terça-feira, 21 de março de 2023

MANU



 Hoje é o dia do animal de estimação, então vou falar um pouco de Manu, A Manuela Ferreira, Manuela  Magrela, a minha filha bichológica, minha “massacote”, amiguinha de farras aqui na solidão dessa casa. Eu e ela sempre juntos. Manu foi encontrada por minha irmã, abandonada em uma estradinha, quando viu parar o carro, pulou no colo de minha irmã então não teve jeito. Depois minha mana a deixou de herança para mim quando mudou para a casa nova onde não podia ter cachorro.  No começo eu não queria, mas jamais seria capaz de deixa-la na rua ou doá-la a alguém então acabei adotando-a. Não sei quem adotou quem. Quando ela chegou aqui após ser resgatada na estrada tratou de aprontar. Já nos primeiros momentos mostrou a que veio, rasgou a cortina da pia, deixando-a  em farrapos,  pendurou-se na cortina da janela e ficou lá balançado para lá e para cá o corpinho de filhote na maior farra. Foi até o banheiro e pegou a papel higiênico com a boca e saiu desenrolando-o pela casa a fora, embaraçou-se nele, tropeçou, caiu, ficou aquela maçaroca só ela e o papel.  Roeu o pé de todos os móveis, quebrou  coisas, derrubou a árvore de natal. Alguns meninos da rua a  chamavam de a cachorra ninja, tamanha a sua habilidade para  pular o portão, passar entre as grades  e fugir para rua. Aprontou o que podia e não podia.

Fazia dupla com o poodle Sammy e eu chamava a dupla de Piriguete e perigoso. Depois o perigoso teve uma doença perigosa e se foi. E ela continuou por aí.

Comia todas as baratas, grilos, calangos,  matava qualquer bichinho que encontrasse e já passou aperto em muitos gatos por aqui.

Depois de um atropelamento aquietou-se e hoje tem muito juízo, é  já uma senhorinha  de temperamento  dócil, educadinha e uma grande amiga. Se dobra toda para receber carinho e deita para que eu lhe  coce a barriga.

Teve vários filhos que estão perdidos por aí

Continua comilona. 

Converso muito com ela batemos altos papos e nos entendemos bem.  E vamos juntos

E só quem em bicho de estimação sabe como essa relação  de amizade é gostosa e gratificante. Espero que essa molequinha, essa menina peralta continue por aqui ainda por muitos anos. Terá sempre o meu amor e os meus cuidados.

Afinal eu sou o seu humano de estimação.

 

sexta-feira, 17 de março de 2023

COLHA

 O sol  nasce 

avermelhando o céu devagar 

a esperança acena

a alegria encena 

outro dia que vem 

nos  saudar

com novas oportunidades

um leque de sensações 

um turbilhão de pensamento e sentimentos

mesclando alegria e dor 

odio e amor. 

Um novo dia é um novo universo

que se descortina ante nossos olhos

com o frescor vermelho da aurora

o espetaculo do renascer 

traz todas as possiblidades

que uma nova vida pode ter

colha o dia, diz aquele antigo lema

com tudo o que ele tem. 

colha o dia...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

TRECHOS DO LIVRO NOITE DE ECLIPSE

Quem era aquele homem? O que trazia em suas mãos? 

...Estava envolvido por uma gigantesca onda de grandeza e ao mesmo tempo de pequenez. Eu me sentia extremamente pequeno diante de tudo aquilo, mas sentia a grandeza desse mosaico de milagres, do qual eu faço parte e do qual sou uma parte ínfima.

A grandiosidade das potestades do céu, os elementos se misturando num show de rara beleza, a majestade dos astros e sistemas celestes... Por sentir tão de perto tudo isso, eu me percebi extremamente pequeno diante dessa magnitude. Sou um ínfimo observador, uma poeirinha cósmica insignificante. E o que tem além de todas essas estrelas e de todo esse brilho? Se muitas dessas estrelas que vejo já morreram, estou vendo algo que aconteceu a milhões de anos luz. A velocidade da luz é tão intensa, que traz até mim, uma imagem do passado. Vejo estrelas que já morreram. Estou vendo algo que não existe mais. Uma mentira, uma ilusão, ou a certeza da minha própria pequenez.

Minha câmera transportou-me pelo espaço e, parafraseando Camões, vi mares nunca dantes navegados.  Voei, na magia e voltei, concentrei-me no nosso sistema, sistema solar. Penetrei em seus labirintos, formado pelos seus planetas e vi satélites e milhares de asteroides e cometas, tudo bem de perto. Não era apenas a lente, mas eu estava lá. Viajava pelo espaço. Vi cores e rajadas de fogo pelo ar. Vi o sol que me traz em todas as manhãs, o seu calor aconchegante. O mesmo sol que enxuga o orvalho das plantas e espalha vida por onde passa. Vi os planetas bem de perto, girando igual num carrossel diante do sol e me espantei por pensar que não caem! É incrível, mas não caem! Fazem parte de um bailado muito especial dos céus, e dançam num ritmo perfeito. Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, com seus inúmeros satélites naturais, asteroides, cometas, meteoritos...  Senti até mesmo a textura da poeira interplanetária.

Onde começa e termina tudo isso? Até onde vai aquele enorme vão, sustentado por nada e ao mesmo tempo sustentando tudo?

