DESEJO A VOCÊ UM FELIZ E ABENÇOADO NATAL.
E UM 2023 REPLETO DE REALIZAÇÕES E CHEIO DE COISAS BOAS.
ABRAÇOS!
MÚCIO ATAIDE
M. A. PRODUÇÕES.
E o ingrato do Ricardinho reclamava do pai, enquanto os dois andavam pela rua. Reclamava do carrinho que havia ganhado. Naquela época um carrinho de fricção era um grande presente de natal, mas o enjoadinho queria outro modelo, então xingava o pai e resmungava pela rua. O pai disse que na loja não havia nenhum modelo do outro para que pudesse trocar e ele não tinha dinheiro para comprar um novo. Então o menino teria que se conformar com aquele mesmo.
Quando passavam em frente a uma a uma praça o menino parou e ficou olhando para uma cena curiosa: um
menino mendigo recebia do pai naquele momento um carrinho feito de madeira, não
era um produto artesanal bem trabalhado, eram madeiras pregadas, sobrepostas,
algo que para ser chamado de tosco teria que evoluir bastante. O mendigo pai
arrumou algumas madeiras e pregos e com um martelo improvisado sobrepôs as pequenas
tábuas, dando àquele objeto um formato que muito longe lembrava um carro. Mas o menino não queria nem saber de nada,
estava muito feliz com o seu presente. Então os dois curiosos se aproximaram mais para ouvir o que o mendiguinho falava:
-Papai eu te amo, e muito
obrigado por ter me dado esse brinquedo. Esse carrinho é o mais lindo que eu já
vi.
-Não filho, isso é só uma coisa
que o papai fez para você com todo amor. Tem carrinhos muito mais bonitos. Quem
sabe um dia o papai possa dar a você um daqueles bonitos carrinhos de fricção. Mas
por enquanto tem que se conformar com esse mesmo.
-Eu adorei papai, e sei que o
senhor fez para mim com todo o amor.
-Pode ter certeza disso. A madeira
achei por aí. Os pregos foram difíceis de encontrar e o martelo foi uma pedra. Mas
foi com muito amor sim.
Então Ricardinho, o ingrato
enjoadinho, ouvindo aquilo abraçou fortemente o pai e agradeceu pelo seu belo
carrinho de fricção. Os dois ficaram ali por algum abraçando e chorando,
brincando de amor e de gratidão. O menino entendeu o quanto era abençoado e
percebeu a besteira de se ficar resmungando por aí. Depois de dizer um eu te
amo ao pai, foi brincar feliz com aquele carrinho que antes era indesejado e depois tornou-se bem-vindo , porque tudo depende do jeito de se olhar.
E aquele menino hoje tem uma
pequena fábrica de brinquedos artesanais. E na época do natal sai por ai
distribuindo. São brinquedos simples, mais sofisticados que aquele do menino
mendigo, sem a tecnologia do carrinho de
fricção, mas que deixa muita criança feliz. Apesar da tecnologia dos dias hoje
brinquedos assim ainda fascinam quem nada tem. Felicidade multiplicada por que um dia um pai
fez um carrinho com amor e a semente do amor se multiplica e se transforma numa
bela árvore com doces frutos.
O que é a morte? Que força é essa que nos joga ao chão? O maior de todos os mistérios? Quem morre vira santo? A morte cria qualidades nas pessoas? Porque exaltamos coisas e acontecimentos que minutos antes do falecimento não tinham a menor importância para nós? Será que a falsidade que nos rodeia, a exaltação do ego que nos faz aproveitar esse momento para pavonearmo-nos com belos discursos vazios? Perguntas... perguntas...
É difícil responder a qualquer
pergunta referente à morte. Pois ela, essa abominável senhora da foice é a mais enigmática de todas as damas. Ela é a
personificação do mistério. A guardadora
zelosa dos maiores segredos. Os segredos do lado de lá. Só através do seu
abraço conheceremos o lado de lá. E o lado de lá enquanto estamos do lado de cá
existe apenas na nossa imaginação.
Ninguém sabe nada. Mistério total. É o motivo de inúmeras indagações e de uma enorme lista de
perguntas feitas pela humanidade ao
longo de toda a sua existência. Nosso
encontro com ela está marcado, sabemos que vai acontecer, mas fugimos de suas
garras de todas as formas possíveis. Por isso as perguntas acima como todas as
demais relacionadas a essa cruel ceifadora são difíceis de responder, mas vou divagar
um pouco sobre isso.
