sexta-feira, 26 de agosto de 2022

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 Pensando aqui...

Ontem na entrevista do Jornal Nacional o candidato a presidente Lula disse uma coisa interessante. Nos tempos em que o debate politico  maior estava era  entre PSDB e PT, as divergências  eram mais amenas e havia um respeito maior entre os adversários. De uns tempos para cá parece que uma névoa esquisita tomou conta das pessoas e então o opositor se tornou inimigo. Se você pensa diferente de mim você é do mal.  Um se sente na obrigação de xingar  o outro por pensar diferente. O que será que aconteceu? Por que essa onda estranha de ódio tomou conta do Brasil? Um país que sempre foi símbolo de paz e harmonia... Será que é preciso xingar, humilhar os outros na defesa das nossas ideias?

 Meu imponente é meu inimigo? Existe o bom e o ruim? O lado certo e o lado errado? Somos nós contra eles? Quem somos nós e quem são eles?   Meu time é melhor que o seu? É guerra? De onde vem isso? Por que isso ocorre hoje no Brasil?  Quem está nos induzindo a esse comportamento?  E a quais interesses a indução a esse comportamento atende? Só pensando...

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

FILHO DE LATA

 Dirigia pela estrada no seu amado fuscão. Havia reformado o carro e estava muito feliz. Além da parte mecânica e elétrica totalmente em dia  a preciosidade tinha  a cor vermelha viva, rodas de liga leve em formato de cruz e alguns acessórios bem curiosos .O carango parecia mais novo que os novos e tinha muita estrada ainda para rodar.

Fazia deslizar pela rodovia o charme a elegância e o cuidado nos mínimos detalhes. Um pequeno meteoro vermelho rasgando a  noite.

  Ter um carro antigo dá um certo status  e desperta a curiosidade das pessoas. Era como uma marca registrada. Ah é aquele cara do fusção.

 E o fato de ter reformado o carro fazia com que algumas  pessoas entendessem que ali existia algo mais que um veículo, um objeto que foi adornado preparado  e cuidado com muito carinho. Dá muito trabalho reformar e também gasta-se muito dinheiro.  Era quase como um filho, um filho de lata, charmoso, bonito e diferente. Sua marca registrada na mundo.

 Tem gente que torce a cara, ah carro velho é carro velho, pode reformar que continua sendo velho. Alguns condenam o comportamento diferente e outros até esnobam Ah que coisa de pobre reformar carro. Tem que comprar o novo isso sim.

Outros apoiam, reconhecem o trabalho e o esforço despendido e aplaudem a inicitaiva. 

As opiniões divergem, mas o charme vermelho vai pela estrada levando dentro dele a alegria, a satisfação e a realização de um sonho.

Quando se decide cuidar de uma  árvore, têm-se que plantar, regar, podar, adornar com terra e adubo, cinzelar, alimentar,  para depois  vê-la florir. 

Com filhos de lata também é assim.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

SOPRAR DOS VENTOS

 É um livro que se fecha

Quando uma vida termina

O fim de uma bela  peça

No triste  baixar  da cortina

Sabedoria, sentimentos, histórias, cordão de sonhos

linda  pipa que em pleno voo vai

com o soprar dos ventos não se aguenta

A linha então  se arrebenta

E toda beleza pelos ares cai

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

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 PENSANDO AQUI...

Já começaram as fakes, os ataques e aS manifestações  de ódio  nos posts referentes à política na nova campanha eleitoral.  Que coisa bonita! Eita nós! A mesma coisa!

 Eu de minha parte pretendo fazer publicações do ponto de vista ideológico, evitando publicar qualquer noticia não confirmada,  evitando qualquer ataque pessoal ou que venha a ofender a qualquer pessoa. Não me considero dono da verdade, procuro ter  uma visão relativista, dialética e democrática sobre todos os assuntos  e nunca formulo minhas opiniões a partir do certo e do errado, mas sim a partir do que eu acho melhor ou pior, e isso depende da situação e do contexto. Não seria a verdade uma abstração que varia de acordo com a época, a cultura e uma série de fatores?  E aqueles que têm uma visão maniqueísta da realidade me parecem bem ingênuos.  Entre o certo e o errado, o alto e o baixo, o oito e o oitenta, meu time e o seu time, o meu candidato e o seu,  existe muita coisa. O buraco é mais embaixo...