 

***

A luz bruxuleante ia ganhando forma e aumentando gradativamente. Os pássaros da manhã acordavam e passavam em bando sobre a janela. Os galos cantavam e conversavam cantando, um respondendo ao outro. O escuro ia cedendo lugar a plantas e outras coisas mais que então, eram impossíveis de serem vistas. A luz chegava aos pouquinhos, ia fazendo a vida despertar numa metamorfose estonteante. Os primeiros raios do sol doíam em meus olhos, mas traziam a luz e o calor. Tudo ia mudando, tudo ganhando cor e vida. O dia chegou e estava novamente me oferecendo um enorme espetáculo. A natureza mestra fazia sua obra como sempre, com um primor indescritível. Laborava seus feitos com extremo esmero e perfeição.

Voei para longe, vi mil belezas além daquele horizonte vermelho. Beleza na flor, na folha, no pássaro, no verde na mata. E a câmera como sempre foi além, me aproximou de um ninho onde vi filhotes de pássaros sendo alimentados por sua mãe

***

Sem dizer nada segui meu caminho. Dei alguns passos, olhei para o céu e a vi. Lá estava ela, a enorme bola vermelha navegando na imensidão. Derramava beleza e magia.  Mais uma vez me extasiava com a magnitude e a perfeição desse universo sem fim.  Lua de sangue, dos mistérios e dos encantos. Tudo fazia sentido, pois, aquela era uma  NOITE DE ECLÍPSE.

 

Voltei para casa, fui até meu pequeno bar, peguei uma dose de uísque, sorvi suavemente o líquido, sentei-me em frente ao computador, liguei a máquina, abri um arquivo do Microsoft Word, soltei uma gargalhada de contentamento e comecei a digitar a frase:

 

Hoje eu estou aqui escrevendo sobre algo extraordinário que me aconteceu...

SER E SABER

 Ouvindo a música meus tempos de criança, aquela da professorinha a, famosa composição de Ataulfo Alves com a célebre frase; eu era feliz e não sabia fiquei pensando.

A imaginação e o sonho invadem e colorem  as lembranças e tudo no passado parece mágico, mas não é bem assim,  não temos saudade do que passou, temos saudade  do que deveria ter sido, ou do que deveriamos ter valorizado.  Entre o que senti e o que sinto há um enorme abismo. 

 Hoje vemos de forma glamourosa os acontecimentos da vida, tudo era belo, gostoso prazeroso. Mentira naquela época já existia a rotina. Reclamávamos  de muitas coisas e o que hoje é visto como algo encantado era visto à época como alguma coisa comum e corriqueira.

Eu tenho saudade do tempo da escola, dos colegas, das provas... Eu amava tudo isso?  Mentira. Reclamava de ter que estudar, ficava tenso na hora das provas e queria que aquela época hoje vista como tão mágica acabasse logo. Quantas vezes eu disse: não vejo a hora de me formar e sair dessa escola.   Naquela escola eu amo o que deveria ter amado

A minha lembrança mente para mim. A imaginação transforma as coisas. Eu queria ter sentido aquele apreço pela época passada, mas não sentia. Queria ter valorizado cada momento ali vivido. Queria ter sido o sonhador das lembranças de hoje, vendo vida brotar em  cada canto e achando tudo maravilhoso, mas não foi assim, tudo era rotina, trabalho e obrigação. 

A alegria estava escondida num canto qualquer tal qual um cobra enrodilhada esperando para  dar o bote quando o futuro chegasse. 

A frase era feliz e não sabia faz sentido, realmente não valorizávamos o tempo,  mas por que não ser feliz e saber? O hoje é apenas um tempo da vida assim como o passado. Será que o destino determinou assim: antigamente tudo era bom e hoje é tudo ruim? Isso não faz sentido.  Cada epoca tem seus encantos e tudo o que vivemos de uma forma ou de outra marca. Porque não valorizar o hoje com as coisas do hoje, com a mesma magia com que vemos o passado? 

Pode ter certeza você terá saudade do hoje, que acha sem graça da mesma forma que tem saudade desse passado que também achava sem graça.

Daqui há algum tempo vou me lembrar do dia  em que escrevia esse texto nesse blog. Do celular dessa epoca com as coisas que gosto de ler nele. dos inventos top de linha hoje que amanhã serão obsoletos. Dos papos com algumas pessoas que hoje acho sem graça, das pessoas que estão aqui e não mais estarão. As coisas sem graça do hoje serão maravilhosas no amanhã. 

Não não quero esperar, não preciso, esperar é jogar a vida fora. So tenho o hoje só ele é verdadeiro. O ontem se foi, so o  tenho nas lembranças deturpadas pela imaginação, o amanhã pode ser que nem venha. Dele nada sei. So o hoje está em minhas mãos. 

 A velha história de que só se dá valor quando se perde.

A vida acontece no agora.

Seja feliz hoje e  esteja consciente disso.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

QUEM AÍ PODE PREVER O FUTURO E FAZER MÁGICA?

Você pode? você que está lendo isso pode prever?  E pode fazer mágica?

Temos alguns videntes espalhados por aí. O que não  falta é vidente nos dias de hoje. Vidente e mágico. Isso aqui até parece um grande circo. 

Exemplo. Alguém diz:

Lula vai fechar as igrejas. Fizeram uma previsão. Daí alguém lê, e pensa: Que malandro vai fechar as igrejas! Que absurdo! Falta de respeito com a  religião do outro! Só pode ser mesmo do capeta! Sabia que ele não prestava, comunista sem vergonha. E então o odeiam por isso. E ele passa a ser o inimigo porque vai fechar as igrejas. Justo, se vai fazer uma coisa dessas tem que ser odiado mesmo.