Não acredito que ninguém vire
santo porque faleceu. Não é isso que acontece. Acredito que a morte da forma mais contraditória possível
vem despertar, fazer renascer em nos a vida da alma, morta pelas contingências
da vida. E tal qual um farol nos faz acordar de um sono letárgico e alienante.
Percebemos coisas, descobrimos coisas que pensávamos não saber, mas sabemos.
Entendemos a brevidade da existência e salientamos as qualidades daquela
pessoa. Qualidades existentes, não criadas. Ela toca lá no fundo e nos faz lembrar a
importância de se dar importância aos momentos simples do dia a dia e a
valorizar tudo o que temos. Quem já não vou ouviu em um velório cochichos e lamentos sobre a
constatação da pequenez da nossa existência. Por todos os cantos pode-se ouvi as frases: –Não valemos nada. Vamos aproveitar o hoje, Valorizar
o que temos. E coisas assim...
Recuperamos naquele momento valores esquecidos e ignorados. Muitas pessoas
após perderem um ente querido se voltam para a família. Passam a conviver
melhor com os que ficaram e mudam seu comportamento. Outros passam a cuidar
mais da saúde. E outros infelizmente não resistem ao choque direto com a
efemeridade e desmontam na mais profunda depressão.
Mas a cruel ceifadora é capaz de
fazer o tempo voltar. Como num passe de
mágica a dama da foice nos mostra o quanto cada momento foi importante e o
quanto gostávamos daquela pessoa. Ela nos toma pela mão e nos leva até aquele festivo
almoço de domingo ouvindo o burburinho,
os risos alegres, as brincadeiras. Também nos conduz até aquelas cenas perdidas na infância com todo o
seu encanto. Faz-nos sentir de novo a quentura do colo, a suavidade do carinho,
a doçura do beijo, a ternura do olhar. Com um sorriso sarcástico a mulher da
foice nos conta que gostávamos muito do cheiro daquela pessoa, do estilo dela,
da forma de se vestir, do temperamento, de todas as suas qualidades e até mesmo
dos defeitos. Põe outra vez diante de nós
a beleza viva daquele semblante, os movimentos, o jeito único de ser. Ela puxa
a cadeira e nos faz sentar na varanda e ouvir de novo aquele timbre único e
inigualável de voz. E ouvir aquele bordão de estimação, aquela história contada,
esquecida e repetida, repetida... Faz-nos ver
quanto aquele gesto e aquela atitude
eram importantes para nós. E de novo, levados pelas suas mãos
esqueléticas lá estamos naquele aniversário,
naquele natal de luz, na festa do ano novo ,no almoço de domingo na casa da vovó, no passeio à praia...curtindo
aquela pessoa e vendo o quanto de vida transbordou sem percebermos. Conta-nos até que gostávamos sem saber daquele
tique nervoso, daquela mania estranha, daquele jeito de falar ou daquelas
atitudes. Então tudo era importante? Faz-nos ver que existia muita vida onde
pensávamos existir apenas o dia a dia.
Não elas não criaram qualidades após a morte,
apenas nos lembramos de que elas existiram.
A morte vem nos acordar. É o despertador que nos acorda da nossa
letargia, da nossa pequenez diante da importância da vida, dos momentos vividos
e da pessoa que se foi. Ela nos mostra caminhos e nos faz ver que apesar de
efêmera e pequena (Contradição pura. Paradoxo total.) a vida é grande e deve
ser vivida de forma plena com outro olhar, com a valorização de todos os pequenos
momentos do existir, com a exaltação do que melhor existe em quem está do nosso
lado na caminhada.
Mas é assim que a coisa funciona. Responder as
perguntas sobre ela jamais conseguiremos, fugir do corte afiado de sua foice, de
forma alguma, mas viver de verdade enquanto ela não vem podemos tentar.
Ouso dizer que a morte é vida e
ensina a viver e penso nas toneladas de contradições existentes nessa frase.
Veja a todos como se fossem defuntos.