Então respeito é fundamental.

Cada um publica o que quiser e eu também. Se eu vir uma postagem e concordar com ela posso até ir lá e comentar e dar o meu apoio, mas não vou entrar na postagem de ninguém para discordar nem para ofender. Acho isso de muito mau gosto e uma enorme grosseria. Coisa de quem não sabe respeitar a opinião dos outros e carrega ódio dentro de si.

Se alguém fizer algum comentário deselegante nas minhas postagens não vou responder nem rebater apenas ignorar. Quem é capaz de fazer isso não merece a mínima atenção...  

MARIO ARMÁRIO E OS ÓTARIOS.

 Mário abriu seu facebook e viu aquele comentário indelicado numa de suas postagens. O sujeito rebatia suas ideias em frases desconexas e num péssimo português. Xingou até a sua sexta geração, e o mandou para diversos lugares feios . Um show de indelicadezas acompanhadas de palavrões, erros ortográficos e barbarismos gramaticais. Que horror!. Era um daqueles!  E a final usou aquela frase conhecida que fazia seu nome rimar com a palavra armário.

 Era sempre assim, bastava colocar alguma coisa referente às suas posições políticas que logo vinha um engraçadinho para fazer aqueles comentários raivosos e infundados. Se pelo menos aquilo tivesse algum fundamento, mas nunca tinha. Era a agressão de graça, apenas à expressão do ódio e a ausência total da razão.  Aquela turminha do ódio não tinha nunca uma fundamentação lógica. Na verdade eles não sabiam nada de nada.

Mas por outro lado era capaz de entender o que estava por traz de tudo aquilo. A grande sacada, a manipulação total.  A poderosa máquina do algoritmo, a grande rede das fake-news, a manipulação total das consciências. Aqueles não passavam de robôs teleguiados, programados para atacar e criar o conteúdo, conteúdo do mal que se multiplica indefinidamente.

Mais uma vez soltou aquela gargalhada de triunfo e sentiu-se um sortudo por poder entender o processo e não cair na grande teia.

 Seguiu em frente, sem responder, sem entrar em conflito com ninguém, mas de uma coisa tinha certeza: se o post teve aquela resposta raivosa é porque foi capaz de cutucar, de provocar e fazer pensar, e era exatamente isso que ele queria. A coisa fez efeito. E se os incautos agrediram os prudentes abraçaram, então valeu a pena.

Ele pensou:  Mário está colocando os otários dentro do armário.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

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Pensando aqui... 

Hoje enquanto estava lendo percebi uma coisa interessante, enquanto eu leio focando nas palavras, na estética, na formação das frases e no som dos vocábulos eu acho a leitura chata  e as vezes até sem sentido, porém quando ao ler eu foco no sentido do texto, na trama e faço um fio de meada dos acontecimento eu entendo muito melhor e sinto que a palavra não existe de per sií, ela é escrava de algo maior, ela apenas é a condutora das ideias e dos acontecimentos. A simples mudança da maneira de se ler faz a leitura se tornar mais prazerosa e tudo fazer mais sentido...

terça-feira, 9 de agosto de 2022

PAGUEM MEUS BOLETOS

 Um dia desses fiz uma coisa que não costumo fazer. Mostrar a alguém um livro em produção, e logo aconteceu o que era previsto uma chuva de críticas e sugestões, mude o título, faça um outro desenho da capa, faça aquilo, mude daqui e dacolá.

Entendo que talvez a intenção seja ajudar, mas sinceramente me incomoda essa mania que as pessoas  têm de colocar  defeito em tudo. Talvez eu seja um pouco soberbo e desdenhe as opiniões das pessoas, mas me incomoda um pouco. Dá a impressão de que tudo o que a gente faz é errado. Estão sempre pondo defeito em tudo, nas nossas roupas, ou na maneira de nos vestirmos, na nossa casa, nos nossos hábitos.