Mas se esquecem de uma coisa: o verbo está no futuro, "vai fazer", ainda não fez, a pessoa julgou e condenou alguém por algo que ele não fez. Justo isso?

Elas compram a ilusão e não percebem. A mentira está no tempo do verbo. A mentira está na cara, nítida, qualquer um pode ver, basta pensar um pouco. Aquilo não existe. Ele não fez aquilo. Ele é odiado pelo que não fez.

A pessoa compra a ilusão se deixa iludir, se entrega à mentira e vê a mentira como verdade.

É como se dissessem:   O Múcio pode matar alguém amanhã, pode praticar um assalto, então vamos prendê-lo hoje e condená-lo. Múcio safado assaltante e assassino.  Odeio esse cara. O odeio porque ele vai fazer isso, Mau caráter, crápula. Nossa quantos  elogios! 

 É  a mesma coisa do mágico que faz um truque bem à sua frente, você não percebe a  enganação e acredita que o mágico tem poderes sobrenaturais.  Em 1980 David Cooperfield fez desaparecer a estátua da liberdade diante das tvs do mundo inteiro. Um bruxo, um feiticeiro? Não, apenas alguém que sabe manipular a ilusão e fazer a gente acreditar no que ele quer que acreditemos.

Tão claro, tão evidente! E cria-se a imagem negativa de uma pessoa, um ódio geral por algo que não existe,  que ela não fez. Mágica pura!

A ilusão manipulando as cabeças, conduzindo o pensamento e criando um exército de robôs que apenas obedecem, não aprenderam a pensar.

Também inventariam muitas coisas assim sobre Bolsonaro.  E sobre muitos outros. A indústria da mentira é muito lucrativa.

Já repararam como a maior parte dessas noticias vêm com o verbo no futuro: vai fechar igreja, vai reduzir a alíquota do imposto de renda, vai aumentar o valor do auxilio reclusão, vai fazer isso vai fazer aquilo. Futuro, futuro. São mesmo videntes,

E o autor de tais notícias tomou doril,  sumiu, ninguém sabe ninguém viu.

Os observadores e inteligentes perceberam a enganação, entenderam o truque e conjugaram corretamente o verbo. O futuro é só o futuro, uma possiblidade, pode ou não acontecer. Os bem informados pesquisaram e viram que aquilo não tinha o menor  fundamento. Os desinformados, desatentos,  e as peças fáceis no jogo manipulatório das fakes-news caíram igual patinhos, leram acreditaram, odiaram  e divulgaram.  E têm certeza!  KKKk. Dá zero para eles.

Mágicos e videntes, a ilusão dos dias de hoje. 

Um circo chamado Brasil, ou seria planeta Terra?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

SIGA E PARE

 A vida é um passeio de carro. Tem sempre dois lados. Você planeja o trajeto, sabe as ruas pelas quais vai passar, onde é mão ou contramão, sabe até os prédios que vai ver, mas sempre tem surpresas no meio do caminho. Pode ser que haja um desvio e você tenha que seguir por outra rua.  O sinal pode fechar, ou não. Pode aparecer do nada uma motocicleta envenenada  à sua frente e você tenha que  frear de forma brusca. Talvez tenha que parar na faixa de pedestre, talvez não. Mil coisas podem acontecer no trajeto planejado e você vai ter que se adaptar

Tem momentos que é preciso acelerar, em outros, frear, às vezes tem-se que parar completamente. Talvez tenha que usar uma marcha mais forte, ou mais fraca.  Ora vira-se para a esquerda, ora para a direita. 

Previsibilidade, perícia, malícia, prudência, ousadia... Tudo vai depender do momento, da situação e da destreza do bom motorista. 

Uma parte planejada, a outra adaptada, uma parte fixa a outra móvel. O previsível e o imprevisível se abraçam.

Esse trânsito do viver  às vezes é  caótico, as vezes tranquilo.

Sabia planejar os caminhos, saiba se adaptar aos imprevistos.

Pare e siga, siga e pare...

Siga o versinho... Depois dele eu estaciono o texto.  

Boa viagem!

 

“Vida transito

Ameno, abjeto

Parte planejada

Parte improvisada

Trajeto “

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

É VERDADE?

 LULA VAI FECHAR AS IGREJAS

PREVISÃO

E eis que alguém leu e acreditou e já o condena por isso. Que Absurdo! O que  não percebem é que o verbo  está no futuro. Vai fechar. Mas não fechou.  Ainda vai acontecer? Não aconteceu, não existe a culpa. É julgado e condenado pelo vai fazer.  É justo isso? Pode ser que faça ou não. É futuro, não é verdade. A mentira é clara. É como se alguém dissesse o Múcio vai cometer um crime amanhã, vamos prendê-lo hoje. Aí entra na lógica do Dallagnol sem provas, só convicção.  Manipulação clara. Sem lógica.  Sem pesquisar ou entender muita gente embarca.  É muita ingenuidade quem cai nessa!

 

PREVISÃO DO PASSADO

LULA VAI FAZER O IMPOSTO DE RENDA CAIR NO SALÁRIO E MEIO.

 Previsão para o passado porque o IR é entra na lei a anualidade,  sempre é decidido para o ano seguinte, portanto o imposto deste ano foi decidido pelo Congresso  pelo governo Bolsonaro. O governo Lula e a legislatura atual  vão  determinar o do ano que vem. KKKK. Que bobagem você que compartilhou isso deu heim?  Nossa que vergonha!