Meu Deus que coisa estranha de se dizer? Nem acredito que escrevi isso, mas o
raciocínio é. Olhe para o vivo com o
mesmo olhar. Olhe para quem está do seu lado e pense: como eu viria essa pessoa
aqui do meu lado, o que ela seria para mim se ela não mais estivesse aqui? Ela está.
Amar mais, tocar mais, sentir
mais, olhar mais em volta, a vida acontece agora. Viver de verdade. A
morte ensina
Zilda hasteou grande bandeira verde amarela em frente à sua janela. Queria torcer pelo Brasil na copa
Ficou com medo que alguém achasse que aquela bandeira tinha outro significado.
Pessoas criam símbolos e símbolos podem ser usados para o bem e para o mal. Símbolos podem ser roubados dos seus verdadeiros detentores e usados para diversos interesses. Bandeira. Qual bandeira você hasteia? Qual norteia você? De que cores são? O que defendem? Qual o define? O que é a bandeira da sua vida?
A bandeira do Brasil é de todos os brasileiros, nosso símbolo, símbolo do gigante, do brado retumbando, daquele que não foge à luta. Do impávido colosso, e isso não é pouco. Pátria amada Brasil no céu de anil. Não a roubem, não a manchem, não a envergonhem. Terra de paz, de amor, de alegria, de solidariedade, não de ódio de rancor. É o pavilhão maravilhoso dessa nação também maravilhosa . Não é símbolo do ódio, nem dos privilégios. Não é símbolo de poucos, mas de todos nós.
Zilda recolheu a bandeira da janela, pediu a um amigo pintor que escrevesse uma frase com letras bem grandes na parte verde de baixo:
É PRA COPA.
E o gigante tremulou na janela.
Sentimos, simplesmente sentimos e muitas vezes não podemos explicar. As coisas aqui por dentro são confusas, indecifráveis, pois somos uma célula apenas do grande mistério que ronda, do plasma de incógnitas que cobre todo o existir. E como uma fruta inacessível lá no alto do galho a explicação para muitas sensações não é alcançada. E ficamos sem poder provar o delicioso sabor da verdade. Ela Foge tal qual areia fina pelos vãos dos dedos.
Como diz aquele povo “lá das Minas Gerais, no sabpassado”, eu estava ouvindo músicas pelo youtube e me encantei como uma. É fato conhecido que sou admirador de música sertaneja, caipira e raiz e uso hoje os recursos tecnológicos para espelhar o meu smartphone a uma caixa de som, amplificando assim o prazer da sonoridade dos belos duetos e das deliciosas melodias do passado. Coisas de quem está na flor da idosidade! E por acaso tocou a música Anahí. E foi exatamente aí que tudo começou. A música é lindíssima, uma versão de uma música paraguaia, vinda de uma época em que as versões do espanhol. (castellano) para o português eram comuns no Brasil. Uma enxurrada de guarânias, rancheiras, polcas, boleros e diversos ritmos latinos invadiram o nosso país. Músicas bem duetadas, com um tom de paixão e melancolia na voz. Para embalar os corações apaixonados e fazer o caboclo gritar: desce mais uma. “Eita que é paixão pra mais de metro”. Mas além das apaixonadas tinham as hsitórias emocionantes e ternas. Coisas que duplas como Castanha e Inhana souberam fazer muito bem.
Admirei a canção. Viajei na melodia. A doçura e a sonoridade dos harpejos, o ecoo pelos ares das notas daquele dueto tão perfeito, me conduziram pelos caminhos da emoção enquanto ouvia.
Tratava-se de uma belíssima lenda. Uma história indígena sabe-se lá quantos séculos girou até chegar a nós. Conta a historia de uma jovem guerreira que vai defender sua tribo, é aprisionada e levada até a fogueira, quando as chamas a estão queimando a jovem se transforma numa linda flor. Os inimigos fogem assustados e os pássaros cantam comemorando o milagre da flor , da flor de Anahi.