Criticas e fofocas, o momento em que a vida do outro se torna mais importante que a nossa.  Incrível  a dificuldade que algumas pessoas têm de cuidar da própria vida. Um dia li uma matéria que dizia que quem comenta da vida dos outros está deixando a sua de lado, como se no momento da fofoca dobrasse a própria vida a colocasse no bolso e fosse cuidar da do outro. E durante o  tempo que perdem com isso poderiam estar cuidando de coisas importantes para si,  exercendo alguma atividade que lhes trouxesse benefícios, crescendo evoluindo, resolvendo seus próprios problemas, apenas perdem tempo porque não mudam a sua vida nem a vida do outro enquanto comentam. Resumindo um tempo perdido.

Parece que estão sempre dispostos a invadir nosso espaço e nossa privacidade. Como alguém que invade o quintal do vizinho para afanar algo e nesse caso afanam o sossego a tranquilidade e semeiam por lá ódios e desavenças.

Privacidade, essa palavra parecia desconhecida por muitas pessoas. Se soubessem entende-la tudo seria muito fácil.  Mas acredito que essas atitudes venham sempre de pessoas fúteis que estão por aí por aí, que vivem sem um propósito parasitando, assim como os parasitas invadem nosso corpo e fazem estragos por lá elas também fazem seus estragos e devem ser eliminadas de nossas vidas assim como os parasitas, eliminados  para todo o sempre.

Talvez seja o ponteiro do desconfiômetro que esteja estragado.  Um defeito que acontece muito. Talvez a vida deles esteja sem graça e a minha mais interessante. Curioso que essa pessoa nunca escreveu um livro e não entende nada do mercado literário para dar palpites.

  Queria ver alguém dizer:  - Olha só seus boletos já chegaram gosto muito de você, vou pagar todos eles! Tai uma invasão de privacidade que eu aprovo totalmente.

Que todos cuidem de sua própria vida.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

LIVRE

 Sempre tem o livro. E essa ideia paira o tempo todo em minha mente.

 Sempre tem o livro E  é para lá que eu vou.

Tem doenças, mas tem o livro, tem mortes, mas tem o livro. Tem dissabores e aborrecimentos, mas estes se dissipam nas páginas.  Madrugadas insones turbinadas de pensamentos catastróficos, porém existe  o livro, para amanhã de manhã, ou para agora mesmo. Tem o livro para compensar, para tapar os buracos. Livro catarse, livro refúgio, porto,  amparo, abrigo, âncora.

Mundos e enfeites, adornos e deleites...  

Livro onde se bebe as palavras, sua beleza, seu encantamento e suas infinitas possibilidades. 

Universo repleto de magias,  onde me banho da mais pura poesia,  onde se busca significados e se entra em tramas e enredos. Onde desfilam  as mais diversas emoções, onde se  chora, se ri,  se vive outra vida  e se é transportado para Roma, para Nova Iorque, para o século passado, para milhões de mundos e  eras. Eras, és, e sempre serás, livro um grande achado, um tesouro, uma referência. Um tudo.

Não importa o estilo, nem a capa, se de terror, mistério, suspense, hot ou amor, clássico ou atual, se é do tipo que consideram  alta ou baixa literatura (que bobagem), não importa nada, apenas essa mistura de letras na tela ou no papel, esse cheiro de papel novo ou mofado, esse deslumbrante tom sépia,  a consistência  e a união das folhas num só propósito: unidas seremos um, nada importa apenas o prazer  do mergulho, do voo e do êxtase.

Ai de mim se não fosse ele, talvez estivesse na sarjeta, talvez todo o sentido da existência houvesse me fugido das mãos. Sempre existe ele, sempre posso me voltar para ele. Ele sempre me espera com braços abertos e um sorriso envolvente,  e sempre me oferece    um leque imenso de possibilidades. Ele é esse profusão de sempres...

