimentando. Sra. Sintaxe muito metódica separava os vocábulos na linha de frente e dava a cada um uma função e exigia que todos usassem FRASES de motivação e fizessem uma ORAÇÃO antes da peleja. Coloca ordem em tudo.  Bradou de forma decidida: AVANÇAR aos soldados: sujeito, adjunto adverbial, objeto direto e indireto, complemento nominal, aposto, vocativo, predicado. Marchem. Enfim punha cada um no seu lugar, colocando ordem na bagunça. A Sra. Morfologia estava sempre preocupada com as questões de classe, era elitista sobre certos aspectos e não admitia nenhuma forma de ascensão. Cada um deveria permanecer no seu lugar. Mas ela mudava as vezes.  Dizia saber a forma correta de fazer as coisas. Era graduada em dificuldademia,  pós graduada em confundiologia e  tinha mestrado em duvismática.   Gritou mudando também seu tom de voz. Em fila: SUBSTANTIVOS, ARTIGOS, PRONOMES, VERBOS, ADJETIVOS, CONJUNÇÕES, INTERJEIÇÕES, PREPOSIÇÕES, ADVÉRBIOS E NUMERAIS. Eles responderam: sentido comandante.

Quase desmaiei quando vi aquele pessoal todo vindo em minha direção. E minha cabeça estava tonta com tudo aquilo. Levava tombos de todos eles. Derrubavam-me, me levantava e continuava a escrever, mas logo em seguida caía de novo nas valas e trincheiras da dúvida e da ignorância linguística. Errava, acertava, apagava, corrigia...

Por fim a batalha intensificou-se...

 Vi cair próximo a mim  uma bomba vinda de um substantivo muito chulo que não pretendo aqui repetir, me tonteou ao ler aquele nome próprio que era muito impróprio. 

 Logo em seguida fui atingido por granadas de  adjetivos agressivos que exaltavam meus piores defeitos.

 Um canhão marrom enorme soltava pelos ares  Locuções,  advérbios, interjeições. Nossa! Que dureza!

 Metralhadoras de herros ortográficos disparavam rajadas de letras trocadas e balas de dislexia. Não me importei muito com isso porque Herrar é umano, mas me lembrei que  perssisstir no herro é burrisse.

 Escrevi, deletei, escrevi, acionei back-space, mudei a frase. Tudo dava errado.  

Explicá-los-ei que me senti derrotado, ou vi-me derrotado por torpedos de  ênclises próclises e mesóclises que  me faziam tropeçar antes durante e depois do verbo

Kamikazes caíam. As bombas jogavam em Hiroshima e Nagasaki eram brincadeiras perto do arsenal atômico   de regras gramaticais e vocábulos atrevidos que profanavam meus dedos ao tocar os teclados e me lançavam num desolado campo de guerra com vestígios de destruição espalhados por todos os cantos. Agrediam-me, confundiam e quase me fizeram desistir.

A batalha era um texto que não conseguia interpretar.  

 Ao tentar correr pisei numa mina de cacofonias que provocaram sons horríveis ao explodir.

Estremeci da cabeça ao pé, Parecia que havia sido atingido por um pé de  cabra. Fiquei de pé, mas quase perdi o pé, e eu preciso desse pé que não é um pé de moleque, mas é doce na hora de dançar um arrasta-pé.  Na hora soprava um pé de vento.

O pleonasmo orientava alguns companheiros seus na luta. Parecia um bom estrategista e era bem lógico em seus conselhos. Dizia: precisamos prestar atenção e ver com os olhos o que está acontecendo vamos ver um panorama geral do campo de batalha, e se ele atacar de um lado nos subimos para cima e se atacar de outro descemos para baixo.   Se tiver oportunidade nos escondemos. Tem uma barraca de campanha ali adiante quando ele vier nos entramos pra dentro e quando ele for embora nós saímos pra fora. Temos que ter cuidado com as surpresas inesperadas, mas não podemos deixar de atacar, não devemos adiar para depois  principalmente quando não tivermos outra alternativa. Vamos avante pra frente turma.

Do canto direito da página, vi surgindo alguns ditongos abertos, alguns deles muito indignados com as mudanças ortográficos, se diziam injustiçados e roubados  em seus bens, já que não mais tinham seus acentos e estavam fulos da vida. Outros apenas por maldade me atacavam.  Após uma grande assembleia,  como faz a união europeia,     criaram mil pernas  como centopeias, surgiram de todos os cantos até da claraboia se arrastavam como  jiboia. De um modo heroico comandados pelo  chapéu que  nada perdeu, mas ainda assim era cruel,  queriam  me fazer de réu e me levar para o beleléu.  Clamei Deus do céu!

Correndo tropecei em alguns hifens que estavam perdidos no meio da linha. Na confusão se separaram de suas duas palavras amigas e agora estorvavam o caminho.  Chutei-os para a margem direita.

Parei sem saber o que fazer.

De tão perdido que estava perguntei: Será que acabou? A reticencia sempre misteriosa e indecifrável respondeu: Não...  Tem mais...