Não sei se foi por causa da belíssima melodia, do doce e suave dueto, da beleza da lenda, ou de algo mais, mas viajei para outras eras naquele momento. A canção parecia despertar em mim toda uma coisa brasileira, latina, tupi guarani, sei lá... Parece que foi lá no amago, na parte mais profunda do meu ser e arrancou de lá a emoção escondida, perdida nos mistérios da existência. Tenho a impressão de que aquilo transcendeu, ultrapassou minha vida e foi buscar coisas de outras eras antes de mim. Talvez tenha visitado meu avô ou bisavô. Sei não. Mas algo além de humano e além da minha época foi despertado aqui dentro durante aquela canção. A ancestralidade, a miscigenação, os valores escondidos passados de pai para filho... A poesia acorrentada, a beleza envergonhada, ou talvez não seja nada disso, somente a imaginação criando coisas. Mas foi um êxtase, um momento divino e poderia usar palavras e mais palavras, mas as palavras são poucas, não alcançam a emoção, não alcançam esse lado escondido e misterioso que existe dentro da gente. Senti, e foi algo incrível.
Fiz um curso de parapsicologia com o grande padre Quevedo (tratando de assuntos que ecxistem) e ele defendia a ideia de que temos uma memória genética e podemos carregar a memória das sensações vividas por nossos antepassados. Quem sabe não foi isso que aconteceu. Vai ver despertei uma memoria de algum antepassado meu, que viveu numa tribo ou que esteve em volta de uma fogueira numa noite clara de inverno sob os raios de um belo luar, ouvindo histórias belíssimas como as de Anahi. .. Minha vó pela sua aparência poderia até ser descendente de índios. Vai ver até algum ancestral meu foi índio também e acreditava na lenda como verdade incontestável. Viva a glândula pineal que segundo se diz é aquela responsável pela espiritualidade, transcendência e coisas do gênero. Vai ver foi apenas ela, a química do corpo me enganando... Vai ver... quem sabe... talvez... cogitações, possiblidades ...mistérios...
As lendas fazem parte dessa estrada que transito, que todos nós escritores, poetas gostamos tanto de transitar. A estrada dos sonhos, do que é belo e mágico. E que importa se não é verdade cientifica e comprovada? É uma verdade do sentir, é o que acalenta nossa alma e faz a vida ser muito mais bonita.
Foi um momento de prazer e beleza que quero se repita muitas vezes. Extraindo aí dos milagres da eletrônica, da modernidade dos inventos humanos os tesouros de eras bem distantes.
A emoção, não sei explicar, mas quero sempre sentir em minha vida o perfume dessa flor e desse mundo que estava escondido dentro de mim e que Anahí veio perfumar Que a flor de Anahi exale o perfume sobre a gente, o perfume da beleza, da sensibilidade e da magia. E que venha se contrapôs a essa realidade dura, rotineira, exaurida de beleza, que suas pétalas coloram um pouco esse mundo cartesiano, lógico, murcho e sem graça, Pois é a função da arte, da poesia, das lendas e coisas do gênero povoar o mundo de lindas inutilidade como dizia Manoel de Barros. Porque a vida é pequena, a vida é pouca, não basta e precisa dessa outra realidade. Desse mundo além.
Que nunca deixemos silenciar dentro de nós esses divinos acordes harpeados pelas mãos da imaginação e da sensibilidade.
Anahiiii
Um ar de eternidade
Lá a vida tem alto preço
Infância é a morada
De todos os começos
É a poesia do andar lento
E do sentir cada passo
É o brincar de viver
Não à obrigação e dever
Alegria ocupando todos os espaços
Rolando se foi, foi rolando a poesia, voando nas notas e versos, acho que foi tocando uma bela viola e cantando um modão lá para a terra dos que viajam fora do combinado.
Foi
ele a viola rumo a Deus, esperando encontrar o amor. O amor que ele plantou com
a sua arte.
Chegando
por lá deverá hastear a bandeira do Brasil bem na entrada. Depois vai proseando,
se entrosando e fazendo amizade. Cantando e contando causos. Vai ficar feliz ao encontrar velhos amigos. Vai
atuar na peça do Ariano. Com certeza compor um samba com Adoniram. Dar aquela
gargalhada com Dominguinhos. Uma prosa muito gostosa com o Dito Preto lembrando
os tempos de São Joaquim. Pontear com Tião Carreiro. Quando encontrar o Tinoco
vai ouvir em alto e bom som: -Que Beleza! Se esbaldar numa roda de samba com
Cartola e Jamelão. Fazer escada de novo num show do Mazzaropi. Duetar com
Inhana. Ouvir imitações de Nho Totico. Chupar uma laranja madura na companhia
de Ataulfo. Cantar e prosear com Gonzaguinha, Gal, Vander
Lee, Vinícius, e tantos outros.