La me embrenho por loucas viagens, delírios aceitos,  uma mentira melhor que a verdade. Um mundo falso muito melhor que o verdadeiro.  A total ausência de limites e o poder da liberdade.

Não existe nada igual.

Parafraseando Silas Fonseca,   Não me livro, não me livrarei, e assim livro sempre ficarei.

 Livre só o livro. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

EXTREMOS

 Dois extremos

Sempre estamos entre dois

Que se anelam, se rebelam

Eles se tocam, se reprimem

Ora se juntam, ora se separam

Duas pontas, dois lados

Amor e ódio

bem e mal 

Graça e pecado

Rude e terno

esquerda direita 

Céu e inferno

Ânimo, desânimo

aclive declive 

Efêmero e eterno

Um pensamento

Apenas um pensamento

Faz o humor virar mau humor.

A chave que vira

E do nada

A cabeça sóbria pira.

Duas pontas

Distantes e tão próximas

A alegria a um passo da tristeza

Sem o bonito não existe o feio

O alto nada é sem o baixo

Sem acelerador para que freio?

Dialética, paradoxo

Explicações que nada explicam

Navegamos entre dois mares

Em ondas que vão e vêm...

 

quinta-feira, 28 de julho de 2022

TORVELINHO

 A vida tem cores

Espinhos flores

Opostos e vizinhos

 

deliciosos odores

fétidos bolores

 Água e vinho

 

Pode trazer  dores

Ódios e  amores

Confuso torvelinho

 

Regozijos e  horrores

Vivendo entre valores

Diversos nos caminhos

sábado, 23 de julho de 2022

IR ALÉM

 Ninguem imagina

o que se passa aqui

as voltas que essa cabeça dá

as ideias e as maquinações

nem os absurdos que faço

levado pela mão 

conduzido pela mão

dessa louca chamada imaginação

Ririam com certeza 

Mas o que se há de fazer

se a fantasia faz armadilhas

me faz de presa 

vontade de viver

sonhos que não se contêm

desejo de ir além 

não sei explicar

as explosões de loucuras

nessa longa louca e eterna procura

de vida, vida em plenitude, vida além

dos conceitos valores e convenções

que fazer se sou assim 

talvez seja assim até o fim 

quarta-feira, 20 de julho de 2022

QUINTAIS DE SEMPRE

 Assim como Manoel

Eu também vasculho os quintais

Os meus quintais.

Os quintais de sempre

Cato os tesouros por lá  deixados.

De short, de  chinelas havaianas

Tento eu refazer o caminho

Ser o menino sem destino

Cavando tesouros do chão.

Da terra fofa, vermelha.

Me sujando  todo

Me penduro nos cipós da mata do Tarzan

Voo sem asas e sem nenhum mecanismo

Giro uma lata vazia de goiabada nas mãos

É o volante do meu fusquinha

Faço da tampa da caneta uma nave espacial

E de um objeto quadrado qualquer o manche

Ainda vejo os aviões passarem baixinho por aqui.

Faz de conta que ainda tem pé de manga.

Faz de conta que o cachorro ainda está lá

Ainda sinto o sabor da jabuticaba

E as vezes espeto o dedo no “manacaru”

Vejo minha  mãe cantando lá da cozinha

Enquanto lava os pratos.

Meu pai ainda faz meus brinquedos agachado a um canto.

Oh quantos castelos tenho por aqui!

Um sitio encantado,  um reino lá de muito longe

Bruxos e fadas, heróis e vilões.

Tesouros, tesouros tesouros...

Quanta vida esondida brota nas terras desses quintais!  

Não, o tempo não levou

Não carregou aquele menino.

Ele ainda está por lá

E brinca de viver e sonha

E canta, e faz estripulias.

Mas hoje por tudo isso

Para manter tudo isso.

Faz a melhor de todas as brincadeiras

Para melhor sentir e melhor ver

Para ser eternamente criança

E abraçar em plenitude o viver.

Ele LÊ.