Desci página abaixo, mas quase caí quando o rodapé acabou e o tombo poderia ter sido fatal, então corri para cima seguindo pela margem esquerda naquela linha vermelha, uma via muito bela, parecia asfaltada  que liga os extremos do caderno  e que tem uma cor bem nítida. Cheguei ao cabeçalho, mas lá também fui atacado.  Uma trema ali esquecida chorava sua demissão e dizia desesperada. Num “agüento” esse sofrimento. Eu era tão tranquila,  o que fizeram foi um sequestro. Já não  sou mais um acento. Reforma me jogou no vento. Eu num "Güento". Corri quando vi dois pontos iguais vindo em minha direção.

Continuei correndo desesperado. Desci novamente.  Escorreguei relando  nas linhas uma a uma até o rodapé.   La fiquei pendurado na ultima linha. 

Será que sairia vivo NESSA luta acirrada? Ou Morrerei NESTA batalha? ESSE jeito de brigar fugindo é bom ou será que ESTE outro aqui enfrentando  me ajudaria mais? Pensei: MAIS eu sou  MAS forte.   Escorreguei como quem escorrega numa casca de banana,  nas conjunções adversativas.  

 O  Porquê  que era amigo intimo do senhor da bengala, me perguntou: Por que você não  desiste? Respondi: Desistir por quê? Não sei tudo mas estou aprendendo, e dia a dia ou talvez dia-a-dia me fortaleço na luta e me torno melhor porque eu acredito nisso.

Então decidi reagir e fui para cima de todos eles acompanhado de minha amiga caneta,  meu fiel   teclado, metralhadora barulhenta  e o mouse  que era meu parceiro estrangeiro na luta e se parecia com um rato.  E daí  foi porrada para todo lado. Eu caía, levantava, pulava, dava rasteiras, derrubava alguns, caía de novo... ora eu estava por cima, ora por baixo.  Enfrentei palavras, regras de acentuação, pontuação, adjetivos, substantivos, verbos, advérbios e um enorme exército.

Fui ficando tonto com tudo aquilo... Que loucura! Que peleja! Parece não acabar. Socorrooo!  Eu sozinho contra todos eles.

A batalhar parecia não ter fim. E acho que nunca terá...

Então chegou a soberana língua mãe e jogou um grande lácio prendendo-me a ela. Nesse momento desisti da batalha, aproveitei que fora laciado  por aquela linda senhora,  a abracei e dediquei-lhe  o meu amor. Afinal de contas é o meu instrumento de trabalho e me permite mil possibilidades. Essa senhora me fascina pelo  entrelaçar das letras, dos significados  e dos mundos maravilhosos que visito na companhia dela... Com esse abraço eu exalto a beleza da vida na poesia dos meus versos, eu entendo o mundo, filosofo, faço perguntas, busco respostas indago.... Me comunico. (Ou será comunico-me?) Enfim me realizo (ou realizo-me?) profundamente abraçado  a ela e sentindo o seu carinho.    Ela é  musa, alegre e triste terna e ríspida,  brava, mansa, tem a resposta para tudo  mas é mãe de todo aquele que se aventura por essa estrada maravilhosa das letras.

E ao final cansado, bem ferido e enlevado por aquele abraço consegui me levantar e percebi  que essa batalha é constante,  e que dela jamais poderei fugir. Então decidi abraçar esses inimigos e entendi que fazem parte do processo para me tornar um bom escritor. Preciso de todos eles e devo vê-los como amigos e conviver com todos de forma pacífica. Apesar de serem sujeitos complicados e cheio de regras são fundamentais para mim e tornam a minha  escrita mais bela.  Preciso lidar com eles, conhecer seus segredos e aos poucos ir dominando-os. E mais que isso, usá-los a meu favor o tempo todo. Então dessa forma mesmo com a continuidade da batalha me senti (ou...) vitorioso. 

O voo de um pássaro muito belo sobre a minha cabeça pareceu coroar minha vitória e me fez pensar: Que coisa curiosa! O voo desse pássaro ortograficamente reformado,  perdeu o chapéu (que quase perdeu algo também) mas não perdeu a asa. E voa enchendo os ares de beleza e encanto. Aves assim vêm de longe e veem de longe. Minha imaginação voou nesse momento:  Estava lá cima montado no dorso no pássaro. Podia  sentir-me flutuar nos ares, me deliciava com o ar fresco que entrava em meus pulmões, como também via abaixo  a via terrestre  e toda a magia da natureza se espalhando em cores, aromas e sabores. Nesse mundo das letras eu podia tudo, viajava por todos os mundos e era tudo o que quisesse.  Sinto a vida jorrando em meu ser e uma vontade imensa de gritar: que os versos voem que as palavras encantem,  que a flor da poesia perfume o ar, que os livros se multipliquem, que todos leiam. Que a arte a cultura a literatura sejam como esse esplendido voo, abrindo as portas da liberdade em cada ser. E considerei esta uma bela  descrição de um maravilhoso voo de um pássaro planando nos céus de um  arquivo Word.  