Pedir a
benção a todos os grandes que já passaram por aqui e continuar por lá a ser o
Sr. Brasil.
O
Brasil fica triste com essa partida, mas fica descoberto, fora da gaveta e sem
medo de se mostrar, de se expor, por
obra dele ergue a cabeça e não se dobra subserviente a ninguém. Descobriu seu
valor e a imensidão de sua arte.
E
concluímos que no verso e reverso da sua
vida inteira espalhou belas sementes e que ruminando causos, contando
história e cantando as coisas do Brasil dá
pra ser feliz.
A
arte e a cultura brasileira perdem muito com essa viagem.
***
As
manhãs de domingos
Agora
são assim
Alegres
por lá, tristes por aqui
A benção Rolando Boldrin!
O cristo continua la*
Uma pedra inerte
No alto da serra
Com a cidade faz flerte
Eu continuo aqui
Com as minhas indagações
Assustado com o tempo
Com seu trotar nada lento.
Descendo sobre mim as mutações
* Ler o texto "Lá ele não desce", publicação nesse blog, o poema é como se fosse a continuação do texto.
Para de Minas 12 de novembro de 2022
Autoria Múcio Ataide
Passei pela praça e vi aquele
homem tomando cerveja sentando em um banco. Um fato corriqueiro, já vi pessoas tomando cerveja em vários
lugares, nos bares, nas praias, andando pelas ruas com a lata na mão, nada
diferente, então o que chamou a minha atenção? Por que eu achei que ele não
podia estar ali tomando a cerveja? A
pergunta não demorou a ter uma resposta: aquele era um mendigo que há algum
tempo havia me pedido uma esmola na rua. Tinha
certo impedimento físico que segundo ele o impedia de trabalhar. E o mancebo usava o dinheiro ganho para beber.
Num primeiro momento senti-me
indignado com aquilo e até mesmo enganado. Uma vozinha maldosa disse bem lá no
funda da minha mente. – Então esse malandro me enganou, pediu esmola, e eu
pensando que era para comprar comida. Agora está ali bebendo. Não está certo
isso. O certo seria ele comprar comida. Comprar o essencial para o seu sustento.
Mas logo depois outra voz falou.
– Eu chego à minha casa, posso abrir aquela lata de cerveja que está na
geladeira e tomar quando eu bem quiser, sem que ninguém julgue o meu momento de
prazer. Eu posso, ele não. E porque eu posso? Porque eu tenho um pouco mais.
Então a realidade caiu como uma
pedra em cima de mim. Quem tem mais, tem mais direito. Aquele homem tem menos
que eu, e um pouquinho só a menos, então ele tem menos direito, eu o julgo por
isso. Eu o julgo porque ele está fazendo algo que eu gosto de fazer. Eu o julgo
por me achar de certa forma superior a ele.
Então é assim? Ser pobre não é
apenas não ter o que comer? É não ter o direito a muitas coisas, é não ter direito
a se deliciar com uma boa cerveja. É viver apenas para o que é básico?
Aquele homem que ali está, pobre
mendigo, doente, impossibilitado de trabalhar vivendo de esmolas está fadado a
não ter prazer, a sepultar sua vida antes da morte. Qual o sentido existe nisso?
Eu tenho apenas um pouco mais que
ele, sou pobre, classe baixa, trabalhador, assalariado e posso tomar cerveja,
mas ele que tem menos, um pouco a menos, não pode.
Mas o sistema é injusto não
apenas para criar necessidade, mas sim para criar a estratificação e
classificar as pessoas em classes e categorias. E deles extrai dinheiro e direito.
A primeira análise empírica, do
homem comum, é cruel julga e aponta o dedo para condenar. A segunda, do
cientista social entende, compreende que a coisa vai muito além. Muitas questões
estão ali dentro daquela lata, que ele sorve com tanta alegria, parecendo ser a
coisa mais gostosa do mundo.
Vi uma lógica no meu julgamento e
ao mesmo tempo vi uma grande injustiça nele. Percebi como as coisas são
perversas e como tudo está calcado em cima da estratificação. Quem pode fazer isso
ou aquilo? A quem é dado esse ou aquele privilégio? Tem mais pode mais, tem menos pode menos? Não
é apenas ter o dinheiro para comprar, mas é o direito de realizar. Pois ele tem
o dinheiro, ganhou pedindo, não roubando, mas não dou a ele o direito de fazer
o que quiser com o dinheiro que é dele.