 

AUMENTO DO AUXILIO RECLUSÃO para 1.700,00

Aí está a contradição. Pessoas postando isso para se posicionar contra o auxilio . O valor do auxílio é o salário mínimo , o 1700,00 é o teto de renda familiar exigido para se ter o direito. Pega o total da renda se ultrapassar o valor perde-se o direito.  Normal o aumento.
Quem é contra o auxilio deveria torcer para que aumente ainda mais esse valor. Quando maior o teto menos chance de receber.

E auxilio não  para é para o preso, preso não pode gastar dinheiro na cadeia. Nunca pensou nisso? O auxilio é para a família e é preciso ter carência de contribuição para ter o dinheiro. Ah não sabia?  Agora sabe. Não quer que aumente o teto e  é contra o beneficio.  Como diz o Chaves: Que burro dá zero pra ele.

Ou inventam ou distorcem e pegam as pessoas que não pesquisam não investigam e são presas fáceis. Aqueles que acreditam em tudo o que leem não questionam mesmo que a coisa não tenha logica alguma  e vão espalhando por aí um monte de bobagem. Devem ser motivo de muitos risos quando um advogado lê, quando alguém que conhece daquele assunto toma conhecimento.   

O desespero fez a metralhadora das fakes disparar.

 

Salário para o prisioneiro...

Condenado por que vai fazer alguma coisa...

KKKKKKKKKK

Não seja tolo, não se torne presa fácil, não se deixe manipular.

Cuidado não dissemine mentiras por aí, isso é desonestidade e falta de caráter. E dá cadeia também.



 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

BATE PAPO COM O RIM SOLITÁRIO

 O rim que ficou hoje me perguntou:

-Cadê meu irmãozinho? Como é que a gente fica?

Eu respondi:

- Evoluiu, seguiu outro caminho...

E foi morar numa casa bem mais bonita.

Mas não se preocupe, pode deixar

Que para te consolar

E afogar suas mágoas

Eu vou te dar muita ÁGUA.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

DEPOIS DO ARREBOL.

 

Dias nublados, tristes, indecisos,

Grades aprisionando a alma

Estrada estreita, ausência de calma

Que exista dentro de mim

Vida além do arrebol

A paz da chuva

A reta depois da curva

Esperando  a alegria do sol

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

ICEBERG

 Queria chegar a um lugar diferente,

Talvez um oásis de outros tempos

Queria aportar num abraço forte

E sentir o toque de um ombro

Queria me desvencilhar de toda essa carga

O peso é forte demais

Machuca a gente

Queria chorar, jogar para fora, extravasar

Nado, nado como quem se afoga.

Desesperado tentando alcançar as bordas.

Quem salva? Quem abraça? Quem acolhe?

Sou uma ponta de iceberg, engano bem

Submerso estão os terrores,

Escondidos os pavores

O frio, o ar fétido, a casa bagunçada

Equilibrando-me nos abismos do fim.

E as garras da opressão cravadas no pescoço

Será que vou cair?

Mas o sorriso continua aqui.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

 DESEJO A VOCÊ UM FELIZ E ABENÇOADO NATAL. 

E UM 2023 REPLETO DE REALIZAÇÕES E CHEIO DE COISAS BOAS. 


ABRAÇOS!

MÚCIO ATAIDE

M. A. PRODUÇÕES. 

O CARRINHO, O ENJOADINHO E O MENDIGUINHO.

 E o ingrato do Ricardinho reclamava do pai, enquanto os dois andavam pela rua. Reclamava do carrinho que havia ganhado. Naquela época um carrinho de fricção era um grande presente de natal, mas o enjoadinho queria outro  modelo, então xingava o pai e resmungava  pela rua. O pai disse que na loja não havia nenhum modelo do outro para que pudesse trocar e ele não tinha dinheiro para comprar um novo. Então o menino teria que se conformar com aquele mesmo.

Quando passavam  em frente a uma a uma praça o menino parou  e ficou olhando para uma cena curiosa: um menino mendigo recebia do pai naquele momento um carrinho feito de madeira, não era um produto artesanal bem trabalhado, eram madeiras pregadas, sobrepostas, algo que para ser chamado de tosco teria que evoluir bastante. O mendigo pai arrumou algumas madeiras e pregos e com um martelo improvisado sobrepôs as pequenas tábuas, dando àquele objeto um formato que muito longe lembrava um carro.  Mas o menino não queria nem saber de nada, estava muito feliz com o seu presente.   Então os dois curiosos se aproximaram mais  para ouvir o que o mendiguinho falava:

-Papai eu te amo, e muito obrigado por ter me dado esse brinquedo. Esse carrinho é o mais lindo que eu já vi.

-Não filho, isso é só uma coisa que o papai fez para você com todo amor. Tem carrinhos muito mais bonitos. Quem sabe um dia o papai possa dar a você um daqueles bonitos carrinhos de fricção. Mas por enquanto tem que se conformar com esse mesmo.

-Eu adorei papai, e sei que o senhor fez para mim com todo o amor.

-Pode ter certeza disso. A madeira achei por aí. Os pregos foram difíceis de encontrar e o martelo foi uma pedra. Mas foi com muito  amor sim.