 A ave  segurava no bico um pequeno pedaço de papel e então pude perceber que a crônica sobre a batalha das letras, essa eterna luta, estava chegando ao fim. No papel estava escrito EPÍLOGO.

E nunca mais me esqueci daquela ave.  Seu planar pelos céus das letras sempre me incentiva a prosseguir.  E por onde vou vejo o voo. E em frente vou e voo.

Senti-me realizado, mas sabia que essa crônica tinha erros e contradições. E pensei: Que bom! Estou caminhando, me moldando, evoluindo,  isso que importa. A luta é eterna...

E pelos prados verdes e bonitos dessa nossa terra maravilhosa, esse abençoado chão brasileiro, suas cidades grandes e pequenas, seus povoados e recantos, em suas matas e jardins, em todo canto, posso sentir o perfume daquela majestosa flor, de estonteante beleza e inebriante perfume. A caçula de muitas outras flores que viajaram continentes e têm suas sementes espalhadas por aí.  Ela é esplêndida.  

 E voo na magia da palavra, sentindo o perfume da flor, divina flor,  preso sempre aos intrigantes e ao mesmo tempo maravilhosos laços do lácio.

 

Declaro terminado esse  texto cheio de erros  e para constar digito FIM.

Pitangui MG Brasil  31 de Julho  de 2020

 

  Ponto Final .

                  Assinatura 


quinta-feira, 30 de julho de 2020

Brilham sobre mim.

algumas estrelas brilham 
rondando a triste noite
um clarão em meio ao escuro
seu brilho parece açoite
e girando sobre mim 
acompanhando o trotar das horas
trazem o lume de outros tempos
de outras ilusões  outros ventos
na solidão que no quarto aflora.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Perfume promessa

A flor mais viçosa perde o viço
mesmo após no jardim fazer festa
mesmo que seu perfume seja promessa
de mil estripulias e risos

Eis que do nada  muda a flor
Secas e feias caem  as pétalas
Sentimos como costumeira  e certa
a volta triunfante da dor.

lindas novas flores virão
cumprindo seu destino colorirão
prados, campos e  jardins

o eterno ciclo do viver
mistérios do nascer e morrer
no caminhar certeiro para o fim

quinta-feira, 23 de julho de 2020

A Casa Roxa


      Abriu a porta devagar.
     A velha  folha de madeira rangiu,  provocando com seu ruído desafinado o agigantamento do medo.
   Entrou  finalmente na  casa roxa. A velha tapera abandonada considerada por muitos mal assombrada. A construção guardava mistérios em seus umbrais e provocava arrepios. Era toda  roxa, por dentro e por fora.
        Avistou  algo estranho no meio da sala. Brilhava iluminado pela  luz da lua cheia belíssima daquela noite, que entrava atrevida pela porta recém aberta.
      Criou coragem, foi ate o meio da sala e viu o monstro. Era grande, gordo, cheio de pelancas, pele enrugada, nariz pontudo, sobrancelhas grossas pouco cabelo, usava roupas fora de moda e o olhava fixamente. Pensou:  Que coisa horrível! O tenebroso  animal parecia  imitar todos os seus movimentos.

   Saiu correndo e ao virar-se derrubou o espelho que tanto o assustara. 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Visão turva

visão turva
conceitos embaralhados
sentimentos  escondidos 
precisando seren  enfrentados  
nessa roda insana 
a mesma pergunta gira 
aonde isso vai parar 
pensa até quando isso o  profanará
e quando é que a sorte vira. 


Batalhas da Noite

  O homem cansado das lutas tinha a visão turva.O cair da tarde parecia embaçar seus olhos e colocar uma névoa espessa em  todos os seus conceitos.
   Já não adiantava mais nada. Estava quase desistindo.
   A mesma batalha começava a todo crepúsculo, estendia-se noite adentro  no tenebroso silencio das madrugadas com os sons, os zumbidos e o abandono da  casa vazia até o amanhecer.
  Encolhido nas trincheiras do medo, ouvia os tiros dos pensamentos acelerados e suas mil conjecturas sanguinárias.
  Uma bazuca de ansiedade disparava para todos os lados, e bombas de efeito moral causavam depressão e desesperança.
  Era uma guerra dos ânimos  com pistolas  de melanciolia, tiros de ansiedade e canhões desprendendo enormes balas  de medo.
  Do silencio da noite, dos quintais sombria, granadas de sons inesperados,  faziam latejar e sangrar ainda mais  as feridas  abertas pela  insônia.
  E a noite era campo minado dilacerando membros  e abrindo as mais sangrentas feridas.
  A cruel batalha  acabava pela  manhã, onde apesar de ferido, sentia-se vitorioso. E  por causa disso ousava acreditar que teria flores saindo dos canhões. Mas não o que acontecia. Novas explosões e a peleja parecia eterna.
Não  sabia até quando aguentaria aquilo. Agora é noitinha e já ouvia novas explosões. 

Site oficial  Neste site,  um pouco da carreira literária de Múcio Ataide, seguindo o caminho das letras para  brindar a vida e descobrir se...