Soberba, pura soberba. E por
causa disso o meu dedo apontou para ele e logo o execrou pelo ato que pratico
com a maior naturalidade sem que ninguém me aponte o dedo. Vejam só o tamanho
do abismo que o sistema cria. O enorme buraco que existe entre uma existência e
outra.
O primeiro raciocínio simples e
empírico faz sentido, é o que todos pensam, mas o segundo vem mostrar o tamanho
das injustiças, a calamidade da perda simples de um direito. Pobre só pode comer
tal qual um animal vive apenas para as coisas básicas e elementares, não nasceu
para os prazeres e delícias , está fadado a carregar sua existência miserável e
sem graça até o fim dos seus dias. A mendigar pelo básico, viver pelo básico, uma
vida básica e sofrida.
E assim segue até que a vida
diga: - Chega, já sofreu demais. A cerveja é só para os privilegiados iguais ao
Múcio, quem tem um pouco mais que você, só para os que têm mais, mesmo que seja
só um pouquinho mais. Para eles, sim é permitido o prazer, o gozo e as alegrias
da vida. Para você não. Bem feito! Quem mandou ser pobre sem nada? Quem mandou
não conseguir emprego, quem mandou ser doente e não poder trabalhar? Coisas da
sorte, do destino, culpa sua, somente sua. Direito a menos para você, prazeres a menos
para você. O Múcio pode, ele sim, tem direito. Você não. Agora é sua hora de
ir. Libere o banco da praça para outros mendigos, outros mais dignos que gastem
o dinheiro da esmola com comida e não com prazeres a que não têm direito.
Sai dali pensando sobre essas
duas visões. A simples e a sociológica e nenhuma delas resolveu o problema do
mendigo que continuou lá saboreando a cerveja, parecendo bem feliz. Um hiato
para suas dores e seus dramas.
-Saúde amigo!
Deixa a chuva cair
Que ela faz muito bem
Deixa a chuva cair
Que a paz cai também
Brinda com sua doce poesia
Em contas de gotas desfia seu rosário
Vem saudar nossa alegria
Derrame serenidade nesse dia
Do nosso encontro literário
Vamos esperar para ver o que vai acontecer
Bolsonaro disse que fecharia o STE se não tivesse 60% dos
votos, então vamos esperar para ver se ele vai mesmo fazer isso. Se tem coragem
para tanto.
Algumas pessoas disseram que se Lula ganhasse sairiam do
Brasil. Vamos ver se vão mesmo embora, e aguardar a alegre despedida.
Será que ao final dos quatro anos nossa bandeira será
vermelha? Sai o verde e amarelo azul e branco e entra o vermelho?
Vamos ter banheiro unissex nos lugares públicos?
Todas as igrejas evangélicas estarão fechadas?
O Brasil será uma Venezuela? Uma cuba? Um país comunista?
Como estaremos?
Curioso para ver o que vai acontecer.
Você que acompanha esse blog me lembre dessa postagem.
Talk?
Pedro era esforçado e trabalhador. E gostava de sonhar. Às vezes exagerava um pouco na utopia.
Saía todas as manhãs para a dura
lida. E sempre alimentava o sonho de ter uma grande fortuna. Tudo seria pelo
seu mérito. Afinal de contas havia lido sobre isso e também assistia a vídeos
motivacionais que levantavam aquela bandeira: Bastava ter fé, acreditar,
trabalhar e pronto, seria rico. Tudo dependia dele. Teria e seria o que
quisesse.
Tudo muito simples... bastava
trabalhar com afinco e vencer.
Viu numa revista que um dos ricaços
mais pobres do país tinha uma fortuna de R$ 30.000.000,00. Fez os cálculos...
bastava apenas conseguir um emprego melhor e ao invés do seu salário mínimo,
ganhar R$ 50.000,00 por mês e trabalhar durante 50 anos, sem ter nenhum gasto,
guardando toda a bufunfa para alcançar essa fortuna. Fácil e simples. Só dedicar-se.
Viva a meritocracia.