Então Ricardinho, o ingrato enjoadinho, ouvindo aquilo abraçou fortemente o pai e agradeceu pelo seu belo carrinho de fricção. Os dois ficaram ali por algum abraçando e chorando, brincando de amor e de gratidão. O menino entendeu o quanto era abençoado e percebeu a besteira de se ficar resmungando por aí. Depois de dizer um eu te amo ao pai, foi brincar feliz com aquele carrinho que antes era indesejado e depois  tornou-se bem-vindo , porque tudo depende do jeito de se olhar. 

E aquele menino hoje tem uma pequena fábrica de brinquedos artesanais. E na época do natal sai por ai distribuindo. São brinquedos simples, mais sofisticados que aquele do menino mendigo,  sem a tecnologia do carrinho de fricção, mas que deixa muita criança feliz. Apesar da tecnologia dos dias hoje brinquedos assim ainda fascinam quem nada tem.  Felicidade multiplicada por que um dia um pai fez um carrinho com amor e a semente do amor se multiplica e se transforma numa bela árvore com doces frutos.


quarta-feira, 30 de novembro de 2022

A MORTE ENSINA

 O que é a morte? Que força é essa que nos joga ao chão? O maior de todos os mistérios? Quem morre vira santo? A morte cria qualidades nas pessoas? Porque exaltamos coisas e acontecimentos que minutos antes do falecimento não tinham a menor importância para nós? Será que  a falsidade que nos rodeia, a exaltação do ego que nos faz aproveitar esse momento para pavonearmo-nos com  belos discursos vazios?  Perguntas... perguntas...

É difícil responder a qualquer pergunta referente à morte. Pois ela, essa abominável senhora da foice é a  mais enigmática de todas as damas. Ela é a personificação do mistério.  A guardadora zelosa dos maiores segredos. Os segredos do lado de lá. Só através do seu abraço conheceremos o lado de lá. E o lado de lá enquanto estamos do lado de cá  existe apenas na nossa imaginação. Ninguém  sabe nada.  Mistério total.  É o motivo de inúmeras  indagações e de uma enorme lista de perguntas  feitas pela humanidade ao longo de toda a sua existência.   Nosso encontro com ela está marcado, sabemos que vai acontecer, mas fugimos de suas garras de todas as formas possíveis. Por isso as perguntas acima como todas as demais relacionadas a essa cruel ceifadora são difíceis de responder, mas vou divagar um pouco sobre isso.  

Não acredito que ninguém vire santo porque faleceu. Não é isso que acontece. Acredito que  a morte da forma mais contraditória possível vem despertar, fazer renascer em nos a vida da alma, morta pelas contingências da vida.  E tal qual um farol nos faz  acordar de um sono letárgico e alienante. Percebemos coisas, descobrimos coisas que pensávamos não saber, mas sabemos. Entendemos a brevidade da existência e salientamos as qualidades daquela pessoa. Qualidades existentes, não criadas.  Ela toca lá no fundo e nos faz lembrar a importância de se dar importância aos momentos simples do dia a dia e a valorizar tudo o que temos. Quem já não vou ouviu em um  velório cochichos e lamentos  sobre  a constatação da pequenez da nossa existência. Por todos os cantos pode-se ouvi  as frases:  –Não valemos nada. Vamos aproveitar o hoje, Valorizar o que temos. E coisas assim...

Recuperamos naquele momento  valores esquecidos e ignorados. Muitas pessoas após perderem um ente querido se voltam para a família. Passam a conviver melhor com os que ficaram e mudam seu comportamento. Outros passam a cuidar mais da saúde. E outros infelizmente não resistem ao choque direto com a efemeridade e desmontam na mais profunda depressão.

Mas a cruel ceifadora é capaz de fazer o tempo voltar.  Como num passe de mágica a dama da foice nos mostra o quanto cada momento foi importante e o quanto gostávamos daquela pessoa. Ela nos toma pela mão e nos leva até aquele festivo almoço de domingo ouvindo  o burburinho, os risos alegres, as brincadeiras. Também nos conduz até  aquelas cenas perdidas na infância com todo o seu encanto. Faz-nos sentir de novo a quentura do colo, a suavidade do carinho, a doçura do beijo, a ternura do olhar. Com um sorriso sarcástico a mulher da foice nos conta que gostávamos muito do cheiro daquela pessoa, do estilo dela, da forma de se vestir, do temperamento, de todas as suas qualidades e até mesmo dos defeitos.  Põe outra vez diante de nós a beleza viva daquele semblante, os movimentos, o jeito único de ser. Ela puxa a cadeira e nos faz sentar na varanda e ouvir de novo aquele timbre único e inigualável de voz. E ouvir aquele bordão de estimação, aquela história contada, esquecida e repetida, repetida... Faz-nos ver  quanto aquele gesto e aquela atitude  eram importantes para nós. E de novo, levados pelas suas mãos esqueléticas  lá estamos naquele aniversário, naquele natal de luz, na festa do ano novo ,no almoço de domingo na  casa da vovó, no passeio à praia...curtindo aquela pessoa e vendo o quanto de vida transbordou sem percebermos.  Conta-nos até que gostávamos sem saber daquele tique nervoso, daquela mania estranha, daquele jeito de falar ou daquelas atitudes. Então tudo era importante?  Faz-nos ver que existia muita vida onde pensávamos existir apenas o dia a dia.

 Não elas não criaram qualidades após a morte, apenas nos lembramos de que elas existiram.  A morte vem nos acordar. É o despertador que nos acorda da nossa letargia, da nossa pequenez diante da importância da vida, dos momentos vividos e da pessoa que se foi. Ela nos mostra caminhos e nos faz ver que apesar de efêmera e pequena (Contradição pura. Paradoxo total.) a vida é grande e deve ser vivida de forma plena com outro olhar, com a valorização de todos os pequenos momentos do existir, com a exaltação do que melhor existe em quem está do nosso lado na caminhada.