***

terça-feira, 19 de julho de 2022

LER É BOM, MAS NÃO É FÁCIL NÃO.

 Chegou à livraria e  começou a olhar as prateleiras encantada com tudo que via.  Ana Lívia era a leitura em pessoa.  Bastava olhar para ela andando igual a um zumbi em meios aos livros para perceber seu fascínio por aquele mundo.  Pegava um livro, olhava a capa, lia a sinopse, queria comprar, perguntava o preço e então desanimava. Olhava outro e o mesmo ritual se repetia.

Depois de algum tempo foi até uma prateleira dos livros antigos de literatura brasileira e conseguiu enfim achar um mais em conta.

A vontade era parar um caminhão ali na frente da loja e levar tudo. Aquele lugar parecia um castelo encantado. Um lugar mágico com milhões de mundos mágicos, aventuras, ensinamentos. Enfim era para ela um pedacinho do céu na terra.

A leitura  é algo bom, prazeroso traz conhecimento cultura, amplia a mente, nos fazer viajar por diversos mundos  e todos sabemos de suas inúmeras vantagens , mas é uma estrada às vezes tortuosa. Além do preço que está sempre fora do orçamento da gente,  o livro exige  atividade mental, raciocínio, achar o tempo para ler, aceitar ser prisioneiro das tramas e até sofrer junto com os personagens. Mas é algo maravilhoso.

Depois observou que existia num canto uma placa com os dizeres:

“PÁSSAROS TEM ASAS, HOMENS TEM LIVROS”.

Achou a frase inspiradora, mas ficou abismada com dois grosseiros  erros gramaticais  numa  frase escrita em uma livraria.  Torceu o rosto e seguiu em frente.

Logo em seguida  Ana resolveu resolver um antigo problema das leituras. A ideia surgiu naquele momento e veio como um maravilhoso insight. Foi até o setor de papelaria e começou um diálogo inusitado com a balconista.

-Moça, boa tarde.

-boa tarde

-Eu queria  clip.

-Ah desculpe  não temos aquele suporte para fazer vídeos.  

-Não espera, não é nada disso. Eu não estou falando de vídeo clipe. Eu falo de clips de papel

-Feitos de papel?

-Não. Os clipes não são feitos de papel. Papel não é a matéria prima. São usados no papel.

-De qual tipo a senhora quer.

-Na verdade eu quero clipes de plásticos. Eu quero para marcar livros, mas não quero daqueles que marcam livros.

-Deixa eu entender melhor. A senhora quer marcar ou não marcar? Que marque ou que não marque?

-Assim, eu quero marcar o livro quando estiver lendo, mas é bom que o clips  não marque o livro.

-Eu confesso que estou confusa.

Ana então começou a vasculhar sua mente tentando encontrar as palavras. Olhou em volta e os livros a inspiraram. Afinal através deles conseguimos nos comunicar melhor com as pessoas. Então mergulhou nas lembranças de  antigas leituras, trouxe o poder da palavra, a força do raciocínio e o bom ordenamento das ideias e sentiu-se segura para explicar.

-Eu quero uma caixa de clips, esses pequenos objetos que servem para prender as folhas, vou usá-los para marcar nos livros o ponto em que estou nas minhas leituras. Quero-os de plásticos porque assim eles não vão estragar os livros. Quero marcar os livros no sentido de determinar meu ponto na leitura e não quero marcar no sentido de estragar ou danificá-los. Entendeu?

-Sim. Mas infelizmente não temos. Temos clips apenas de metal.

-E esses marcam bastante né?

-Uai, a senhora não queria marcar?

-Deixa isso para lá,  eu vou anotar o número da página num caderninho.

-Tchau.

-Tchau.

LER É BOM, MAS NÃO  É  FACIL NÃO.

 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

SINFONIA

E a maravilhosa sintonia persistia noite à fora. Com certeza era ouvida pelos  vizinhos e por quem mais passasse ali por perto.

Sinfonia da madrugada, notas soltas no ar que se prolongavam por longo tempo. Eu diria até por uma temporada inteira.