Enquanto os foguetes e fogos de artifícios pipocavam no céu causando estrondos e assustando os cachorros, carlos chorava. Naquele momento se lembrava da mãe que se fora.
Dia de Nossa Senhora aparecida. Dia de saudade e de
lembranças...
A fé no coração, o
terço na mão, o barulho da explosão e o pavor do nunca mais. A fórmula eficaz
na produção de uma importante substância curativa, a lágrima.
Explode também no ar a saudade. Espalha-se pelos céus da
alma num magistral colorido de luzes, se multiplicando em raios de vida e de
lembranças. E faz um barulho mais forte
que o dos foguetes e bombas.
Viva Nossa Senhora, viva nossa vida, vivida e revivida
nesses loucos, belos e tristes estrondos da existência.
Quando sol poente pinta o horizonte
ah como é bonito vê-lo!
rajas de beleza da tarde
em amarelo e em vermelho
Mas também vem a tristeza
se imiscuir na emoção
os extremos que se beijam
sentimentos que porejam
tardinha, triste e bela contradição
O rim que ficou me perguntou:
-Cadê meu irmãozinho?
Eu disse:
-Evoluiu, subiu na vida e foi morar numa casa bem mais bonita!
***
Um rim vindo do coração .
A cirurgia aconteceu, cirurgia de transplante, eu doei um rim para minha irmã Ana, e foi com muito gosto e isso me deixou muito feliz.
Aproveite bem seu novo brinquedinho Ana. Te amo.
Quando o mar da vida balança
é preciso ser marujo forte
segurar firme no leme
e encontrar então o norte
E navegar por muitos mares
enfrentar a procela e seu brado anarco
entre a prudência e os avanços
entre maré brava ou mar manso
saber conduzir muito bem o barco
Pensando aqui...
Ontem eu estava assistindo a um
vídeo do candidato Felipe D’Avila, um liberal de mão cheia, e como todo
liberal levanta bem alta a bandeira da privatização. Só espero que não agrida
ninguém na cabeça com essa bandeira, pois já temos uma historia assim, mas
deixa para lá. Continuando, ele defendia
com aquela mesma prosa de que a economia devia correr livre sem intervenção
nenhuma do estado porque o estado é incompetente para gerir e aquela conversa
toda.
Daí eu fico pensando:
As empresas estatais dão prejuízo
por isso precisam privatizar. Mas se elas dão prejuízos por que a inciativa
privada se interessa por elas? Por que
podem dar lucro. Não seria o caso do
estado gerir bem essas empesas? Já sei o que vão dizer: o estado é
incompetente, tem gastos demais, cabides de empregos, as estatais são elefantes
grandes, cheias de mordomias e roubalheira e bla bla bla , alias esse elefante
me divertia bastante nas propagandas do tempo do Fernando Henrique, porque era a declaração da
incompetência do governo, mas enfim é isso que vão falar. Tudo bem vamos
privatizar para dar lucro, assim vamos receber o dinheiro da privatização que
será revertido para a nação e em beneficio do povo e teremos o imposto do lucro
dessas empregas para aquecer nossa economia.
Mas se o estado é incapaz de gerir uma empresas públicas,
ele será capaz de usar bem o dinheiro da privatização e de usar em benefício do
povo? E de reverter para a população o dinheiro
dos impostos advindo delas?
Resumindo no final, perdemos as
empresas, a iniciativa privada vai ganhar dinheiro com algo que era nosso e
vamos continuar na mesma, pois a corrupção que pode ser feita nas estatais pode
ser feita também com o dinheiro que os
amados empresários tão patriotas e amigos do Brasil vão nos oferecer com a sua
bondade ao pagarem os impostos dos seus lucros absurdos.
O mesmo governo que não presta
para gerir estatal vai prestar para gerir o dinheiro advindo da venda e do
imposto delas? De repente tudo vai ser diferente? Será que a cobra perde o
dente?
Talvez a coisa tenha uma lógica,
pois se o dinheiro vem da privatização, não pode ficar nos cofres públicos, mas
deve ir para os bolsos privados. Privado
com privado. E os interesses do povo vão para a privada.
Não seria o papo de catireiro? Queremos as empresas para nós, e
para convencê-los criamos algumas justificativo e uma pequeinina visão
do paraíso. Basta dizer que isso será em benefício do povo e que tudo serão flores... Vai que cola!