 Mas é assim que a coisa funciona. Responder as perguntas sobre ela jamais conseguiremos, fugir do corte afiado de sua foice, de forma alguma, mas viver de verdade enquanto ela não vem podemos tentar.

Ouso dizer que a morte é vida e ensina a viver e penso nas toneladas de contradições existentes nessa frase.

Veja a todos como se fossem defuntos. Meu Deus que coisa estranha de se dizer? Nem acredito que escrevi isso, mas o raciocínio é.  Olhe para o vivo com o mesmo olhar. Olhe para quem está do seu lado e pense: como eu viria essa pessoa aqui do meu lado, o que ela seria para mim se ela não mais estivesse aqui?  Ela está.  

Amar mais, tocar mais, sentir mais, olhar mais em volta, a vida acontece agora. Viver de verdade.   A morte ensina

 

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

CORES DO BRASIL

 Zilda hasteou grande bandeira verde amarela em frente à sua janela. Queria torcer pelo Brasil na copa

Ficou com medo que alguém achasse que aquela bandeira tinha outro significado.

Pessoas criam símbolos e símbolos podem ser usados para o bem e para o mal. Símbolos podem ser roubados dos seus verdadeiros detentores e usados para diversos interesses. Bandeira. Qual bandeira você hasteia? Qual norteia você? De que cores são? O que defendem? Qual o define? O que é a bandeira da sua vida?

A bandeira do Brasil é de todos os brasileiros, nosso símbolo, símbolo do gigante, do brado retumbando, daquele que não foge à luta. Do impávido colosso, e isso não é pouco. Pátria amada Brasil no céu de anil. Não a roubem, não a manchem, não a envergonhem. Terra de paz, de amor, de alegria, de solidariedade, não de ódio de rancor. É o pavilhão maravilhoso dessa nação também maravilhosa . Não é símbolo do ódio, nem dos privilégios. Não é símbolo de poucos, mas de todos nós.

Zilda recolheu a bandeira da janela, pediu a um amigo pintor que escrevesse uma frase com letras bem grandes na parte verde de baixo:

É PRA COPA.

E o gigante tremulou na janela.


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

ANAHI

 Sentimos, simplesmente sentimos e muitas vezes não podemos explicar. As coisas aqui por dentro são confusas, indecifráveis, pois somos uma célula apenas do grande mistério que ronda, do plasma de incógnitas que cobre todo o existir. E como uma fruta inacessível lá no alto do galho a explicação para muitas sensações não é alcançada. E ficamos sem poder provar o delicioso sabor da verdade. Ela Foge tal qual areia fina pelos vãos dos dedos.

Como diz aquele povo “lá das Minas Gerais, no sabpassado”, eu estava ouvindo músicas pelo youtube e me encantei como uma. É fato conhecido que sou admirador de música sertaneja, caipira e raiz e uso hoje os recursos tecnológicos para espelhar o meu smartphone a uma caixa de som, amplificando assim o prazer da sonoridade dos belos duetos e das deliciosas melodias do passado. Coisas de quem está na flor da idosidade! E por acaso tocou a música Anahí. E foi exatamente aí que tudo começou. A música é lindíssima, uma versão de uma música paraguaia, vinda de uma época em que as versões do espanhol. (castellano) para o português eram comuns no Brasil. Uma enxurrada de guarânias, rancheiras, polcas, boleros e diversos ritmos latinos invadiram o nosso país. Músicas bem duetadas, com um tom de paixão e melancolia na voz. Para embalar os corações apaixonados e fazer o caboclo gritar: desce mais uma. “Eita que é paixão pra mais de metro”. Mas além das apaixonadas tinham as hsitórias emocionantes e ternas. Coisas que duplas como Castanha e Inhana souberam fazer muito bem.

Admirei a canção. Viajei na melodia. A doçura e a sonoridade dos harpejos, o ecoo pelos ares das notas daquele dueto tão perfeito, me conduziram pelos caminhos da emoção enquanto ouvia.

Tratava-se de uma belíssima lenda. Uma história indígena sabe-se lá quantos séculos girou até chegar a nós. Conta a historia de uma jovem guerreira que vai defender sua tribo, é aprisionada e levada até a fogueira, quando as chamas a estão queimando a jovem se transforma numa linda flor. Os inimigos fogem assustados e os pássaros cantam comemorando o milagre da flor , da flor de Anahi.

Não sei se foi por causa da belíssima melodia, do doce e suave dueto, da beleza da lenda, ou de algo mais, mas viajei para outras eras naquele momento. A canção parecia despertar em mim toda uma coisa brasileira, latina, tupi guarani, sei lá... Parece que foi lá no amago, na parte mais profunda do meu ser e arrancou de lá a emoção escondida, perdida nos mistérios da existência. Tenho a impressão de que aquilo transcendeu, ultrapassou minha vida e foi buscar coisas de outras eras antes de mim. Talvez tenha visitado meu avô ou bisavô. Sei não. Mas algo além de humano e além da minha época foi despertado aqui dentro durante aquela canção. A ancestralidade, a miscigenação, os valores escondidos passados de pai para filho... A poesia acorrentada, a beleza envergonhada, ou talvez não seja nada disso, somente a imaginação criando coisas. Mas foi um êxtase, um momento divino e poderia usar palavras e mais palavras, mas as palavras são poucas, não alcançam a emoção, não alcançam esse lado escondido e misterioso que existe dentro da gente. Senti, e foi algo incrível.