O regente era o inverno. Os instrumentos o pulmão e as cordas vocais, os músicos os ácaros. No baixo estava a rouquidão. Nos sopros as partículas de ar. Na percussão o bater do coração. Nas cordas a rinite, no solo a sinusite. Nas partituras notas graves e agudas  em melodias ora rápidas ora lentas. Título da obra: A 9ª sinfonia da alergia.

E a melodia o eterno cof cof da tosse.

***

quinta-feira, 14 de julho de 2022

TERRA FOFA

 Desequilibrou-se um pouco quando pisou naquela parte fofa da terra, ao lado da porteira. Sentiu uma fisgada e percebeu que havia torcido o tornozelo quando afundou o pé. Sentou-se num pequeno barranco ao lado da estrada e lamentou sua sorte.  Agora deveria ir para festa com o pé machucado. Ficou triste porque assim não poderia dançar e aproveitar a famosa fogueira de santo Antônio na fazenda Santa Tereza.

Todo ano Antônio dos santos, o famoso Antônio Pirica, sertanejo valente e amansador de burro bravo visitava aquele lugar. Adorava as festas de  fogueira e se divertia bastante. Morava só numa pequena tapera e sua vida era um pouco sem graça. Não existia muita diversão por ali, então quando chegava o mês de junho e a época das fogueiras era motivo de grande animação. Ia a todas e aquela da Santa Tereza era a mais famosa. Vinha gente de longe para os festejos.

Levantou-se devagar maldizendo a vida. –Que droga!Qual foi o idiota que fez esse buraco aqui perto da porteira? Só para a gente machucar. Agora nada de dança. A festa acabou para mim.

Apesar das mil pragas proferidas entrou na fazenda e aproximou-se do local da festa. Já estava começando.

A bandeira  de santo Antônio estava colocado sobre a mesa da sala e o dono da casa já começava a puxar o terço. Antônio procurou logo uma cadeira num cantinho do terreiro, pois  o pé latejava e precisava descansá-lo. Tentou concentrar-se na reza e esquecer o triste ocorrido. Prosseguiu-se assim uma profusão de Ave Marias e Padre Nossos. Havia gente, na sala, na cozinha no terreiro, todos contritos e orantes, mas pensando na fogueira e nas coisas que viriam depois.

Logo após o terço o dono da casa pegou o maestro e todos o acompanharam. A procissão seguiu pelo quintal, deu a volta por trás de dois pés de manga e se dirigiu para o local onde seria erguido o mastro. Antônio seguia devagar, mancando,  tentando não pisar forte no chão.

Olhou para o lado e viu algo que por alguns momentos amenizou sua dor. Uma caboclinha morena, vestida com os trajes típicos das festas juninas, um vestido de chita, com alguns remendos, laço de fita num cabelo com longas tranças, algumas pintinhas na cara. E uma graciosidade que o prendeu na primeira olhada. A moça olhava para ele  e sorria de forma encantadora. Sentiu-se logo atraído por ela.

 Ele queria continuar acompanhando  a procissão, mas o pé doía muito então voltou para junto da casa sentou-se a um canto  e ficou apenas  observando.

A procissão seguia com as rezas serpenteando pelo quintal.

Escolheu um lugar onde puder observar a moça e a partir daquele momento ela tornou-se a estrela da festa. A fogueira que acendeu seu coração. De vez em quanto seus olhares se cruzavam e sentia-se muito feliz por causa disso. Nesses momentos até esquecia as dores do pé.

Depois de algum tempo tudo mudou e no lugar da reza veio a alegre cantoria.  A tradicional cantiga do não bambeia não, já dava um novo clima àquele encontro, uma aura mais profana invadiu o ambiente e a sisudez foi aos poucos sendo substituída pela alegria e irreverência.