O candidato dizia que com a
privatização as empresas terão lucro. Acredito que o lucro surgirá e
a riqueza virá Mas lucro para quem?
No final o povo so perde. É a
mesma coisa do lucro exorbitando do agro negocio, parabéns que maravilhoa mas o lucro é nosso? É do povo? Produz-se tanto alimento e o povo passando fome. Qual o sentido disso?
Qual a lógica do avanço, da
riqueza de um pais se o povo, o trabalhador que verdadeiramente constrói essa
riqueza não usufrui dela? Que avanço é esse? Que sentido isso faz?
Sobre esse assunto tenho algumas
dúvidas:
Dia desses um defensor da privatização amigo
meu me disse que está se preparando bastante para um concurso publico. Uai! Por
quê?
E quanto a preço, será que
venderão essas empresas por um preço justo?
A situação do país melhorou de
verdade depois das privatizações?
Aquela bela cidade histórica mineira continua tão bela quanto antes?
Cadê o dinheiro das outras privatizações? Cadê o imposto revertido?
O serviço após a privatização será melhor ou pior?
Por que tanta gente reclama da situação das estradas e do valor dos pedágios?
O que foi feito com o dinheiro das outras
privatizações?
Ah eu adoro os porquês, eles são libertadores...
Só pensando...
Pensando aqui...
Ontem na entrevista do Jornal
Nacional o candidato a presidente Lula disse uma coisa interessante. Nos tempos
em que o debate politico maior estava
era entre PSDB e PT, as divergências eram mais amenas e havia um respeito maior
entre os adversários. De uns tempos para cá parece que uma névoa esquisita
tomou conta das pessoas e então o opositor se tornou inimigo. Se você pensa
diferente de mim você é do mal. Um se
sente na obrigação de xingar o outro por
pensar diferente. O que será que aconteceu? Por que essa onda estranha de ódio
tomou conta do Brasil? Um país que sempre foi símbolo de paz e harmonia... Será
que é preciso xingar, humilhar os outros na defesa das nossas ideias?
Meu imponente é meu inimigo? Existe o bom e o
ruim? O lado certo e o lado errado? Somos nós contra eles? Quem somos nós e
quem são eles? Meu time é melhor que o seu? É guerra? De onde
vem isso? Por que isso ocorre hoje no Brasil? Quem está nos induzindo a esse comportamento? E a quais interesses a indução a esse comportamento
atende? Só pensando...
Dirigia pela estrada no seu amado fuscão. Havia reformado o carro e estava muito feliz. Além da parte mecânica e elétrica totalmente em dia a preciosidade tinha a cor vermelha viva, rodas de liga leve em formato de cruz e alguns acessórios bem curiosos .O carango parecia mais novo que os novos e tinha muita estrada ainda para rodar.
Fazia deslizar pela rodovia o charme a elegância e o cuidado
nos mínimos detalhes. Um pequeno meteoro vermelho rasgando a noite.
Ter um carro antigo dá um certo status e desperta a curiosidade das pessoas. Era como
uma marca registrada. Ah é aquele cara do fusção.
E o fato de ter
reformado o carro fazia com que algumas pessoas entendessem que ali existia algo mais
que um veículo, um objeto que foi adornado preparado e cuidado com muito carinho. Dá muito
trabalho reformar e também gasta-se muito dinheiro. Era quase como um filho, um filho de lata,
charmoso, bonito e diferente. Sua marca registrada na mundo.
Tem gente que torce a cara, ah carro velho é carro velho, pode reformar que continua sendo velho. Alguns condenam o comportamento diferente e outros até esnobam Ah que coisa de pobre reformar carro. Tem que comprar o novo isso sim.
Outros apoiam, reconhecem o trabalho e o esforço despendido e aplaudem a inicitaiva.
As opiniões divergem, mas o charme vermelho vai pela estrada
levando dentro dele a alegria, a satisfação e a realização de um sonho.
Quando se decide cuidar de uma árvore, têm-se que plantar, regar, podar, adornar com terra e adubo, cinzelar, alimentar, para depois vê-la florir.
Com filhos de lata também é assim.
Site oficial Neste site, um pouco da carreira literária de Múcio Ataide, seguindo o caminho das letras para brindar a vida e descobrir se...