Fiz um curso de parapsicologia com o grande padre Quevedo (tratando de assuntos que ecxistem) e ele defendia a ideia de que temos uma memória genética e podemos carregar a memória das sensações vividas por nossos antepassados. Quem sabe não foi isso que aconteceu. Vai ver despertei uma memoria de algum antepassado meu, que viveu numa tribo ou que esteve em volta de uma fogueira numa noite clara de inverno sob os raios de um belo luar, ouvindo histórias belíssimas como as de Anahi. .. Minha vó pela sua aparência poderia até ser descendente de índios. Vai ver até algum ancestral meu foi índio também e acreditava na lenda como verdade incontestável. Viva a glândula pineal que segundo se diz é aquela responsável pela espiritualidade, transcendência e coisas do gênero. Vai ver foi apenas ela, a química do corpo me enganando... Vai ver... quem sabe... talvez... cogitações, possiblidades ...mistérios...

As lendas fazem parte dessa estrada que transito, que todos nós escritores, poetas gostamos tanto de transitar. A estrada dos sonhos, do que é belo e mágico. E que importa se não é verdade cientifica e comprovada? É uma verdade do sentir, é o que acalenta nossa alma e faz a vida ser muito mais bonita.

Foi um momento de prazer e beleza que quero se repita muitas vezes. Extraindo aí dos milagres da eletrônica, da modernidade dos inventos humanos os tesouros de eras bem distantes.

A emoção, não sei explicar, mas quero sempre sentir em minha vida o perfume dessa flor e desse mundo que estava escondido dentro de mim e que Anahí veio perfumar Que a flor de Anahi exale o perfume sobre a gente, o perfume da beleza, da sensibilidade e da magia. E que venha se contrapôs a essa realidade dura, rotineira, exaurida de beleza, que suas pétalas coloram um pouco esse mundo cartesiano, lógico, murcho e sem graça, Pois é a função da arte, da poesia, das lendas e coisas do gênero povoar o mundo de lindas inutilidade como dizia Manoel de Barros. Porque a vida é pequena, a vida é pouca, não basta e precisa dessa outra realidade. Desse mundo além.

Que nunca deixemos silenciar dentro de nós esses divinos acordes harpeados pelas mãos da imaginação e da sensibilidade.

Anahiiii


sexta-feira, 18 de novembro de 2022

AR DE ETERNIDADE

 Um ar de eternidade

Lá a vida tem alto preço

Infância é a morada

De todos os começos

É a poesia do andar lento

E do sentir cada passo

É o brincar de viver

Não à obrigação e dever

Alegria ocupando todos os espaços

terça-feira, 15 de novembro de 2022

ETERNO SR BRASIL

 Rolando se  foi, foi rolando  a poesia, voando nas notas e versos,  acho que foi  tocando uma bela viola e cantando um modão  lá para a terra dos que viajam fora do combinado. 

Foi ele a viola rumo a Deus, esperando encontrar o amor. O amor que ele plantou com a sua arte.

Chegando por lá deverá hastear a bandeira do Brasil bem na entrada. Depois vai proseando, se entrosando e fazendo amizade. Cantando e contando causos. Vai ficar feliz ao encontrar velhos amigos. Vai atuar na peça do Ariano. Com certeza compor um samba com Adoniram. Dar aquela gargalhada com Dominguinhos. Uma prosa muito gostosa com o Dito Preto lembrando os tempos de São Joaquim. Pontear com Tião Carreiro. Quando encontrar o Tinoco vai ouvir em alto e bom som: -Que Beleza! Se esbaldar numa roda de samba com Cartola e Jamelão. Fazer escada de novo num show do Mazzaropi. Duetar com Inhana. Ouvir imitações de Nho Totico. Chupar uma laranja madura na companhia de  Ataulfo.  Cantar e prosear com Gonzaguinha, Gal, Vander Lee, Vinícius,  e tantos outros.

  Pedir a benção a todos os grandes que já passaram por aqui e continuar por lá a ser o Sr. Brasil.

O Brasil fica triste com essa partida, mas fica descoberto, fora da gaveta e sem medo de se  mostrar, de se expor, por obra dele ergue a cabeça e não se dobra subserviente a ninguém. Descobriu seu valor e a imensidão de sua arte.

E concluímos que  no verso e reverso da sua vida inteira espalhou belas sementes e   que ruminando causos, contando história e cantando as coisas do Brasil  dá pra ser feliz. 

A arte e a cultura brasileira perdem muito com essa viagem.

***

As manhãs de domingos

Agora são assim

Alegres por lá, tristes por aqui

 A benção Rolando Boldrin!

sábado, 12 de novembro de 2022

O CRISTO ESTÁ LÁ

 O cristo continua la*

Uma pedra inerte 

No alto da serra

Com a cidade faz flerte 

Eu continuo aqui

Com as minhas indagações 

Assustado com o tempo

Com seu trotar nada lento.

Descendo sobre mim as mutações 


* Ler o texto "Lá ele não desce", publicação nesse blog, o poema é como se fosse a continuação do texto. 


Para de Minas 12 de novembro de 2022





sexta-feira, 11 de novembro de 2022

QUEM PODE TOMAR CERVEJA?