Sob as notas alegres da mesma canção a bandeira foi colocada no longo pedaço de bambu que estava ali no chão do terreiro esperando sua vez de brilhar. O bambu, que tinha o garboso codinome de mastro foi levantado e sua base colocada sobre um buraco na terra. Logo em seguido cobriram de terra fofa o que restou do buraco em volta do mastro.  A turma animou-se ainda mais quando o mastro foi erguido. A velha cantina aumentou de volume e os versos engraçados se multiplicaram. Começaram a socar a terra com pedaços de paus para firmar o mastro e o povo continuava cantando:

 

Depois foi uma festa só. Os fogos de artifício riscavam o céu, adicionado a ele algumas  estrelas e fazendo a noite ainda mais bela.

Bombinhas, rojões, balões pelo céu, trouxeram ao ambiente uma profusão de ruídos e cores num maravilhoso festival de belezas e encantamento.

Ouviu-se um ruído agudo, como se um foguete passasse em alta velocidade no meio do povo, era o que se chama de castelo, alguém acendeu um rojão e esse, em alta velocidade, acendeu vários outros, por onde passou deixou um rastro de explosão e de luz. Tudo encadeado.  Seu trajeto culminou na fogueira acendendo-a, e  ofertando  aos visitantes um grande espetáculo de cores e sons. Logo em seguida o céu se iluminou ainda mais, mais uma coleção de estrelas iluminando a linda noite. Uma cascata de luz caía sobre o terreiro. E a noite ficava cada vez mais quente pelo fogo e pela animação do povo.

Depois começou o arrasta pé. Sanfoneiros e violeiros espalhados pelo terreirão batido animavam a festa enquanto a turma dançava um delicioso forró.

As peneiras com biscoitos, pipoca e outras iguarias típicas das festas passavam para lá para cá.

A canjica e o quentão eram os parceiros da fogueira na dura missão de esquentar a noite de junho.

A festa animada e Antônio um pouco emburrado no canto. Queria dançar, brincar, conversar mais com as pessoas, mas aquela dor no pé não permitia. Maldita hora em que foi pisar naquela terra fofa.

O único consolo era olhar para aquela moça bonita que também não tirava os olhos dele. Seus olhos eram dois pedacinhos de ouro, dois pequeninos favos de mel, que brilhavam mais que a fogueira e esquentam seu ânimo.

Percebeu que ela se afastou um pouco e foi atrás. Era sua oportunidade para ficar a sós com a bela garota e conversar com ela.

Foi mancando até o outro lado do terreiro onde ela estava sentada em um banco de toco. Aproximou-se devagar para não assustá-la.

-Boa noite. Algum problema moça. Você está sentindo mal? Notei que deixou a festa de repente.

-Boa noite. Não é isso, é que me deu vontade de  sair um pouco do tumulto e olhar um pouco para o céu. Olha como a noite bonita!

-Sim, uma linda e fria noite de junho. Com uma bela lua cheia clareando os caminhos, as estradas, e fazendo com que a noite  pareça dia. A misteriosa e exuberante senhora das noites que paira sobre os prados e campinas. Solitária dama que vai espalhando beleza e encanto por onde passa. E as estrelas que se perdem no infinito são pequenos diamantes raros. Só não são mais belos que os seus olhos.

-Vejo que o senhor é um poeta e sabe falar coisas bonitas.

-Sua beleza me inspira... mas estamos conversando e eu ainda não sei seu nome

-Muito prazer eu me chamo Rita, mas todos me chamam por aqui de Ritinha.

-Prazer, eu sou Antônio.

-Eu notei durante a festa que o senhor estava mancando. O que aconteceu?

-Ah foi um acidente. Quando chegava por aqui pisei numa terra fofa do lado da porteira.  E torci meu tornozelo.

A moça deu uma pequena risadinha e falou de forma muito graciosa

-Bem, eu posso ajudá-lo. Tenho ali em casa um preparado com arnica e alguns outros ingredientes que são ótimos para esse tipo de contusão.

-Eu ficaria muito grato.

Ela então foi até a casa onde morava, trouxe o preparado, pediu a ele que tirasse a bota e com todo o carinho esfregou o liquido na região contundida, fazendo uma leve, e ousada massagem.