 Autoria Múcio Ataide

Passei pela praça e vi aquele homem tomando cerveja sentando em um banco. Um fato corriqueiro,  já vi pessoas tomando cerveja em vários lugares, nos bares, nas praias, andando pelas ruas com a lata na mão, nada diferente, então o que chamou a minha atenção? Por que eu achei que ele não podia estar ali tomando a cerveja?  A pergunta não demorou a ter uma resposta: aquele era um mendigo que há algum tempo havia me pedido uma esmola na rua. Tinha  certo impedimento físico que segundo ele o impedia de trabalhar.  E o mancebo  usava o dinheiro ganho para beber.

Num primeiro momento senti-me indignado com aquilo e até mesmo enganado. Uma vozinha maldosa disse bem lá no funda da minha mente. – Então esse malandro me enganou, pediu esmola, e eu pensando que era para comprar comida. Agora está ali bebendo. Não está certo isso. O certo seria ele comprar comida. Comprar o essencial para o seu sustento.

Mas logo depois outra voz falou. – Eu chego à minha casa, posso abrir aquela lata de cerveja que está na geladeira e tomar quando eu bem quiser, sem que ninguém julgue o meu momento de prazer. Eu posso, ele não. E porque eu posso? Porque eu tenho um pouco mais.

Então a realidade caiu como uma pedra em cima de mim. Quem tem mais, tem mais direito. Aquele homem tem menos que eu, e um pouquinho só a menos, então ele tem menos direito, eu o julgo por isso. Eu o julgo porque ele está fazendo algo que eu gosto de fazer. Eu o julgo por me achar de certa forma superior a ele.

Então é assim? Ser pobre não é apenas não ter o que comer? É não ter o direito a muitas coisas, é não ter direito a se deliciar com uma boa cerveja. É viver apenas para o que é básico?

Aquele homem que ali está, pobre mendigo, doente, impossibilitado de trabalhar vivendo de esmolas está fadado a não ter prazer, a sepultar sua vida antes da morte. Qual o sentido existe nisso?

Eu tenho apenas um pouco mais que ele, sou pobre, classe baixa, trabalhador, assalariado e posso tomar cerveja, mas ele que tem menos, um pouco a menos, não pode.

Mas o sistema é injusto não apenas para criar necessidade, mas sim para criar a estratificação e classificar as pessoas em classes e categorias. E deles extrai dinheiro  e direito.

A primeira análise empírica, do homem comum, é cruel julga e aponta o dedo para condenar. A segunda, do cientista social entende, compreende que a coisa vai muito além. Muitas questões estão ali dentro daquela lata, que ele sorve com tanta alegria, parecendo ser a coisa mais gostosa do mundo.

Vi uma lógica no meu julgamento e ao mesmo tempo vi uma grande injustiça nele. Percebi como as coisas são perversas e como tudo está calcado em cima da estratificação. Quem pode fazer isso ou aquilo? A quem é dado esse ou aquele privilégio?  Tem mais pode mais, tem menos pode menos? Não é apenas ter o dinheiro para comprar, mas é o direito de realizar. Pois ele tem o dinheiro, ganhou pedindo, não roubando, mas não dou a ele o direito de fazer o que quiser com o dinheiro que é dele.  Soberba, pura soberba.  E por causa disso o meu dedo apontou para ele e logo o execrou pelo ato que pratico com a maior naturalidade sem que ninguém me aponte o dedo. Vejam só o tamanho do abismo que o sistema cria. O enorme buraco que existe entre uma existência e outra.

O primeiro raciocínio simples e empírico faz sentido, é o que todos pensam, mas o segundo vem mostrar o tamanho das injustiças, a calamidade da perda simples de um direito. Pobre só pode comer tal qual um animal vive apenas para as coisas básicas e elementares, não nasceu para os prazeres e delícias , está fadado a carregar sua existência miserável e sem graça até o fim dos seus dias. A mendigar pelo básico, viver pelo básico, uma vida básica e sofrida.

E assim segue até que a vida diga: - Chega, já sofreu demais. A cerveja é só para os privilegiados iguais ao Múcio, quem tem um pouco mais que você, só para os que têm mais, mesmo que seja só um pouquinho mais. Para eles, sim é permitido o prazer, o gozo e as alegrias da vida. Para você não. Bem feito! Quem mandou ser pobre sem nada? Quem mandou não conseguir emprego, quem mandou ser doente e não poder trabalhar? Coisas da sorte, do destino, culpa sua, somente sua.  Direito a menos para você, prazeres a menos para você. O Múcio pode, ele sim, tem direito. Você não. Agora é sua hora de ir. Libere o banco da praça para outros mendigos, outros mais dignos que gastem o dinheiro da esmola com comida e não com prazeres a que não têm direito.

Sai dali pensando sobre essas duas visões. A simples e a sociológica e nenhuma delas resolveu o problema do mendigo que continuou lá saboreando a cerveja, parecendo bem feliz. Um hiato para suas dores e seus dramas.

-Saúde  amigo!

 

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

CONTAS DE GOTAS

Deixa a chuva cair

Que ela faz muito bem

Deixa a chuva cair

Que a paz cai também

Brinda com sua doce poesia

Em contas de gotas desfia seu rosário

Vem saudar nossa alegria

Derrame serenidade nesse dia

Do nosso encontro literário

 

Site oficial  Neste site,  um pouco da carreira literária de Múcio Ataide, seguindo o caminho das letras para  brindar a vida e descobrir se...