Depois ficou movimentando o pé dele torcendo e puxando enquanto o rapaz sentia ao mesmo tempo dor e prazer.

E o resto da noite foi só alegria. Conversa, dança e encantamento. Alguns são fisgados pelo coração, outros pelo pé.

Ritinha sentiu o sonho desabrochar em suas mãos quando ele prometeu voltar ali no dia seguinte para visitá-la.

Aquele estava fisgado e fisgado pelo pé.

 Nascia ali a promessa de uma vida nova e feliz.

 

No outro dia bem a moça toda sorridente foi até a porteira levando consigo uma pequena pá. Cavou a terra fofa e desenterrou o pobre do santo Antônio. Limpou a terra que estava sobre a imagem a abraçou, um abraço forte que significou ao mesmo tempo um pedido de perdão e um agradecimento. Colocou a terra no lugar, pôs uma pedra em cima para que ninguém mais se machucasse. Isso já não era mais necessário. E voltou para casa abraçadinha com o santo.

Salva Santo Antônio o Santo casamenteiro.

 

 

quarta-feira, 13 de julho de 2022

PRISIONEIROS

Olhou em volta e viu as fortes grades. Não podia sair, estava enredado naquele lugar. Uma pequena sela apertada, claustrofóbica, muito assustadora.

O ar lhe faltava!

Olhou mais além e viu a forca. Numa fração de segundos viu aquele amontoado de cordas vindo para cima dele. O nó estava ali em seu pescoço e alguém estava apertando.  Estava sendo sufocado, quase não conseguia mais respirar.

Olhou em outro  canto e viu um torno. De repente sua cabeça estava presa a ele e novamente sentiu aperto. Alguém girava aquela roda e a cabeça foi sendo comprimida pelas duas partes da ferramenta. Pressão na cabeça que quase fazia os miolos saírem pelo ouvido.

De repente todo o corpo estava sendo apertado. E os ossos esmagados. 

Ficou zomzo. Quase perdeu os sentidos.

Era submetido a mais cruel das torturas.

Agitou-se desesperou-se, se debateu. Seus olhos ficaram molhados, suas roupas também. Sentiu que estava com febre. Começou a tossir sem parar, talvez essa fosse uma forma de expelir de dentro de si todo aquele horror. Sentiu as piores sensações. Quase morreu naquele instante.

Depois acalmou-se.

Olhou em volta e percebeu que o cenário terrível era apenas o seu quarto . Os terrores, os sintomas de uma falsa  covid.

 Prisioneiro da mente e seus cenários fantasmagóricos, todos somos.  

terça-feira, 12 de julho de 2022

FOICE CRUEL.

 Morte, dama que  assusta

sorrateira e hábil gata 

do nada ela dá o bote 

vem, toma,  arrebata

Já dizia Suassuna

como rebanhos de um redil 

estamos todos caminhando

passo a passo  andando

rumo à sua foice cruel e vil. 




quarta-feira, 29 de junho de 2022

TUM

 Tum  e tum

Tá e tum

Baixo e alto

Desce e sobe

método infalível

expurga e orna

à verdade torna 

Tum tum

Tudo azul

Na cabeça no peito

Novo jeito

Norte e sul

Tum e tum

Rio dos curiosos

kkkk

Hahahaha

O que será?

 

terça-feira, 28 de junho de 2022

RUÍDOS

 A vida tem ruídos

vozes asperas

agudas ou graves

atuantes demais

cortam os ares

tiram a paz

e o sossego záz...

prolixos decibeis

irritam da cabeça aos pés. 

sons... sons... sons...

irritates ruidos

dificeis de suportar 

desesperadores sons

giz se arrastanto na lousa 

violão desafinado 

 agulha de vitrola  suja

bagaço de cana rangindo no dente 

isopor na parede

rádio em mal sintonia

desesperadoras

insuportáveis cacofonias 

A eles sou nada propenso

inimigos do silêncio

ruidos...

Site oficial  Neste site,  um pouco da carreira literária de Múcio Ataide, seguindo o caminho das letras para  brindar a vida e descobrir se...